BADBADNOTGOOD & Ghostface Killah // Sour Soul

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Há uns dois ou três anos era algo que poderia ser considerado inesperado: três rapazes de Toronto, estudantes de jazz, juntarem-se a Ghostface Killah, um daqueles nomes excelsos do universo do hip hop, fundador de uma das maiores referências do género, os Wu-Tang Clan. Mas nos tempos em que vivemos, não se deixem surpreender por muita coisa – nem é, de todo, impossível que aconteça um disco como Sour Soul.

Não é uma colaboração caída do céu. Esta nasceu da atenção do produtor Frank Dukes, que pensou nesta união há uns bons três anos, mais ou menos por alturas da estreia dos BADBADNOTGOOD em disco. Foi em 2011, com um trabalho de reinterpretação de temas de malta como Flying Lotus, Gang Starr, J Dilla, Nas ou Ol’ Dirty Bastard (também ele dos Wu-Tang). Matt Tavares, Alex Sowinkski e Chester Hansen começaram a fazer notar-se no género e com isto das internetes, além de um contacto de Dukes, o grupo recebeu big-ups de Tyler, The Creator, Frank Ocean ou Flying Lotus. Claro que, mexido como é, o líder dos OddFuture acabou por aparecer na cave dos rapazes e gravar um ensaio em jeito de jam session com os BADBADNOTGOOD – que pode ser visto aqui. Em 2011, no Twitter, Tyler fez uma interessante comparação e chamou-lhes “Dave Brubeck Trio Swag”, recordando a classe melódica do clássico pianista de jazz.

Seguiram-se mais dois discos de instrumentais – BBNG2 (2012) e III (2014) – e dois discos ao vivo. Com Sour Soul, o quarto, o trio leva as melodias para outro patamar, tanto mediático – pelo companheiro de rimas que ganharam, Ghostface Killah – mas também pelo lado da composição. Os BADBADNOTGOOD atiram-se, pela primeira vez, à criação beats para rimas e voz e carregam de forma mais clara no pedal acelerador do hip hop. Agarraram-se a um parceiro que puxa as instrumentações para outro nível com a ferocidade do flow a marcar a diferença nos beats orgânicos de bateria, baixo e guitarra e teclados.

Não são assim tantas as bandas que largam batidas para MCs cuspirem em cima. Essa é uma das diferenças dos BADBADNOTGOOD e que nos faz recuar até à linguagem de nomes como The Roots ou dos Blakroc – projecto de Damon Dash, ex-parceiro de negócios de Jay-Z na Roc-a-Fella, que convidou os Black Keys a fazer um disco com Mos Def, Pharoahe Monch, Ludacris, Q-Tip, Jim Jones, Raekwon, RZA, Ol’ Dirty Bastard e outros.


 


Sem o lado típico de um DJ num colectivo de hip hop, Sour Soul distingue-se pela capacidade de criar melodias simples, mas com um balanço muito bom, de batida clássica, com os teclados a garantirem ao disco o lado das programações. As ocasionais orquestrações que acompanham as linhas de baixo e guitarra levam o álbum para ocasionais paisagens quasi r&b, com um som clássico, sujo e fumarento, como se tivesse sido registado em bobines empoeiradas das décadas de 1960 e 70, tornando-se numa espécie de banda sonora de filmes de espionagem noir ou policiais com detectives à procura de suspeitos em casas de luzes vermelhas.

Killah, claro, está como peixe na água. Nota-se no seu ego a vontade de elevar as suas colaborações, pelo meio de uma discografia que já nos ofereceu trabalhos tremendos, como Ironman, de 1996, Supreme Clientele, de 2000, ou Twelve Reasons To Die, de 2013, em que voltou a trazer à tona o seu fascínio pelo universo da BD. Aqui, com os BADBADNOTGOOD, regressa com as rimas ferozes, ameaçadoras com o seu estilo ameaçador, à homem de ferro. Nas vozes, Sour Soul conta ainda com mais convidados de peso, como o londrino MF Doom (no tema “Ray Gun”) e dos MC de Detroit Elzhi (dos Slum Village em “Gunshowers”) e Danny Brown (em “Six Degrees”).

Sour Soul não deixa de ser um disco equilibrado, com uma interessante linha condutora de início ao fim, mesmo com tantas colaborações e intercepções de estilos. Nota-se que não são os BADBADNOTGOOD a fazer beats para Killah, nem Killah simplesmente a puxar dos galões como um dos maiores bad asses de Staten Island a rimar com três jovens músicos. Os BadBadNotGood mostram que têm mão em todo o processo e dão o seu próprio ritmo ao álbum até com interlúdios instrumentais que confirmam o lado ecléctico e experimental de onde sobressai a importância que dão ao facto de terem crescido numa escola de jazz.

 

Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.