Sam the Kid: a arte superior de um contador de histórias – Parte II

[TEXTO] Francisco Noronha [FOTOS] Paulo Romão Brás

[SEGUNDA PARTE]

Na primeira parte deste artigo, elencámos aquelas que consideramos ser as principais características ou linhas de força do storytelling em STK. Nesta segunda parte, iremos ver, em concreto, como a engenharia se processa “no terreno”. O nosso foco de análise incidirá em “6 Ta Feira” (Projecto Inoxidável II, 2004, DJ Kronic) e na segunda parte (4:33 em diante) de “16/12/1995” (Pratica(mente), 2006). Sendo este o nosso foco, não deixaremos de aludir, quando justificado, a outras canções, nomeadamente, “És Onde Quero Estar” (colaboração com os Mind da Gap), “Pitas Querem Guito” (colaboração com os 5-30), “Langaife” (com Regula) e “Isto já é cartão” (Pratica(mente), reedição, 2008, também com Regula). A escolha destas canções tem como tema agregador ou, melhor dizendo, como espaço-ambiente agregador a noite: a noite da grande cidade (esta imagem que acompanha o clip de “6 Ta Feira” ilustra na perfeição essa ideia) que se agiganta nas ruas, nos bares, nas discotecas, e o jogo de sedução (porque STK, recorde-se, é daqueles, como nós, que se lembram daquela “coisa muito bonita que era a sedução”…) com uma mulher (com excepção de “Pitas Querem Guito”, em cuja acção o narrador não participa). É a noite de Lisboa, mas podia ser a do Porto, de Barcelona, Paris, L.A. ou Tóquio, e logo por aqui se entrevê a tal vocação universal das pequenas-grandes histórias para a qual chamámos a atenção na primeira parte deste artigo.

Preliminarmente, um breve apontamento em matéria de narração e discurso. Em praticamente todas estas canções, temos, ao nível da presença do narrador, um narrador autodiegético, i.e., além de narrar a acção, ele é também o protagonista (ou personagem principal) da mesma. A excepção é “Pitas Querem Guito”, caso de uma narração heterodiegética, na medida em que o narrador está ausente da acção, não participa nela. Quanto ao foco de narração, o narrador é sempre omnisciente, sabendo tudo sobre o íntimo das personagens (os seus pensamentos e sentimentos interiores) e sobre o desenrolar da acção, nomeadamente, sobre o que se irá passar a seguir. Todavia, em virtude da intensa actualidade da narração a que que nos referimos na primeira parte deste artigo, STK, narrando o presente e no presente, acompanha os acontecimentos no preciso momento em que eles se desencadeiam, aspecto no qual é mestre no poder de conseguir prender o ouvinte e fazê-lo querer saber sempre mais. Finalmente, em termos de discurso, STK faz uso de uma vasta gama de recursos, cruzando narrativa e descrição com diálogos e monólogos e, dentro destes últimos, alternando o discurso directo com o discurso indirecto.

Não se incluindo no âmbito da análise a que aqui nos propomos, importa não deixar passar em branco, ainda que telegraficamente, outra das marcas autoristas de STK que faz do seu rap em geral (e do seu storytelling em particular) um trabalho artisticamente valioso, a saber, a perícia e o engenho na criação de jogos de palavras (wordplay), rimas multissilábicas e, claro, no manejar de um rico arsenal de recursos estilísticos: assonâncias, aliterações e paronomásias (fonicamente falando); anáforas, diáforas e anástrofes (morfossintacticamente); hipálages, metáforas, imagens, parábolas e, em especial no storytelling que aqui examinaremos, sinestesias (semanticamente).

  1. O mito da “porta” (“Porque a nossa moral depende de quem nos ponha lá dentro”)

Comecemos pelo princípio. Onde estamos? Numa discoteca, clube, bar. Uma, duas, três da manhã, aquela ansiedade em entrar e em juntarmo-nos à festa mas, sobretudo, de não “ficar à porta”, algo ainda mais marcante quando se é adolescente e a peer pressure maior. Queremos entrar, mas há a confusão habitual à porta, os porteiros que miram a multidão, de quando em vez escolhendo alguém a dedo (sobretudo mulheres, claro). Em “6 Ta Feira”, STK entra na discoteca porque está na guest list; em “16/12/1995”, porque um dos amigos com quem está conhece o porteiro, algo que, para quem frequentou/frequenta estas andanças, sabe que é sempre motivo para insuflar o ego e entrar de peito feito. STK, sempre inteligente, sempre acutilante, sabe disso: “Agora é Alcântara e a gente já se aproxima do Pedro / O homem da porta privada (…) / E o Marco aborda-o prudente porque a nossa moral / Depende de quem nos ponha lá dentro”. Se, em “Pitas Querem Guito”, a questão não se põe (pois temos, como referido mais atrás, um narrador heterodiegético), “em És Onde Eu Quero Estar”, o bar (e não uma discoteca) em que o narrador se encontra é diferente, mais relaxado, e, portanto, sem porteiro à porta (veja-se, neste sentido, o próprio videoclipe, o mesmo em que STK profere essa mítica frase, tão cara à sua inconfundível forma de estar: “’Tá-se bem um gajo vir assim, de streetwear?”).


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  1. O calor lá dentro (“Hormonas controlam zonas onde neurónios estavam a habitar”)

Já dentro do local, o narrador, depois de dar a “volta da praxe” (o primeiro reconhecimento do panorama, tão clássico com dezasseis anos como com trinta), inicia a caracterização do ambiente de flirt e hiper-sexualizado que carrega o ar (tanto em “6 Ta Feira” como em “16/12/1995”, há menção à presença de dançarinas, as tais que “divulgam a pele que apela à provocação”), reforçado com a presença de substâncias a correr no sangue e a influenciar comportamentos (a mão embriagada que, em vez de se ficar pelas costas, desce um pouco mais para o rabo, as cabeças que se aproximam cada vez mais, enfim, a mama que roça no tronco do narrador em “16/12/1995”…). Quem é que não nunca sentiu esta atmosfera quando sai à noite? Aliás, não é esse um dos factores da noite que mais atracção exerce em todos nós? Essa tensão, esse turvo desafio colocado em cada felina troca de olhares que se cruzam de uma ponta à outra do bar pelo meio de colunas, corpos e luzes?

Note-se que, ao contrário do que é habitual, em que são os homens que se prontificam a pagar bebidas às mulheres (para ser cavalheiros mas, também, para as fazerem “soltar-se” um pouco mais…), em “6 Ta Feira”, é Janice quem põe o narrador “a beber bebidas pesadas (Já ‘tou crazy)”, com o objectivo interesseiro de o alcoolizar e, assim, conseguir o seu propósito, o qual, no caso, não corresponde ao que habitualmente é perseguido pelos homens (o contacto físico e, desejavelmente, uma noite de sexo), mas sim o de lhe sacar os instrumentais (em “Pitas Querem Guito”, é a “guita nova da velha guarda” que a mulher quer sacar). STK já era, por esta altura (2004, ano da edição de Projecto Inoxidável II), alguém conhecido na opinião pública (desde logo entre os ouvintes de hip-hop, claro), daí que Janice e o namorado o reconheçam e abordem directamente (fica no ar, aliás, a ideia de que eles se deslocaram propositadamente àquela discoteca por saberem que STK iria estar lá naquela noite); em “Solteiro” (Orelha Negra, com Regula), essa fama está já perfeitamente consolidada (“Mas para ela, sou vedeta / E quer tirar uma foto ao colo”). A inversão de papéis referida, com a mulher a tentar “embebedar” o homem, é o primeiro indício da posição de fragilidade e dominação em que o narrador, homem, se encontra, questão mais explícita no papel do carro enquanto meio de deslocação, como veremos adiante.

  1. Body meets body (“Um corpo que pressiona, beija-me e menciona / Que quer-me imenso”)

No seguimento do que acabámos de referir, repare-se como esta inversão de posições se traduz igualmente ao nível da aproximação física, na medida em que é Janice, mulher, quem toma a iniciativa, quem assume definitivamente o engate, com essas duas deliciosas particularidades: primeira, a de ser ela a pôr a mão num sítio em que, habitualmente, são os homens que tocam as mulheres; segunda, a de Janice dizer ao narrador, muito perversamente, para não se assustar (“Já ‘tá com a mão no meu rabo e diz / ‘Não tenhas medo, eu não sou o diabo!’”). Dora, por sua vez, é também a primeira a “chegar-se à frente” (literalmente…), primeiro roçando a mama no narrador e, após o desafiar a cumprir o seu tradicional papel de assumir a iniciativa da coisa (“que me incentiva a ter iniciativa”), concretizando, ela mesmo, o “click” físico (“A dar-me um kiss e cativa-me fisicamente / Enquanto ela mexe, eu mexo também”). Este desembaraço da mulher, este “assumir das rédeas” sem preconceitos ou tabus será ainda mais evidente no momento em que ambos estarão já dentro do carro, como constataremos um pouco mais à frente.

A atmosfera de tensão-sedução concretiza-se, então, no encontro de duas vontades, duas atracções, dois corpos. Num caso, é com Janice (o primeiro beijo só acontece em casa do narrador), no outro, com Dora (beijam-se logo na discoteca). No jogo do quem é quem prévio a esse encontro, avulta a clássica questão da mentira (ou da omissão) no flirt, algo condizente, de resto, com a própria noite, por natureza escura, semi-oculta, clandestina (a maior “mentira” é mesmo a burla a que STK e Regula são sujeitos pela Rute e pela Tânia de “Isto Já É Cartão”). A excepção é “És Onde Quero Estar”, onde o que temos é não um engate de algibeira mas um romance autêntico, daqueles que dão borboletas, razão pela qual STK diz que prefere não ser “corista” (mentiroso) apostar antes apostar no humor (a sinceridade como dimensão inerente aos sentimentos mais profundos, ao contrário da simples “curte”, coisa efémera e eminentemente física).

Assim, Janice é a pessoa que mente ao narrador no primeiro caso, e triplamente: i) o rapaz que ele apresenta como irmão é, na verdade, seu namorado (“Têm as mãos dadas”); ii) ela não será uma admiradora assim tão grande do narrador (“Ela diz que o disco de amor [Beats Vol. 1 – Amor, 2002] ainda é o mais tocado no seu leitor / Cheira-me a coro); e iii) ela não está verdadeiramente interessada em passar a noite com ele, mas apenas, como já referido, em sacar-lhe os instrumentais para o namorado (que tem ambições em ser rapper). Já em “16/12/1995”, é o narrador que mente a Dora, de forma a impressioná-la não só na idade (típica mentira de engate, até porque, a acreditar na data dos factos, STK teria, em 1995, 16 anos), mas também sobre o facto de já trabalhar e, até, de serem vizinhos (facilitando, assim, através da proximidade geográfica, a eventual noite de sexo pretendida).

Ao encontro dos corpos, acelerado, embriagado, junta-se, porém, um dos elementos mais interessantes de todo o storytelling de “16/12/1995”: a incapacidade de alienação total do narrador, i.e., a incapacidade de este se “deixar ir” completamente, antes lhe “caindo a ficha” da consciência relativamente à situação em que está envolvido, no caso, a consciência da casualidade e efemeridade daquele engate, brilhantemente sintetizada neste verso: “E eu vou na conversa / E penso que eu não passo de uma conquista, uma vitória, uma atracção aleatória / Num destino que nos uniu no mesmo espaço”. As “curtes” de uma noite não são, na esmagadora maioria das vezes, exactamente isto? E não é disto que muitas pessoas, embora o fazendo constantemente, se lamentam, dizendo que é tudo “superficial” e que o que gostavam de ter era uma relação estável e íntima com alguém que amassem verdadeiramente? Também em “6 Ta Feira”, o narrador ele próprio dá conta expressamente desta incapacidade em se deixar ir, se bem que agora por culpa de Janice (“Mas ela quer ouvir MD’s que o Sam fez / quebrou tanto o ambiente que já ‘tou na lucidez”).

(Este artigo terá uma terceira e última parte publicada na próxima sexta-feira)


Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e crítico de música e de cinema em diversas publicações. Autor do programa de rádio "Regresso ao Futuro" (Antena 3, Rimas e Batidas). obosforo.blogspot.com.