O ano era 2004. A internet infiltrava-se lentamente no quotidiano, mudando hábitos e imaginários. Em Portugal, tinham passado dois anos desde a entrada no euro. O novo século ainda estava por se definir. O hip hop já vinha a fazer o seu caminho desde o final da década anterior. Depois de General D ter aberto portas ao primeiro álbum do género em Portugal, em 1995, o que até então surgia como marginal e contracultura começava a ganhar forma e visibilidade. Em 2004, por exemplo, Da Weasel afirmavam-se com Re-Definições. Emergiam novas vozes de luso-africanos, ou afro-portugueses, filhos de imigrações das décadas de 60 e 70, que cresceram em Portugal e passaram a afirmar-se como parte integrante da sua identidade cultural. Artistas como Sara Tavares — que lançaria “Balancê” no ano seguinte — davam corpo a essa geração que não era apenas herdeira de duas origens, mas criadora de uma linguagem própria, feita de cruzamentos e vivências híbridas.
Ao mesmo tempo, a eletrónica europeia vivia um momento de expansão. Berlim tornara-se um dos grandes centros mundiais do techno depois da queda do Muro, com antigos espaços industriais a serem ocupados por uma nova cultura de clube. Lugares como Berghain, fundado em 2004, tornaram-se símbolo dessa transformação. A produção musical começava a sair dos estúdios profissionais e a entrar nos quartos, nas caves e computadores pessoais. Os softwares de produção tornavam-se mais acessíveis, permitindo que cada vez mais gente criasse música sem depender de grandes meios técnicos ou financeiros. Em Lisboa, uma revolução musical e cultural preparava-se para ganhar forma.
O Bairro Alto era um dos centros dessa circulação. Ali cruzavam-se artistas, designers, músicos, DJs, jornalistas, e curiosos. Era um ponto de encontro e de possibilidade. Foi para esse centro que João Barbosa — então ainda conhecido como Lil’ John, muito antes de adotar o nome Branko — começou a deslocar-se a partir da Amadora, acompanhado por Rui Pité (ou RIOT), seu vizinho e amigo de liceu. Era tempo de sonhar projetos, testar ideias, conhecer gente, e mexer as águas.
Desses encontros foram surgindo projetos como os 1-Uik Project, formado por João Barbosa (Lil’ John) e Kalaf Epalanga, onde se exploravam cruzamentos entre soul, hip hop e kuduro. Os primeiros esboços rítmicos que mais tarde se transformariam num universo sonoro singular. Ou a Cool Train Crew, coletivo que juntava Branko, Kalaf e RIOT, entre outros, e que se movia sobretudo em torno da cultura de DJ, com uma forte ligação ao drum and bass.
Lá fora, nomes como Massive Attack, M.I.A. ou Diplo ajudavam a reconfigurar o mapa da música urbana global. Géneros como o broken beat ou o dubstep começavam a expandir-se. Por cá, o kuduro permanecia relativamente circunscrito. Em Lisboa, ouvia-se sobretudo nas discotecas africanas, muitas vezes tratado com preconceito, paternalismo ou exotização.
Foi nesse contexto que João Barbosa, então DJ residente do Clube Mercado, começou a reconhecer os padrões sonoros que mais tarde levariam à criação de Buraka Som Sistema. A partir dessa residência prolongada — com horas seguidas a passar música, a testar sequências e a tentar manter a pista em movimento — começou a perceber afinidades entre o kuduro do final dos anos 90 e outras linguagens de pista que orbitavam os 130 e 140 BPM. A ponte começou a ser feita com compilações de kuduro compradas na Praça de Espanha, usadas como matéria-prima para criar transições na pista de dança.
Como resultado natural desse processo nasceu a Enchufada, editora que celebra hoje 20 anos. Criada em 2004 por João Barbosa e Kalaf Epalanga com o objetivo inicial de lançar o primeiro álbum dos 1-Uik Project, a Enchufada começou por ser pouco mais do que um nome e um site. Tinham tentado bater a várias portas, sem grande entusiasmo do outro lado. A dada altura, decidiram criar a sua própria estrutura. Pouco depois, a Enchufada editava também Chega De Saudade, de Melo D, e começava a afirmar-se como uma pequena base de operações para uma rede de cumplicidades em formação. Em 2006, tornou-se oficial e legalmente uma editora.



No quartel-general da casa, Branko contou ao Rimas e Batidas a história desse percurso. Entre fotografias no Clube Mercado, imagens do jovem João Barbosa com Kalaf e Rui Pité no final dos anos 90, capas de discos, t-shirts e objetos guardados ao longo de duas décadas, acumulam-se memórias que se confundem com o nascimento de um movimento que transformou profundamente o ecossistema musical português e o projetou além-fronteiras.
Para assinalar os 20 anos da Enchufada, chega agora A Lisbon Club Story, compilação de 20 temas que funciona simultaneamente como arquivo e atualização do seu legado. O alinhamento divide-se em dois momentos: a primeira metade do disco é composta por temas novos, enquanto a segunda mergulha no catálogo e em faixas que marcaram diferentes fases da editora e da música de clube feita a partir de Lisboa. Entre os destaques está “Puro Mambo”, novo single dos Buraka Som Sistema — o primeiro tema do grupo desde a pausa anunciada há mais de uma década.
O percurso abre com “Passengers”, de Bison & Squareffekt, escolha de Branko para homenagear um projeto marcante da órbita Enchufada e recuperar a memória de Squareffekt, entretanto falecido. Seguem-se inéditos como “Rainha”, de Tusabe, “Nsákidilla”, de Joss Dee, “Depois do Eclipse”, de Shaka Lion, “Moh Bechona”, de Vanyfox, “G130”, dos Traz Água, e “Outfit (Shake It)”, de BLOQO, dupla formada por Branko e Pedro da Linha.
Daí para a frente, a compilação entra em modo arquivo e revisita momentos-chave do universo Enchufada: “Yah!” e “Zouk Flute”, dos Buraka Som Sistema, “Urban ADN”, de DJ Marfox, “Kissange”, de DJEFF, “Água de Coco”, de DJ N.K., “African Scream (Marimbas)”, de Dotorado Pro, “Eventually”, de Branko com Alex Rita & Bison, “Badman”, dos Dengue Dengue Dengue, “Boing”, de Mina feat. Nané, “MPTS”, de Branko e Pedro da Linha, e “Toques”, de Pedro da Linha feat. DKVPZ. Mais do que uma antologia, A Lisbon Club Story apresenta-se como mapa sonoro de um movimento urbano lusófono que a editora ajudou a construir.
A ilustração é de António Jorge Gonçalves, nome que Branko recorda das noites de clube onde desenhava ao vivo em diálogo com DJs e pistas de dança. A imagem baseia-se em fotografias das festas Na Surra, residência da Enchufada no B.Leza entre 2018 e a pandemia, e o design ficou a cargo de Daniel Neves.
Voltemos ao início dos anos 2000. O projeto para o qual a editora tinha sido criada — o álbum de 1-Uik Project — acabou por não ter continuidade. Esse motor acabou por surgir com Buraka Som Sistema. O núcleo inicial juntava João Barbosa, RIOT, Kalaf Epalanga, Conductor e Petty, num projeto aberto e mutável, ao qual mais tarde se juntaria também Blaya. As diferentes origens e raízes dos seus membros — entre Portugal, Angola, Moçambique, Cuba e Brasil — refletiam a cidade mestiça e transnacional que a sua música viria a traduzir.
Mesmo com a eletrónica em crescimento, em Portugal continuava a ser difícil fazer compreender o que aquele grupo queria fazer. Como Branko recorda, em 2006 tentaram mostrar a música a várias estruturas — editoras, agências. “Percebemos que tínhamos que fazer a música mais ou menos sozinhos. As pessoas não entendiam, por exemplo, que um projeto podia ter uma versão DJ set e uma versão live”. Branko recorda mesmo um episódio no Norte do país, quando chegaram a um espetáculo anunciado como concerto, apesar de terem sido contratados para um DJ set. Perante a confusão, decidiram não atuar e acabariam pouco depois por romper com a estrutura de agenciamento com que trabalhavam.
Passo a passo, a Enchufada foi ganhando uma entidade mais sólida. “Não havia propriamente uma ideia de ‘vamos fazer uma editora e tentar de alguma forma rentabilizar alguma coisa’”, recorda Branko. “Sabíamos que havia música incrível à nossa volta, tínhamos uma festa no Lux, e começámos a desafiar essas pessoas a participar de alguma forma connosco.” A partir de 2011 e 2012, essa lógica tornou-se mais nítida: a editora abriu-se de forma mais consistente e encontrou nas Hard Ass Sessions (a tradução possível de kuduro para o inglês) no Lux uma das suas expressões mais visíveis. Durante cerca de sete anos, essas festas funcionaram como extensão do escritório: uma forma de dar continuidade ao que estava a ser criado, de lançar discos, consolidar uma rede e criar comunidade.
Dessas noites nasceu também a Hard Ass Compilation, lançada em 2012, a partir de um desafio lançado a produtores internacionais: ouvir uma seleção de temas de kuduro e responder-lhes com a sua própria interpretação. Foi também nesse contexto que DJ Marfox, ligado à Príncipe, tocou pela primeira vez num clube em Lisboa — uma presença que viria depois a desembocar num EP, Subliminar, editado pela Enchufada. Pelo meio, a editora foi alargando o seu campo de ação. Editou música de nomes como PAUS, Orelha Negra ou Macacos do Chinês, e lançou a compilação E-Spam em 2010 como retrato de uma rede de afinidades entre Lisboa e Luanda.

Se Buraka Som Sistema foram a face mais visível e explosiva desta revolução, a Enchufada foi a estrutura que lhe deu continuidade. Vinte anos depois, o seu legado mede-se não apenas nos discos lançados ou nos nomes que ajudou a projetar, mas no espaço que abriu para novas linguagens musicais nascerem em Portugal. Que o diga Ana Moura, para quem as festas da Enchufada no B.Leza, foram também inspiração para a viragem em Casa Guilhermina, onde o fado dança com a kizomba e a eletrónica. Ou Rita Vian, cuja poesia urbana nasce tanto do fado ouvido em casa como da continuação da noite no Lux, onde dançou ao som de Buraka. Ou ainda o antigo estagiário da Enchufada, que em tempos foi “o rapaz que vendia as camisolas” nos concertos da banda, que viria também a fazer parte desta revolução sonora, hoje bem conhecido do público português como Pedro Mafama.
Em 2016, os Buraka Som Sistema fizeram uma pausa, mas a Enchufada continuou a reinventar-se, sempre fiel à mesma missão: reconfigurar a música eletrónica global a partir dos sons da diáspora e dos ritmos do sul global, tomando Lisboa como um laboratório dessa mistura de culturas e linguagens sonoras. No ano anterior, Branko lançara o seu álbum de estreia a solo, ATLAS. Em 2016, a editora voltou a sublinhar a sua vocação com o lançamento do EP de estreia de Dotorado Pro, Rei das Marimbas.
Entre 2018 e a pandemia, essa energia ganhou corpo nas noites Na Surra, residência mensal no B.Leza que sucedeu às Hard Ass Sessions no Lux. Juntaram nomes como Branko, Pedro da Linha, Rastronaut, Progressivu e Dotorado Pro, afirmando Lisboa como centro de uma eletrónica global com impressão digital própria — feita de kuduro, kizomba, tarraxo, afro-house e outras diásporas sonoras. Também o Porto teve a oportunidade de dançar ao som da Enchufada no Hard Club e nos Maus Hábitos. Entre 2017 e 2018, na capital, a editora passou ainda pelo Estúdio Time Out, ou ainda o Capitólio.
Pelo meio, a editora foi também assinando algumas das suas edições mais marcantes deste ciclo: em 2017, a compilação Enchufada Na Zona, curada por Branko a partir do universo do seu programa na NTS, influente rádio londrina dedicada à descoberta musical global; em 2018, Branko e Pedro da Linha juntaram-se em “MPTS“; em 2019, Dotorado Pro lançou Macumba; em 2020, Pedro da Linha afirmou-se com Da Linha; em 2021, Buraka 4 Ever documentou a última performance ao vivo dos Buraka Som Sistema; e Branko aprofundou o seu percurso a solo em trabalhos como OBG e SOMA, onde a dimensão global da editora voltou a ganhar expressão.
Ao mesmo tempo, a Enchufada foi ampliando esse diálogo para outras cidades e geografias. Foi assim com Dengue Dengue Dengue, de Lima — que, no entender de Branko, faziam no Peru algo comparável ao que os Buraka tinham feito em Lisboa —, com Mina, em Londres, ou com nomes como Alo Wala, Pedro da Linha ou Traz Agua. Apesar dessa identidade reconhecível, o foco da Enchufada, sublinha Branko, nunca foi seguir uma linha rígida. “Nós nunca fomos uma editora de construir uma identidade de editora”, disse. “Acredito em canções que falam tudo o que têm para ser dito.”
Foi também nesse período que artistas como Dino D’Santiago consolidaram uma nova centralidade, com discos como Mundu Nôbu ou KRIOLA, ambos em diálogo criativo próximo com Kalaf Epalanga. Até Madonna, durante a sua temporada lisboeta, se aproximou desse ecossistema, curiosa com a cidade que transformara mestiçagem cultural em linguagem pop.

Muito mudou desde 2006, quando a mistura proposta pelos Buraka Som Sistema ainda surgia como novidade para grande parte do país. Sonoridades antes remetidas para circuitos periféricos ou para comunidades africanas e afrodescendentes passaram a integrar o centro da cultura popular; artistas negros ganharam outra visibilidade; e o hip hop, durante anos tratado como marginal, tornou-se dominante. Em 2020, a morte de George Floyd desencadeou protestos à escala global e trouxe para o centro do debate temas como racismo estrutural, representatividade e apropriação cultural. A música não ficou de fora dessa conversa.
“Nessa discussão há vários momentos que foram chegando, mas a pandemia marcou uma nova perspetiva”, refletiu Branko. “Houve uma necessidade de olhar para dentro e perceber exatamente o que é que se estava a fazer, se era realmente importante, se acrescentava ou não acrescentava.” Aí houve realmente um divisor de águas. E obrigou também a repensar lugares e protagonismos: “Se calhar não é assim tão relevante para mim ter um evento presente na cidade, se calhar não sou eu que tenho que fazer esse evento (…) e imaginar de que forma é que podes contribuir para que a coisa tenha um desfecho natural e orgânico, em que várias pessoas consigam ocupar o posto ou o lugar que é seu.”
Branko diz procurar uma ética de trabalho assente na honestidade do processo criativo. “Faço música muitas vezes de uma forma social, convido pessoas para virem fazer música comigo, e o que gera daí tem a ver com coisas que aquelas pessoas cresceram a ouvir.” Para o co-fundador da Enchufada, todos os géneros carregam histórias complexas e múltiplas influências, difíceis de reduzir a fórmulas simples. O essencial estará em criar condições para que todos contribuam e desse encontro surja “uma coisa nova, diferente, inovadora”. Sobre o julgamento externo, admite a inevitabilidade de leituras divergentes: “Haverá pessoas que olham e acham que o trabalho está bem feito, outras que acham que está mal feito. Isso depois já não te cabe a ti, enquanto artista, julgar.”
Se no plano artístico Lisboa parece ter consolidado uma linguagem própria e um ecossistema criativo reconhecível, o mesmo já não acontece, na perspetiva do produtor, quando se fala da forma como a cidade se pensa e valoriza culturalmente. Basta olhar para a geração que surgiu depois de Buraka Som Sistema para perceber a profundidade dessa influência. Mesmo em linguagens aparentemente distantes, reconhece ecos desse legado. “Eu não consigo não ouvir um bocado de Buraka num Slow J, apesar de ser um género completamente diferente”, exemplifica.
Já quando desloca o olhar para a cidade enquanto estrutura — comercial, industrial, institucional e governativa — o tom muda. “Aí eu acho que há muito pouca visão e muito pouca aposta em celebrar esse legado”, diz. Para o produtor, Lisboa continua a revelar dificuldade em reconhecer a importância cultural da música que produziu nas últimas décadas e em transformar esse património numa estratégia de futuro. “Lisboa é uma cidade muito má a criar os seus próprios heróis.”
Essa falta de visão liga-se, para o músico, a um problema mais vasto: a fragilidade estrutural de quem trabalha cultura de forma continuada. Quando olha para os 20 anos da Enchufada, identifica como principal desafio a sustentabilidade económica. “A coisa mais desafiante é chegar ao final do mês” — manter uma estrutura estável, pagar salários, criar um ecossistema saudável e garantir que as pessoas podem viver do trabalho que fazem. Branko nota ainda que existem mecanismos de apoio dirigidos a artistas, intérpretes ou autores, mas não linhas específicas e estruturadas para editoras independentes.
No entender do fundador da Enchufada, persiste também uma hierarquia cultural antiga sobre aquilo que merece ser preservado, celebrado ou inscrito no espaço público. “Talvez 90% das ruas que têm nomes relacionados com atividade artística sejam escritores”, observa, apontando para uma ideia de cultura ainda muito associada às formas clássicas e eruditas — o escritor, o pintor, figuras historicamente legitimadas como representantes maiores da criação artística. A música, pelo contrário, continua muitas vezes a ser vista como entretenimento ou consumo passageiro, e não como força transformadora da identidade urbana.
(Para quando uma Praça Buraka Som Sistema?)
Essa falta de visão reflete-se também nos espaços que tornam possíveis determinadas linguagens sonoras. O encerramento anunciado da Casa Independente para o final deste ano — lugar decisivo para o aparecimento de projetos como os Fogo Fogo — surge, neste contexto, como exemplo de uma cidade que nem sempre protege os locais onde novas linguagens artísticas se encontram, crescem e ganham forma. E segundo o fundador da Enchufada, falta uma estratégia capaz de reconhecer que também esses espaços fazem parte do património cultural contemporâneo de Lisboa.
O futuro da Enchufada, sugere, passa tanto por continuar a editar música como por cuidar do caminho já feito. “As editoras para mim são canções, são lançamentos, são momentos que traçam o mapa de canções”. Nesse sentido, diz que a estrutura continua a fazer sentido, “mais que não seja enquanto gestão desse catálogo, desse legado e desse conteúdo”, património que considera culturalmente relevante e merecedor de revisitação crítica. A própria compilação A Lisbon Club Story nasce dessa vontade de olhar para trás e reabrir conversa: “Chegámos aos 20 anos e temos uma compilação, ‘bora falar sobre isto.”
Depois de duas décadas de atividade, o co-fundador da Enchufada admite que uma parte importante do trabalho passa agora por organizar esse arquivo e pensar como transmiti-lo às próximas gerações. “Fica uma série de coisas por explicar”, observa, falando de músicas, contextos e momentos que ajudaram a moldar uma época sem que muitas vezes tenham sido devidamente contados.
No plano criativo, porém, a bússola mantém-se semelhante à do início: continuar à procura de música relevante, sem nostalgia paralisante nem fórmulas fixas. O ecossistema mudou, surgiram novas gerações e novas formas de circulação digital, mas Branko insiste que o foco permanece simples: “Vamos continuar a fazer música boa. Vamos continuar a fazer aquilo em que acreditamos.” E resume essa missão numa frase que serve quase de manifesto: procurar “a música mais interessante e mais fixe possível que a gente consiga trabalhar e fazer, de Lisboa para o mundo.”
O aniversário faz-se também em palco. A 26 de abril, a Enchufada passa pelo Porto, e a 9 de maio leva A Lisbon Club Story ao The Lower Third, em Londres, com Kalaf Epalanga, Branko e Pedro da Linha entre os protagonistas.
Quanto a música nova dos Buraka Som Sistema, Branko trava expectativas em torno da ideia de um regresso formal. “Nós não estaríamos confortáveis em nos assumirmos novamente como uma entidade criativa sem termos ideias para colocar em prática”, diz, sublinhando que foi precisamente essa lógica que levou à pausa em 2016. Ainda assim, o futuro não fica encerrado: Branko admite que as coisas poderiam mudar “se daqui a dez anos o Kalaf ligar com uma ideia qualquer para um conceito para um álbum”. Para já, temos “Puro Mambo”: uma reinterpretação do semba construída com o compositor Betinho Feijó, que e desemboca num beat de Buraka. A 11 de julho, dá-se o regresso da banda aos palcos no NOS Alive. E, quem sabe, um dia poderá chegar também o regresso à edição de mais música nova.