PEDRO: “Ainda não estou na fase de ter um disco de canções. Sinto que ainda sou o gajo que faço sons para o clube e para o Spotify”

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Pedro Mkk [VÍDEO] Luis Almeida

Desde que se apresentou ao mundo como Kking Kong (e não foi assim há tanto tempo), PEDRO cresceu exponencialmente. Continua na Damaia, embora de horizontes alargados, e de olhos postos no mundo para retirar o que há de melhor para incorporar na sua arte. Tornou-se um dos mais conceituados produtores nacionais, artista-chave da Enchufada, requisitado desde o fado até ao rap, desde o B.Leza ao Berghain. A derradeira consagração acontece com Da Linha, primeiro álbum, que é lançado esta sexta-feira, 20 de Março.

O Rimas e Batidas esteve à conversa com Pedro Maurício sobre o processo de criação do disco, como chegou aos vários nomes com quem colaborou no projecto, o trabalho para outras artistas, a experiência de actuar ao vivo, ou sobre as tendências globais da música e de como elas se integram no “novo som de Lisboa”, que, como PEDRO diz, já não é apenas só uma coisa.



Como é que nasceu a ideia para fazer este álbum? Decidiste que querias fazer um disco e começaste a trabalhar nele? Ou, como sempre, foste produzindo várias músicas, achaste que era a altura certa para lançares um álbum e seleccionaste estes temas?

Sem dúvida que teve um ponto de partida. Eu fui sempre fazendo músicas, e faço-as diariamente, vou aglomerando pastas e pastas de temas, não só para mim, mas para ter coisas específicas para tocar nos clubes que me distingam um bocado de ser só um DJ que mete sons na net a que toda a gente tem acesso. É porreiro teres esses truques, o pessoal sabe que de vez em quando mostras coisas novas e vai ver-te, foi algo que aprendi ao longo dos tempos. Por exemplo, há um ano que estou a tocar a “Rapazes” e a “Toques”. Foi um bom teste, estava a ter uma boa reacção, estava a ser tocado em vários pontos do mundo, tipo Boiler Rooms, e foi nessa altura e no pós-Nosso, o disco do Branko, que arranjei a necessidade dentro de mim. Ok, se calhar é uma altura fixe para fazer um disco, uma coisa mais sólida, e deixar um bocadinho de ser o miúdo que só mete músicas na net e vai fazendo gigs na Europa em torno disso. E porque não ter uma cena mega tight à frente, que me represente? Fazer um pacote completo e dar a cara por esse produto todo. Ou seja, juntas o facto de seres um gajo que fazes imensas músicas constantemente, não só para outros artistas, mas também para teres a tua cena, a tua identidade, e ter isso num formato físico acho que é brutal.

Mas já tinhas EPs, não eram só faixas soltas na Internet.

Sim, mas era tudo digital, e os próprios EPs eram feitos de coisas soltas que depois se juntavam e faziam sentido. Mas a cena de fazer um disco, além de ser um desafio maior, tens de pensar em várias direcções e estéticas… é muito giro fazeres música sozinho mas também é importante conectares-te com outras pessoas, outros países, apanhar o público dessas pessoas, e dessa forma as pessoas também vão apanhar o público que tens.

Foi o que fizeste com as participações no disco.

Fiz, apesar de ter vários tugas… Imagina, fazer sons com o Pedro Mafama como o “Lacrau”, ou coisas futuras que aí vêm, é mega diferente do que o Pedro Mafama entrar num tema meu. E as pessoas que me seguem pelo mundo acompanharem o Mafama, e nunca chegariam a ele, e pessoas que seguem o Pedro Mafama deixam de me ver apenas como o produtor de um beat, e pensam que tenho mais trabalho, que sou DJ e tal. Essas situações de casamento são mega porreiras.

E no “Terra Treme”, faixa deste disco em que o Pedro Mafama participa, nota-se que foste tu que o puxaste para o teu mundo e que não estavas a produzir um beat para ele.

Sim, mas ao mesmo tempo também era uma fase em que o Pedro estava à procura de vários temas para o disco que ele está a fazer, então meio que foi um acidente fixe. Porque é que não fazemos isto para mim em vez de ser um tema que vai ser para o teu disco? Porque nunca tinha acontecido, e só fazia sentido acontecer. Foi o mesmo com o Branko. Fizemos o tema “MPTS” na altura, depois até o ajudei em mais temas do disco dele e foi aquela cena de, já que estamos a fazer isto juntos, porque é que também não posso fazer um disco? E depois vais juntando estas ideias todas e pensas: realmente eu podia ter aqui um disco, posso ter 10 ou 12 temas, neste caso ficaram 10 porque foram as que achei mais especiais, mas consegues ter um packzinho que possa ser uma representação tua para o mundo, seja em streaming ou físico. Foi isso que me levou a achar que era a altura perfeita para fazer um disco. Mesmo de maturidade, enquanto artista e pessoa. Deixar para trás a cena de fazer bootlegs e bora fazer uma cena a sério.

Foi fácil pensar que tipo de sonoridades querias ter no disco?

Foi, porque o meu ponto de partida é sempre fazer uma cena que seja a minha estética e que o pessoal consiga ouvir e reconhecer: isto é do PEDRO. Depois de eu ter as bases todas feitas eu muitas vezes quis adicionar alguém ao meu trabalho, e tem de fazer sentido. Por exemplo, tenho um tema com o Kelman [Duran], que é um produtor mega cool que está a fazer um reggaeton de Internet mega especial. Ele está com um hype gigantesco, especialmente no BandCamp o homem está enorme. O que eu lhe pedi inicialmente foi: manda-me algo teu e eu trabalho sobre isso e vou torná-lo meu. Acho que é muito mais fascinante do que eu começar uma cena, depois mando-lhe, ele manda-me, depois eu mando-lhe. As cenas pelo meio ficam meio que desentendidas e perde um bocado a direcção, porque se é um disco meu vou querer fazer aquilo para o meu universo, mas puxando também detalhes e traços dele. Eu acho que isso é o mais fixe de colaborares. Não é só eu mandar-te algo e vou depender do teu input, e está fechado. Acho que isso é podre. É também o exercício de eu ir atrás do que estás a fazer, e tu já saberes de início que tens de fazer algo que tem que cair bem no meu universo. 

E em relação às outras participações que tens no álbum?

Tenho a “Too Much”, que eu digo que é um club banger porque é realmente uma cena física e provoca reacção, que é com o Magugu. Ele faz uma cena muito específica que é pidgin rap. É uma língua meio estranha da Nigéria mas aquilo é rimado em beats tipo grime, é uma cena bem local de UK, especialmente de Cardiff, onde ele mora. E achei que era mega interessante fazer uma cena dessas com um beat afro assim diferente, porque o que eu faço não é muito afrohouse, é mais um crossover de afro com, talvez, techno, que às vezes vai puxar ao house. Neste caso foi buscar ao UK Bass, porque, pronto, trouxe o Magugu para o meu universo. Tenho a “Toques”, com os DKVPZ, porque fez-me sentido ter uma ligação assim lusófona, principalmente com o Brasil. E acho que eram os gajos mais semelhantes [a nós] que estão lá a acontecer neste momento. Mesmo que fosse com o JLZ ou com o Vhoor, outros produtores que estão em pé de igualdade, mas fez-me sentido fazer com os DKVPZ porque, além de o sample da flauta que uso ser algo deles, que eu depois transformei e toquei de forma diferente e resultou nesse tema, achei que era fixe ter uma segunda fase em que “olha está aqui isto, e gostava muito que vocês entrassem e pertencessem ao meu disco, então dêem também o vosso input”. Eles deram o brilhozinho deles e acho que ficou mega tight e é uma das músicas que eu tenho que mais batem, tanto nos meus sets como no de qualquer pessoa, porque aquilo provoca uma reacção. É de club mas é cativante o suficiente para tu estares no carro com alguém e estares a ouvir, ou vais correr de manhã e ouves aquilo, acho que isso é mega tight.

Que funcione em todos os sítios e contextos.

Ya, o funcionar em todos os sítios também era uma preocupação minha para o disco. Eu sou um gajo que consome música diariamente e quase exclusivamente no Spotify, como quase toda a gente, digo eu. A mim faz-me sentido ter músicas que tanto funcionem a ouvir no autocarro a ir para o trabalho, como se for ao ginásio, como se for para casa de um amigo meu e alguém está a cozinhar e mete uma música qualquer que está a dar de fundo. E não me importo que essa música de ambiente seja um afro, e isso é fixe quando chegas ao ponto de fazeres o que és, e o que tentas tocar, e juntas a uma cena que é a do Pedro Mafama, que não é exactamente afro mas tem toda essa cadência afro, e depois tens o PEDRO a puxar a cena dele, a cena nostálgica acontece e aquilo resulta num bolo bué bem feito e é porreiro de ouvir em todo o lado. Não digo que o tema do Magugu dê para ouvir quando alguém está a jantar, beatzões ali a matar, mas são cenas bué fixes. Tenho um som bem cool e mega diferente do que alguma vez eu e o Branko fizemos, o “Takré”. É um bocadinho de nada mais lento mas segue o mesmo caminho, a mesma narrativa do que fizemos com o “MPTS”, e aquilo podia perfeitamente ter sido um tema do Nosso, a meu ver, como também fazia sentido para uma compilação tipo Enchufada na Zona, como podia ser um tema para um artista, e o facto de ir para tantas direcções e poder ser aplicado em tantas situações diferentes é mega cool. E nesse sentido estou orgulhoso que aquilo tenha ficado uma cena do meu disco, com um gajo que é o meu herói e é o gajo que mais respeito, o Branko. As pessoas a quem já mostrei aquilo ficam mega emocionadas com o facto de ser exactamente isso, não é o que eles estavam à espera que fosse. Depois tenho um som que é o “Para Ti”, com um gajo que é o Xcelencia, que foi dos maiores acidentes do disco. Eu estava a tentar fazer uma cena que fosse mais slow BPM, mais down, mas canção, aquilo para mim é a verdadeira canção que tenho no disco. O Xcelencia é baseado em LA mas é de Porto Rico, ele faz uma espécie de reggaeton sem ser reggaeton genérico tipo J Balvin — e com genérico não estou a dizer nada negativo — mas achei que era mega interessante ele vir para um beat mais pop, que não tem nada a ver com o que ele alguma vez fez na vida, e em conversas nossas ele estava só entusiasmado por fazer uma cena assim, então isso é mais porreiro ainda, porque tens mais abertura para seres mais criativo em vários aspectos. Para mim era claramente um tema que abria um disco ou fechava um disco. Porque é a cena mais canção e mais fora de tudo o que fiz até agora. E ao mesmo tempo é uma coisa que facilmente toco num club. Essa procura que tive de ter temas de Spotify e que ao mesmo tempo pudessem tocar num club, sem ser monótono, acho que fui bué bem sucedido nisso.

Com ou sem edits para tocar no club?

Sem edits [risos]. E foi bué fixe pô-lo desconfortável ao ponto de ele fazer algo que não tem nada a ver com o universo dele e aquilo ficar brutal, é das músicas que mais adoro. A minha mãe ouve bué vezes, e amigas minhas também, aquilo claramente é uma música mais feminina. Acho que é fixe. Não fica numa caixa tipo “isto vai para a playlist de reggaeton”, aquilo faz sentido em bué sítios, deixa-me orgulhoso.



Obviamente, nota-se que para ti faz muito sentido colaborar com pessoas que fazem coisas muito específicas, de sítios ou movimentos culturais ou musicais concretos.

Exacto, colaborar com alguém tem de ser específico, não consigo colaborar com alguém só porque sim ou porque é trendy. Tem de ser uma cena que eu acompanhe, tenho que respeitar bué, tenho que gostar bué, sinto que tenho de ser amigo da pessoa, porque acho que é impessoal convidar alguém para tocar só porque é cool. Eu fazer este tema com o Xcelencia demorou bué. Não que ele não quisesse ou que eu não quisesse, porque eu já tinha esse interesse quando o contactei, mas tive de dar tempo ao tempo de ver o que ele queria fazer, ver a pessoa que ele era, e perceber se fazia sentido. Apesar de ele estar em LA, eu em Lisboa e a distância ser abismal. Mas felizmente a cena de falares com alguém na net permite conheceres minimamente a pessoa, e sinto bué a necessidade de ter isso. Tem de ser mais do que “eu mando-te umas pistas e tu fazes o que tens a fazer”, porque as vezes que já fiz isso nunca fica uma cena fixe, é impessoal, e o tema meio que se perde, nunca fica de ninguém.

É um processo mais robótico.

Ya, e daí ser tão fixe e natural fazer as cenas que fazemos com o Dino D’Santiago, ou que eu estou a fazer com o Pedro Mafama. Como és amigo da pessoa, fora da indústria ou do meio, a cena acaba por ser muito mais porreira de ser feita, e é muito mais óbvio o que cada um quer fazer. 

Mas ao mesmo tempo também resulta bem o facto de teres convidados de vários países e movimentos, no sentido de conseguires furar em circuitos diferentes.

Claro, tens sempre essa procura e “necessidade” de também quereres alcançar o que eles já têm com eles, a massa que os acompanha. Era o que há bocado te estava a explicar do Mafama. Já tive pessoas a abordarem-me nas redes sociais ou pessoalmente que não faziam ideia de que eu fazia isto ou que era associado à Enchufada, ou que tinha feito aquilo ou aqueloutro. Isso para mim é importante, apanhar tudo o que eles já fizeram. Depois há situações pontuais como, o facto de teres um tema no PES, ou eu agora ter feito um tema para o Festival da Canção, e para bué gente… afinal o Pedro Da Linha é um produtor e não só um DJ. Também tens a intenção de procurar isso e ir absorver essa coisa toda. 

E esse currículo também é importante.

Claro, as vantagens para mim são a abertura de mais portas, conheces mais pessoas, outros movimentos, páras noutros locais, vais sempre aprendendo e bebendo de vários sítios e isso também te aumenta enquanto pessoa, enquanto criativo e artista. Tudo isso é positivo.

E tens trabalhado com imensos artistas, muito diferentes, mesmo que seja em produção adicional, só para dar o teu toque. É algo de que gostas muito de fazer?

Curto bué, é das coisas que mais me têm dado gozo, talvez desde 2018, o pessoal já reconhecer, mesmo que o nome não esteja lá tipo “prod by“, mas vêem que há ali uma produção adicional porque ouvem aquela tarola específica ou sabem que aquele tipo de ritmo é bué meu, acho isso mega fixe, e fico feliz de o pessoal reparar, ou mandar uma mensagem a dizer “tens alguma coisa a ver com aquele som, não tens?” Acho isso bué fixe. Mas já aconteceu chamarem-me para produções adicionais, e a pessoa perceber que era aquela a direcção certa, porque a coisa estava ali meio stuck, e de repente viram-se os papéis, mas faço sempre questão de trabalhar sobre o que já existia, não curto de ser o gajo que limpa o que já existia. Por exemplo, haver um som de hip hop e o gajo querer algo mais africano, para mim faz todo o sentido essa mistura e eu nunca trabalharia com ele noutras condições. O “Diz Só” é meio isso, num dia normal eu nunca chegaria à Kady, e ela nunca me pediria aquele beat específico. Houve aqueles intermédios que foram o Dino, o Kalaf e o rapaz em Londres que é o Seiji. De Lisboa para Londres fizemos o beat, a Kady fez questão de estar presente no processo todo e acho que resultou numa canção brutal, que era uma coisa que eu, sozinho, nunca iria fazer.

Tens colaborado muito com o Branko nos últimos anos. Por que é que não aconteceu ainda trabalhares criativamente com outras pessoas da Enchufada?

É só o mais natural. Ele sempre foi o meu herói enquanto artista e nos últimos anos enquanto pessoas temos sido mega próximos. Mesmo buddies, porque é diário o tempo que passamos juntos. E só me faz sentido e é natural colaborarmos constantemente. Não que eu não fizesse uma colaboração com o Rastronaut ou com o Dotorado, e tenho essas colaborações feitas também, não estão é ainda no mundo. Mas é a forma como a gente trabalha, aquilo simplesmente acontece. E já chegou a um ponto em que o pessoal procura a nossa sonoridade enquanto dupla. E tu consegues ver isso em cenas do Dino D’Santiago, o artista congolês baseado em Montreal que é o Pierre Kwenders, e há vários artistas que procuram muito essa sonoridade específica porque os dois juntos resultamos bem. Nunca seria normal o ProfJam vir aqui pedir-nos um beat. E resultou no “Hei”. Ou seja, é a sonoridade dos dois juntos em função da visão de um artista, acho que isso é mega fixe e é o motivo principal, vais fazendo uma marca. E a cena mais brutal de todas de ser produtor musical é o pessoal reconhecer a tua marca, mesmo que não esteja lá exposto.

Obviamente desde que começaste a produzir até agora tudo mudou, mas nestes últimos anos, desde que começaste a lançar os tais EPs, a tua forma de produzir mudou bastante em termos criativos?

Sim, acho que mudou drasticamente, porque em 2016 quando fiz o Damaia a minha preocupação era só ter uma coisa que batesse. Ok, vou fazer um banger, e a produção em si não era nada muito trabalhosa, não prestava muita atenção a detalhes, eu achava que aquilo era fixe, está ok, para mim não há master, não há mistura, é como estiver a soar, vai para a net e está bom. Ao longo dos tempos vais tendo cenas mais sérias, outro tipo de ética de trabalho, tens de ter mais cuidado nas coisas todas, seja a escolha de sons, seja o placement das cenas. Já tens de ter atenção à duração de um tema, à estrutura em si, onde é um verso, uma bridge, um refrão. Mesmo que a música não tenha voz. Por isso a minha forma de produzir mudou drasticamente, honestamente. Acho que é uma evolução notória, digo eu, e acho que as pessoas que me acompanham percebem isso.

Tens sido cada vez mais perfeccionista, mais exigente?

Sinto que sim. Tenho facilidade em produzir as coisas rapidamente, em tirar as ideias da minha cabeça rapidamente, mas depois tenho de viver com aquilo um bom tempo. Ou seja, eu aplico o que acho que tem de ser, mas depois tenho que limar tudo durante bué tempo. Já tenho outro cuidado. Mas tens de seleccionar bem, se tiveres sempre a fazer beats depois não tens nada que se destaque, que seja especial, que seja um 2.0 do que tu és. Por exemplo, eu nunca faria um “Calores” há dois anos. Ou o “Rapazes”, que já tem outro tipo de trabalho. Vais procurar samples, sons específicos, uma estética específica, a forma de fazeres ritmos já é diferente, e é essa procura de ir a vários sítios fazer coisas diferentes que faz com que sejas ponta de lança, que não estejas a fazer tudo o que os outros estão a fazer. 


https://www.youtube.com/watch?v=0FYiUGp8260

Mas quando tiras essas ideias da tua cabeça, como tu disseste, nunca acabas o beat.

São sempre mega básicas. Tenho sempre a mesma forma de fazer música, quando são temas para mim, ou para tocar, tenho que fazer o build-up e o drop. E vou vivendo com isso. Mas é o que tento tirar logo da ideia. E está tudo por limar, mesmo que esteja mega podre de volumes, se aquilo me fizer sentido, eu meto no meu WhatsApp, vou ouvindo para mim mesmo. E há situações em que acho que é mega épico, volto no dia a seguir e epá, népia, deixa lá isso, isto é o que estou a fazer há três anos, não quero ser o gajo que fazia o mesmo que faço há três anos. Porque depois é uma fórmula, e estares a seguir uma fórmula… Tudo tem o seu tempo e vai deixar de fazer sentido, como se eu estivesse sempre a fazer “Damaias”, ou se estivesse sempre a fazer o “Drenas”. Ah, o “Drenas” resultou, então vou fazer bué “Drenas” a vida inteira. Não faz sentido. Essa procura de renovação do que tu és, enquanto produtor, e os sons específicos, e a procura do que é que está a acontecer no mundo, e de como é que podes aplicar isso ao teu universo e dares a tua versão disso mesmo, é mega importante. Tenho sempre de me alimentar de outras fontes.

A tendência global da música dos últimos tempos, de pegar em elementos da música tradicional de cada território e reinventá-la de uma forma moderna… Também é uma boa altura para ti e para vocês, Enchufada, emergirem nesse universo porque também acaba por ser isso que vocês fazem.

Claro que sim, claro que sim. E acho que a força toda que a música latina tem ganho no mundo, e o impacto tem sido abismal, meio que o pessoal também está a encontrar finalmente a música lusófona e está a perceber que há mais coisas a serem feitas. Fazemos isto há tanto tempo que é fixe finalmente termos esse reconhecimento, que estes beats não são só feitos na Colômbia ou onde quer que seja. Mas pronto, ainda bem que existe um J Balvin da vida ou uma Rosalía para puxar esse tipo de ritmos, especialmente a Rosalía por causa dos ritmos tradicionais. Permitiu que um Conan [Osiris] fosse aceite de outra forma, ou que um Mafama fosse aceite se quiser ir buscar ritmos minhotos ou cante alentejano, seja o que for. 

No fundo é uma boa altura para fazer música desta perspectiva.

Acho que é uma boa altura para fazer qualquer tipo de música, o pessoal está mega receptivo a qualquer coisa, e a procura do que é novo… Porque o consumo está tão rápido, hoje em dia um disco dura um mês no Spotify. Se for épico para ti, o disco fica-te. Mas todas as sextas saem discos no Spotify e aquilo dura o que tiver de durar, e contra mim falo que estou a lançar um disco. Mas se as pessoas gostarem vão guardar nos favoritos, vai ficar e por isso é que acho que é uma altura incrível para se fazer o que quer que seja. Acho é que tens de procurar sempre ser ligeiramente diferente. Acho que procurar fazer sons com um milhão no YouTube é bué giro, eu próprio adorava [risos], não estou a criticar, mas se tiveres sempre a fazer tudo só para teres um milhão no YouTube, chega a uma altura em que quem te acompanha vai ficar tipo… ok, chegou a isto e pronto. E as pessoas vão sempre procurar outra coisa. E também digo isto como consumidor, estou sempre a procurar coisas novas. Por isso é que oiço o “Damaia” e penso “hum ‘tá fixe”. Tipo, resulta. Mas cansa, não é? Está fixe, é o que é.

E passas menos esses sons nos clubes actualmente.

Muito menos. Acabo por actualizá-los para live e tocar de forma diferente, mas acho que o único que toco mesmo de raiz dessa altura é o “Chibaria”, porque ainda tem impacto. Ou seja, é daqueles sons que as pessoas demoraram a perceber que existia porque o “Damaia” foi logo a cena. Mas tudo o que é dessa altura eu meio que não consigo tocar porque estou cansado e tenho muita coisa nova para mostrar. Seja do disco ou outros temas que faça. Imagina, a cena de fazeres canções e depois aplicares isso para o teu universo, seja acelerar BPMs, seja o que for, já faz toda a diferença. A remistura que fiz com o Branko para o “Nôs Funaná”, do Dino, isso muda tudo. Já não consigo ouvir a original. Ou a “Sô Bô” original. Essas evoluções e roupagens novas é o que torna tudo muito mais dinâmico e divertido.

Quando estás a produzir, a criar de raiz, já sabes que certa ideia é para ti, ou às vezes ficas na dúvida se é para ti ou para aquela pessoa com quem estás a trabalhar?

Normalmente já tenho uma ideia mais ou menos do que quero fazer. Não ando muito perdido, já sequencio bem que caminho quero tomar, mas acontece eu fazer um tema que acho que é para mim, e, depois, porque não pôr aqui X? Mas felizmente é raro, porque se tivesse sempre essas dúvidas para mim era péssimo, porque nunca sabes o que queres fazer. E depois quando estás só perdido a achar que é para X e não é, é para ti, acabas por só fazer canções, e eu não quero ser sempre só a pessoa que faz canções. Sinto que ainda não estou nessa fase da minha vida de ter um disco que são canções. Sinto que ainda sou o gajo que tenho de fazer vários sons para clube, e sons que sejam consumidos no Spotify de forma diferente, a minha procura ainda não é ter o top 5 mega bonito. Ainda não é a minha preocupação. Há-de ser um dia, e é válido.

Sim, actualmente esse pode ser mais o caminho do Branko, por exemplo.

Sim, porque é um posicionamento diferente enquanto artista. Vejo-me a fazer isso no futuro, ainda não é agora, acho que não é num primeiro disco que queres fazer isso, porque até agora tenho sido o gajo cujo foco tem sido o clube e dar momentos divertidos às pessoas. Nada contra mas não quero ser o gajo que vai para o clube às duas da manhã tocar sons lentos. Às duas da manhã tens de suar, tens de dançar, tens de te divertir e aquilo tem de ficar minimamente memorável para um pequeno grupo de pessoas. Às vezes vou tocar a sítios estranhos, por exemplo agora fui tocar ao Berghain [em Berlim, Alemanha], as pessoas não decoraram que eu era o PEDRO da Amadora, ou que era português. Mas sei que houve momentos que ficaram, nem que seja de em stories me terem perguntado qual era o ID de certo som. Ainda é esse o foco e a procura que eu pretendo ter, fazer esse circuito de clubes e deixar uma marca. Tipo “isto está a acontecer em Lisboa”, não só de mim mas de todos os outros artistas da Enchufada, da Príncipe ou de qualquer outra label que tenha música interessante, associada àquilo que estamos a fazer, a este “som novo” de Lisboa, e a minha função ainda é ter esta marca, criá-la primeiro.

Mas no geral achas que já existe, que essa marca já está bem firmada?

Sem dúvida. Pegando em artistas como, por exemplo, o Branko e o Nigga Fox, claramente já vês que isso está marcado ou está a ficar bem assente que esta porta está aqui e isto vai acontecer. Digo mais isso do Nigga Fox, porque o Branko já tem toda uma carreira que leva isso às costas, mas o facto de a sonoridade de o Nigga Fox ser tão diferente é o que dá tanta marca. São poucas as cidades a que vou, que o pessoal me fala da música lisboeta e não me fala do Nigga Fox. Acho que isso é mega fixe, eu fico mega orgulhoso quando me falam disso. Mesmo que não conheçam a minha. Mas significa que há mais gente a querer fazer este caminho e a levar esta porcaria toda para a frente. E acho isso bué fixe. Não tenho muito aquela cena de “não, tenho de ser eu o número um”. Que se foda, mano.

Sendo que este é um disco que tem influências de vários tipos de sonoridades e muitas colaborações de vários pontos do mundo, por que é que quiseste que tivesse essa marca de chamar ao disco Da Linha?

Há aqui dois factores grandes. O primeiro é por ser uma homenagem à zona de onde venho e tudo o que a zona me deu, e as influências todas que absorvi estando ali ao longo da vida, não só na Damaia, mas quase na linha inteira, porque havia muito a cena de ires a vários sítios, tinhas amigos em vários sítios. E musicalmente isso também acaba por te influenciar, porque cada pessoa ouve coisas diferentes. Mas também porque achei que era o mais apropriado para me definir para primeiro disco… O meu nome de Instagram também acaba por ser uma forma de me distinguir, para não ser só o PEDRO. Ter o título de um disco que me permite fazer um pinpoint num local geográfico específico e tu já sabes que Pedro da Linha é tanto o álbum como o artista em si e a pessoa, é mega fixe. O artista é o PEDRO e o disco chama-se Da Linha. Mas tudo junto é como se fosse a mesma cena. 

Quando começaste a interessar-te por música e a ter vontade de experimentar, sempre foste virado para este caminho? Nunca tiveste por ir para outros lados?

Nunca. Foi sempre música electrónica, era mesmo techno, e na altura era minimal, batia bué. Fora isso era o que toda a gente ouvia que era rock, metal e tudo o mais. Vivi a vida toda, desde a primária, até porque tinha amigos nos bairros, Cova da Moura e tudo mais, a consumir música africana mas nunca foi uma coisa que eu chegasse a minha casa e fizesse essa procura. Porque sabia que ouvia isso lá fora. Fosse a apanhar um autocarro para o Colombo, fosse a ir para a escola, fosse na hora de almoço e toda a gente estava a pôr músicas no telemóvel, aquela cena mesmo chunga que havia, mas todos os dias se ouvia música africana. E em casa havia a influência de o meu irmão ouvir techno, a minha mãe ouvia coisas mais pop, o meu pai ouvia cenas tipo Jean-Michel Jarre, Peter Gabriel. E essa mistura toda é que dá uma cena bué fixe. Mas o meu foco foi sempre aquilo com o qual cresci, ritmos e influências africanas. 

E depois a junção dessas influências e ritmos com a música electrónica tem a ver com a cena de Buraka Som Sistema explodir e te influenciar tanto.

Buraka é a maior influência que tenho, exactamente. E o meu disco favorito de música electrónica é o Black Diamond. O meu universo é o que eles eram, e como eu havia mais mil miúdos em Lisboa e não só a querer ser produtores, e Buraka meio que permitiu e quebrou a barreira de ok, isto faz sentido. Não é errado misturares kuduro com fado, ou com hip hop. Faz bué sentido e Buraka mostrou isso. É a maior referência que tenho. 

Estávamos há pouco a falar da “cena” no geral. As portas foram sempre sendo abertas e continuam a abrir-se agora por vocês, por ti, para miúdos que estão a começar a produzir agora em casa?

Sim, sem dúvida. Agora, mais do que nunca, não digo que na minha altura já não fosse fácil — como se eu fizesse isto há bué anos — porque era, exactamente por causa de Buraka, mas acho que hoje em dia como essa geração pós-Buraka, de sermos todos os filhos de Buraka, permite a que esta nova geração de produtores e miúdos que também querem fazer cenas ainda seja mais fácil porque agora já há uma definição que é o novo som de Lisboa. O novo som de Lisboa já não é só uma coisa específica, cabem várias coisas dentro deste pote. Acho que é mais fácil no sentido em que tudo vale, porque tudo vai soar a nós. Esteticamente tu consegues perceber que tanto o Charlie Beats como o Lhast, que são produtores diferentes… consegues perceber que são de cá. Eu pelo menos consigo ter essa distinção de ouvir um beat de US ou de cá de trap, consigo perceber que é de cá, nem que seja pelo cuidado das cenas, a estética em si. Tal como consigo perceber que um som do Nigga Fox ou um som do Dotorado é de cá, é uma cena que só seria feita cá. Nenhum destes quatro produtores que disse podiam ser de outro local do mundo, porque nenhum deles é genérico a esse ponto, e é mega fixe teres essa realidade hoje em dia. O pessoal cá faz cenas muito únicas e sejam os números que provam isso, sejam o facto de serem bué catchy e o pessoal viver com os sons bué tempo, seja o facto de serem coisas novas como o Pedro Mafama, tudo isso é o que alimenta o que nós estamos todos a fazer, e acho que a procura de todos é deixar uma marca e ser relevante a esse ponto.


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha