A Tribe Called Quest // We Got It From Here… Thank You 4 Your Service

 

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

 

Sob muitos aspectos, os A Tribe Called Quest são um mistério embrulhado num enigma: as duas figuras centrais do grupo, Q-Tip e Phife Dawg, não podiam ser mais diferentes – o primeiro é um intelectual discreto e reservado, com o pensamento alimentado por leituras fundas, de George Orwell a Paul Beatty, um tipo introvertido, até na forma de vestir, o mais bem sucedido do grupo, mas aquele que parece ter sempre questionado o preço desse sucesso; o segundo, desaparecido no início deste ano, era o pequeno “5 Foot Assassin” que não temia atravessar a zona mais dura da vizinhança, dono de um invisível, mas sólido “hood pass” que espelhava a sua atitude “street smart”, apaixonado por desportos, dono de rimas mordazes e mais directas, comentador televisivo e por isso habituado ao olhar público. Não é de espantar que ambos tenham escolhido costas opostas para viver, como se um país inteiro fosse necessário estar no meio para que pudessem evitar o choque – Q-Tip manteve-se perto de Nova Iorque, Phife mudou-se para Oakland, na Califórnia.

Essa relação complicada foi bem documentada no documentário de Michael Rapaport que, rezam as lendas, esteve mesmo para ter o título Beats, Rhymes & Fights, mas acabou por ser apresentado como Beats, Rhymes & Life – The Travels of A Tribe Called Quest. Nesse filme de 2011, o olhar de um fã que quer compreender o que aconteceu ao seu grupo favorito, Q-Tip não se mostra no seu melhor e torna-se evidente que o seu ego é o principal obstáculo a que o grupo evolua. Mesmo quando os Tribe fazem a tentativa de recuperar a chama com uma digressão em 2008, tudo descamba rapidamente e os velhos dramas reaparecem, com Q-Tip a ser talvez o principal motor da separação. Não por acaso, no novíssimo We Got It From Here… há uma faixa em que Tip mete a mão na consciência. Tem por título “Ego” e nela o MC admite: “Ego, ego / I got one, you got one, and now we equal / Sometimes it makes you trip out on your people / Sometimes it has connotations of evil”. Provavelmente nunca o saberemos, mas uma aposta de que esta faixa terá sido gravada já depois da morte de Phife sairia provavelmente vencedora.

 



 

É, portanto, um mistério que duas cabeças tão distintas se tenham conseguido harmonizar em cinco álbuns que formam uma das mais sólidas obras do hip hop, mas, por outro lado, e essa ideia torna-se clara ao longo de We Got It From Here…, não há no universo um grupo mais transparente do que os Tribe: Tip e Phife conheceram-se nos bancos da igreja que as famílias frequentavam em Queens, Nova Iorque, ainda antes de entrarem para a escola e aprenderem a ler. Ali e Jarobi foram depois recrutados no recreio, logo na adolescência. Este é um grupo de quatro amigos, daqueles que têm uma história comum que se estende para lá das paredes de uma sala de ensaios ou de um estúdio. E isso foi sempre evidente na sua música e nada tem de misterioso: Jarobi saiu depois de Low End Theory, para ser um chefe de cozinha, mas também – talvez… – para encontrar a sua própria forma de expressão longe da longa sombra projectada por Tip e Phife. Ali Shaheed Muhammad, o DJ e produtor do grupo – embora esse papel tenha sido sempre dominado por Tip – funcionou como o elemento neutro no meio dos dois pólos opostos e também teve que procurar o seu próprio brilho longe do grupo. Percebe-se, no entanto, que a sua presença foi sempre estrategicamente apaziguadora. Os Tribe são o grupo de Tip e Phife, mas não existiriam sem a presença de Ali e “a força espiritual” de Jarobi (a frase é de Tip).

Curiosamente, o caminho para We Got It From Here… Thank You 4 Your Service começou onde devia, no início, no arranque, quando o grupo foi convidado para se apresentar pela primeira vez num estúdio de televisão em 15 anos, no programa de Jimmy Fallon (quem mais?…) por alturas da edição comemorativa dos 25 anos de People’s Instinctive Travels and The Paths of Rhythm. Perceber a importância do seu próprio legado foi algo que religou o grupo. Ao New York Times, Tip explicou como o grupo se sentiu depois de receber o aplauso num dos mais importantes programas da televisão americana: “A energia era a certa. Parecia que éramos outra vez aqueles miúdos que tinham acabado de fazer o primeiro grande concerto em Paris quando tínhamos 19 anos. Sentimo-nos excitados. Sentimo-nos renovados. E foi fantástico poder estar com os meus irmãos depois de tanto tempo”.

A primeira grande qualidade de We Got It From Here… Thank You 4 Your Service assenta, precisamente, no facto de ser um disco que nasce não de um calculado gesto de marketing, não como um negócio resultante de um compromisso entre sócios desavindos, mas como um reencontro de irmãos. Na já citada peça do New York Times assinada por Touré, explica-se que o álbum foi gravado no incrível estúdio que Q-Tip instalou na cave da sua mansão de New Jersey e sublinha-se a condição analógica do registo. Não apenas porque é essa a natureza das máquinas (Tip equipou o estúdio com uma mesa ainda habitada pelos fantasmas dos Ramones, que gravou Blondie, com gravadores que registaram trabalhos de Frank Zappa e demais equipamento usado por gente como os Stones ou Hendrix), mas porque o instigador do álbum fez questão de que nada fosse feito à distância digital e que toda a gente, todos os colaboradores, de Kendrick Lamar e Andre 3000 a Busta Rhymes ou Jack White, gravasse ali mesmo no estúdio. We Got It From Here… não contém apenas as performances: guarda igualmente a energia que rodeou todos estes trabalhos. E essa é uma qualidade rara nestes dias de puzzles digitais montados à distância, tantas vezes sem real interacção entre músicos, produtores e MCs ou cantores. Este é, nitidamente, um álbum centrado: numa ideia de comunhão fraternal, mas também num espaço onde a energia invisível, mas real, da cumplicidade pode habitar.

Phife Dawg, já doente, viajou bastante entre Oakland e Nova Jérsia e o cansaço derivado do acumular de milhas pode ter precipitado os seus problemas de saúde – sofria com diabete tipo 2 e necessitava de fazer diálise três vezes por semana. Da peça de Touré, no entanto, resulta óbvio que Phife tinha consciência de que estava a reparar uma relação preciosa e que esse sacrifício da sua parte era importante. Depois da sua morte a 22 de Março último, no entanto, Tip foi deixado com um enorme problema para resolver, já com muito material gravado. O derradeiro disco dos Tribe não podia ser acerca da morte, mas precisava de ser, por um lado, uma celebração de vida e, por outro, uma observação da América contemporânea, porque não valia a pena, para homens a meio dos 40s, fingirem que tinham de novo 20 anos e que o mundo não tinha avançado para lá de 1993. Em 2016, em plena corrida à Casa Branca, com o movimento Black Lives Matter nas ruas, com a sucessão de casos de violência policial, os A Tribe Called Quest não podiam deixar-se enlevar em tentações nostálgicas. 18 anos de silêncio só podiam ter como resposta um regresso à urgência que fez dos Tribe um grupo vital nos anos 90.

É importante olhar para a ficha técnica de We Got It From Here… Thank You 4 Your Service: a primeira coisa que se entende é que Ali Shaheed Muhammad não participou neste disco para lá de uma certamente generosa benção para que o restante trio avançasse – o produtor estava a trabalhar na banda sonora da série da Netflix Luke Cage e não conseguiu sintonizar disponibilidades com o grupo. Esperar não era opção para quem queria capturar uma energia que demorou a melhor parte de duas décadas para ser redescoberta.

Outra coisa que se percebe da leitura da ficha técnica é que um grupo que ergueu boa parte da sua reputação musical em cima de uma criativa abordagem ao sampling parece ter descartado essa via em favor da criação directa em estúdio. Listam-se samples de “Behind The Wall of Sleep” dos Black Sabbath em “We The People”; “Promised Land” das Nairobi Sisters em “Whateva Will Be”; “Pass The Dutchie” dos Musical Youth e “Halleluhwah” dos Can em “Dis Generation”; e de novo “Halleluhwah” dos Can em “Lost Somebody” – quatro temas com samples declarados num generoso alinhamento de 16 faixas. E depois baterias, baixos e guitarras, sintetizadores e pianos, orgão e gira-discos a cargo de vários músicos de sessão e de um par de estrelas: Jack White assegura guitarras em três momentos distintos e Elton John além de emprestar a voz a um coro ainda martela um pouco do marfim em “Solid Wall of Sound”. Mas é Tip quem obviamente comanda, tocando baixo e bateria, fazendo programações rítmicas e assegurando teclados esporádicos. No final, quando se lê “Produced by Q-Tip” deve entender-se que o crédito não traduz apenas o responsável por cozinhar os beats, mas o trabalho real de orquestrar talentos e guiar performances subtraindo a cada um dos nomes recrutados o melhor possível, não para figurar no autocolante da capa que possa maximizar vendas com a sua lista de “featurings”, mas para o projecto artístico geral do disco.

E a verdade é que a lista de features é impressionante: Consequence, Busta Rhymes, Jack White e Elton John, André 3000, Marsha Ambrosius (protegida de Dr. Dre), Talib Kweli e Kanye West, Anderson .Paak e Kendrick Lamar – todos eles se fazem ouvir, mas a verdade é que nenhum se destaca para lá do input do próprio trio nuclear. E isso porque – outro facto importante – tanto Tip como Phife ou Jarobi souberam trazer o seu “A game” para este álbum. É claro que .Paak, Lamar, 3000, Busta, Talib ou até Consequence não sabem “desaparecer” numa faixa e todos oferecem ciência lírica avançada nos temas em que colaboram. Kanye limita-se a um hook eficaz, mas que parece ter demorado uns 30 segundos a gravar. E Tip, Phife e Jarobi brilham com intensidade porque todos acreditaram ser artisticamente importante voltar a estar diante de um microfone. We Got It From Here… é um disco sério, sólido e denso, pensado com calma e estruturado com intenção artística. Ideias não tão comuns quanto seria de esperar.

Musicalmente, o novo álbum dos Tribe faz o que lhe competia: soa intemporal, mas não saudosista, carrega nos grooves, subtrai discurso ao jazz e ao funk, abusa dos baixos quando tem que ser (“We The People” tem a melhor linha de baixo deste lado de “Hip Hop” dos Dead Prez), apresenta tarolas de autor recortadas com o saber de quem educou os ouvidos em incontáveis rodelas de vinil (ouça-se “Melatonin”, por exemplo), pisca subtilmente o olho ao passado (a sitar de “Enough”, quase como um sinal num poste para que não nos percamos no caminho da história de um grupo que nos deu “Bonita Applebum”), mas sobretudo finca os pés no presente. Q-Tip é um excelente produtor musical: mais do que beats carregados de fogo de artifício sampladélico ou marcas de estilo já patenteadas por outras cabeças, ele prefere arranjos que sirvam as performances individuais e colectivas, instrumentais que, antes de mais nada, soem musicais. E depois, mesmo sem tendo ainda escutado We Got It From Here… para lá das suas versões digitais disponíveis nos serviços de streaming é nítido o trabalho de amor colocado na mistura, no arranjo espacial dos 16 temas do álbum que, espero, hão-de ocupar duas rodelas de vinil e soar ainda mais nobres.

Finalmente, as palavras. Esta é a chave definitiva de We Got It From Here… A Touré, Tip revela que o título – não explicado – era uma ideia de Phife. Pode ser lido de muitas maneiras, incluindo como um digno epitáfio. Devemos, de facto, agradecer a esta tribo o incrível serviço que ofereceu ao hip hop. A abertura do álbum é poderosa em termos líricos: a primeira frase que se ouve parece ser um recado que a América não ouviu e em prol da então recentemente conquistada harmonia é proferida em conjunto por Phife e Tip – “It’s time to go left, not right”. Os Tribe parecem decididos a falar às pessoas e constatam que “It always seems the poorest persons / Are people forsaken, dawg” e depois a conclusão “There ain’t a space program for niggas”. Não é da NASA que os Tribe falam aqui, antes das ruas da América, da gentrificação e do que eles descrevem como “Mass-unblackening” – o fim das “Rainbow cities”, o fim da diversidade, a era dos muros. “We The People”, logo depois, aprofunda a ideia com um dos mais ferozes refrões de tempos recentes, debitado por um Tip que não esconde a dor na voz no que soa como um ataque directo a Trump:

All you Black folks, you must go
All you Mexicans, you must go
And all you poor folks, you must go
Muslims and gays, boy, we hate your ways
So all you bad folks, you must go

Ou então temos, em “Melatonin”, um outro agudo retrato de uma América que não sabe sonhar a cores:

Population gettin’ tired now (they don’t know)
Everybody wants inspired now (they don’t know)
Racist emails fire out (they don’t know)
We did it in the dark, it’s coming out (they don’t know)
The world is crazy and I cannot sleep but (they don’t know)
Melatonin good enough to eat but (they don’t know)
I read the paper so that I can see what (they don’t know)
I’d rather stay indoors and make a beat but (they don’t know)

Tip sabe que a sua voz não é solitária e que o hip hop tudo tem feito para não deixar que a verdade desapareça das ruas e dos auscultadores de toda uma geração. Em “Dis Generation há uma vénia reveladora da direcção para que a sua bússola pessoal aponta:

Talk to Joey, Earl, Kendrick, and Cole, gatekeepers of flow
They are extensions of instinctual soul
It’s the highest in commodity grade
And you could get it today

Joey Bada$$ e Earl Swetshirt, Kendrick Lamar e J Cole como guardiões de uma chama que os A Tribe Called Quest souberam acender há muito tempo. Num momento em que Tip, Jarobi e Phife poderiam justamente reclamar o papel de anciães de um templo de verdades e conhecimento, terem a humildade de reconhecer que há outros nomes que defendem esses valores é um gesto importante e que traduz a principal ideia deste trabalho: os A Tribe Called Quest não partiram em We Got It From Here… Thank You 4 Your Service ao encontro do seu próprio passado, não procuraram recuperar a glória de uma discografia que inclui três álbuns de platina e dois de ouro (feito notável para um grupo “alternativo”), tentaram antes – e brilhantemente conseguiram – encontrar um lugar num presente que sabiam à partida ser diferente, viver com outras dinâmicas e respirar outros problemas. O “aqui” do título, mais do que um lugar pode afinal de contas ser um tempo, “este” tempo. Foi “daqui” que eles conseguiram a sua energia. E é a esta geração enfim que os Tribe agradecem pelo seu serviço. Por causa desta geração os ter aplaudido no programa de Jimmy Fallon, os Tribe acreditaram poder voltar. E mesmo depois da transição de Phife para outro plano (ele que daí ainda nos oferecerá um último trabalho a solo, em 2017), fica-se com uma certeza – não são só de ontem ou de agora: os Tribe são de sempre e para sempre.

Para terminar, e como não podia obviamente deixar de ser, We Got It From Here…, para lá do retrato do presente e da mensagem à América que oferece, é também um grupo de amigos a resolver a inesperada partida de outro. Essa partida não domina o álbum, mas paira sobre ele como uma sombra e não podia deixar de ser abordada directamente. Acontece no fantástico “Lost Somebody” que abre com o pulsar grave de um contrabaixo antes de um piano nos acertar em cheio no coração.

Have you ever loved somebody?
Way before you got to dream?
No more crying, he’s in sunshine
He’s alright now, see his wings

Estamos todos melhor agora e essa é que é a verdade.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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