5K7s #1

[FOTOS] ReB

 

A cassete é um formato muito interessante. Em primeiro lugar porque é extremamente económico: é relativamente barato imprimir profissionalmente tiragens baixas de 100 exemplares ou até menos, dando assim dimensão física a música que de outra forma estaria condenada ao limbo digital do SoundCloud ou Bandcamp. Depois, porque este formato encaixa de facto com a personalidade sónica de boa parte da música electrónica: este suporte analógico faz favores incríveis às baterias confeccionadas em MPCs ou SPs e complementa de forma bastante lisonjeira qualquer sintetizador pré-anos 1990, tanto os clássicos analógicos como os seus contrapontos digitais dos anos 80 (um DX7 soa bem em cassete por exemplo) ou até os mais modernos emuladores virtuais.

Finalmente, muita música produzida com orçamentos compatíveis com a expressão lo-fi acaba por beneficiar deste filtro magnético, um pouco como as nossas más fotos do iPhone conseguem ganhar algum charme quando passadas pelos filtros vintage do Instagram. Além de tudo o que se menciona atrás, convém não esquecer que a expressão “mixtape” deriva directamente das cassetes com que se registavam as mixes que os DJs assinavam, nos clubes e nos parques, nos alvores dos anos 80. É, portanto, um suporte com espessura histórica, com sólidos argumentos económicos e técnicos, que continua a fazer pleno sentido. E a gerar novas e incríveis edições com fantástica regularidade.

Por isso mesmo, de vez em quando, traremos até aqui grupos de cinco cassetes que acreditamos merecerem a vossa atenção.


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[DAPHNE ORAM]
Pop Tryouts / Was Ist Das/Mondo Hebden / 2015

A Mondo Hebden é um selo da etiqueta Was Ist Das e pretende dedicar-se a edições de arquivo e sinceramente não podia ter arrancado de melhor maneira do que com este Pop Tryouts de Daphne Oram. A história conta-se rapidamente: o autor de um livro novo sobre Daphne Oram e o Radiophonic Workshop localizou nos arquivos da universidade Goldsmiths (Londres) – que guarda o acervo da pioneira da electrónica britânica – uma bobine de fita identificada com o título Pop Tryouts que continha uma série de variações sobre um tema – uma aproximação à pop, mas, claro, do ponto de vista particular de Daphne Oram, uma das mais destacadas presenças nos primeiros tempos do Radiophonic Workshop. E há qualquer coisa de poético em disponibilizar em cassete música de uma pioneira da manipulação de fita cuja visão da electrónica tanto ficou a dever a esse suporte.

Esta edição extremamente limitada da Mondo Hebden vem com insert simples, com uma velha foto caseira de Daphne Oram a cores no centro do artwork e a cassete tem concha branca opaca com título num pedaço de papel grosseiramente colado, a procurar emular o efeito de uma cassete vinda directamente de um arquivo privado.

 

 


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[VOTEL, CANTY & SHIPTON]
Popular Mechanics 1 / Dead-Cert / 2015

Andy Votel comanda os destinos da incrível Finders Keepers juntamente com Doug Shipton. Doug Shipton controla os caminhos da Dead Cert juntamente com Sean Canty. E Sean Canty orienta as acções dos Demdike Stare juntamente com Miles Whittaker. Confuso? Isto é, basicamente, uma família. E em perfeita sintonia. Os três gostam de explorar algumas das mais remotas regiões cartografadas em vinil, incluindo muita electrónica experimental. Esta mixtape, na verdadeira acepção da palavra (nunca devemos esquecer que o hip hop foi um dos primeiros amores de Votel e porta de entrada para estes esotéricos mundos vinílicos), reúne preciosidades variadas e algum material que a Dead Cert tem vindo a reeditar, como a música de Dariush Dolat-Shahi.

Pode ser que o título da cassete – clara referência aos pioneiros italianos da electrónica industrial Mecanica Popular – signifique que vem aí nova reedição. Ficamos a cruzar os dedos enquanto ouvimos esta cassete recheada de preciosidades não-nomeadas. A cassete é amarela e vem com um insert desdobrável em papel de qualidade.

(Como não há SoundCloud desta edição, fica aqui um clipe de uma mixtape de Andy Votel).

 

 


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[V/A]
Synths From the Sahara / Sahel Sounds / 2014

A Sahel Sounds é a mesma editora que nos trouxe dois incríveis volumes Music From Saharan Cellphones e que nesta nova edição em cassete faz exactamente o que o título promete e reúne uma série de Hendrixes dos Casios. Alguns nomes são conhecidos, nomeadamente do catálogo da própria Sahel Sounds, como Mamman Sani, mas há por aqui anónimos manipuladores das teclas mais baratas fabricadas no Japão – como acontece com o artista identificado como Unknown Mauritania – e até um que responde à alcunha artística de Japonais.

Electrónica lo-fi, alimentada a pilhas, ingénua, mas carregada da mesma luz que castiga o deserto. A capa desta cassete parece uma simples fotocópia, sem desdobrável adicional e a própria cassete, de concha branca, parece uma edição caseira apenas com as iniciais SFTS escritas à mão.

 

 


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[THE MOTHERSHIP COLLECTIVE]
All Nigga Radio / Bonding Tapes / 2015

Esta cassete da Bonding Tapes é absolutamente delirante e está apresentada como se se tratasse de uma gravação de uma emissão de rádio: “all nigga radio, all day“. Claro que há por aqui humor negro nada PC – aliás a capa, que inclui o título …Around Blacks … Never Relax! surge com uma capa amarela que censura o artwork que só ofenderá quem não perceber o humor. Negro, evidentemente. E a música? P-funk, com bastante ácido analógico atirado por cima. Tudo produzido dentro de um sampler, evidentemente, com a sujidade dos discos originais a acrescentar personalidade à coisa. É uma homenagem hip hop a uma era, quando a rádio era porto de abrigo de alguns personagens lunáticos e o funk embarcava em naves dirigidas à estrela Sirius ou ao planeta Urano (em inglês tem mais graça). E por debaixo de todo este humor há grooves bastante sérios, samples que resultam de algum diggin’ profundo (é electrónica da Bruton que se ouve a suportar um delirante pseudo-anúncio por volta do minuto nove do lado A?), batidas gordas, baixos electrónicos expansivos que soariam bem em qualquer disco de George Clinton.

A Bonding Tapes é uma etiqueta para manter debaixo de olho. Cassete com concha verde, com label em papel vermelho a dar-lhe um toque deliciosamente old school.

 

 


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[BADBADNOTGOOD & GHOSTFACE KILLAH] 
Sour Soul / Lex Records / 2015

Não vale a pena alongarmo-nos demasiado sobre Sour Soul que já por aqui mereceu cuidada análise do Bruno Martins. Mas vale a pena garantir que a experiência de ouvir a baqueta de Alexander Sowinski a acertar em cheio na pele esticada da tarola é absolutamente viciante se escolherem conduzi-la no ambiente analógico carregado de grão proporcionado pela cassete (escute-se “Tone’s Rap” para prova definitiva).

A Lex tem aliás tido o cuidado de oferecer alguns dos seus recentes lançamentos neste formato que parece, na verdade, ter sido criado com o hip hop em mente: o álbum de NehruvianDOOM é outro delicioso exemplo (aliás qualquer coisa de DOOM em cassete é compra obrigatória). A capa da cassete é a preto e branco, com o enorme Ghost a dominar o artwork que nesta versão surge em generoso desdobrável. A concha da cassete é de plástico transparente com impressão a dourado. Classy

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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