Holly Hood: “Não estava à espera deste boom. O que me impressiona é a quantidade de vezes que sou citado”

[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [FOTOS] Sara Falcão [VÍDEO] Pedro Silva

Holly Hood é um dos nomes incontornáveis do hip hop nacional em 2016. O rapper e produtor da Linha da Azambuja estreou-se este ano com O Dread Que Matou Golias, a primeira parte de um álbum que é uma trilogia, depois de vários anos a tocar ao vivo como hypeman de Regula e de várias participações em mixtapes.

O rapper veio confirmar a Superbad Records como uma potência cada vez maior no rap português — especialmente quando tem para sair no início do próximo ano Sangue Ruim, a segunda parte do álbum, que vai ter sete faixas integralmente produzidas por Here’s Johnny, excepto uma que é co-produzida com outro beatmaker, ainda desconhecido. Holly Hood também adiantou ao Rimas e Batidas que vai querer fazer mais vídeos no próximo capítulo desta epopeia.

Depois de ter conquistado o público e de se ter assumido como uma das principais vozes do trap em Portugal — não que seja relevante se é trap ou boom bap, é rap e basta —, e de vários concertos vibrantes, com passagens pelo MEO Sudoeste, o Lux Frágil ou o Festival Iminente, agora é a vez de Holly Hood reunir as tropas e de as convocar ao Musicbox, no Cais do Sodré, em Lisboa, para uma noite de celebração que acontece na próxima quinta-feira, 17 de novembro, mas que também vai ter “coisas novas e a apresentação de um dos temas de Sangue Ruim“.

Sob este pretexto, o Rimas e Batidas visitou o estúdio da Superbad Records para falar com Holly Hood sobre os seus primeiros passos no hip hop, o sucesso dos últimos meses e sobre aquilo que o futuro lhe reserva.

 


Holly Hood - Sara Falcão


Como é que descobriste o rap?

O primeiro contacto de sempre foi com “Não Sabe Nadar”, a música dos Black Company. Eu gostava daquilo, não era por ser rap, era mesmo porque gostava da música, sabia-a de cor. Mas o primeiro contacto a sério, a perceber que ‘isto é rap e eu gosto disto’, foi com o álbum do Boss AC, Mandachuva. Foi nessa altura que tentei escrever as minhas primeiras rimas.

E como passaste, então, de ouvinte a rapper?

Havia um amigo meu que tinha esse álbum [Mandachuva] e o dos Da Weasel — o 3º Capítulo, se não me engano —, e eu queria muito o álbum dos Da Weasel porque eram quem eu conhecia. E quando fui a casa dele, por acaso não tinha lá o dos Da Weasel. ‘Olha, vais curtir este, é Boss AC, leva’ ‘Não… eu queria o dos Da Weasel’. Mas cheguei a casa e ouvi o álbum do AC e gostei, ‘ya isto é fixe, se calhar consigo fazer uma rima também’, e tentei fazer uma rima gravada num rádio que tinha. Mais tarde, conheci o Johnny, ele já tinha uma aparelhagem com dois decks, um botão de rec e essas cenas todas onde já conseguíamos gravar freestyles, letras…

Que idade tinhas quando escreveste essas primeiras rimas? 

11 anos, mais ou menos. Não eram sixteens nem nada disso, eram só duas rimas.

E em relação à produção? Como é que te envolveste a fazer batidas?

A produção foi mais tarde. Tanto eu como o Johnny. Ao início rimávamos os dois. O primeiro contacto foi nessa mesma aparelhagem que tinha dois botões onde podias seleccionar sons como kicks, tarolas ou hi-hats. E dava para gravares, mas tinhas de fazer os beats em real time. Então fazíamos beats para podermos dar freestyles. Mais tarde foi com o Fruity Loops no computador…

 


Holly Hood - Sara Falcão


Começaste a ouvir hip hop com essas referências boom-bap mas surges posteriormente com um primeiro álbum de trap. Como é que esse processo aconteceu?

Acho que é uma questão da evolução da música. Para mim não há aquela coisa do boom-bap e do trap. Para mim é rap. E é isso. Porque é que tem de ser uma cena, o boom-bap e o trap? É rap. Não são dois estilos de música diferentes. Essa história é uma cena a que acho que as pessoas dão demasiada importância.

Em relação à tua ligação com o Regula, como é que se conheceram?

O Regula era o maior representante da zona em termos de rap. Ele era the shit. É aquele bacano que, aqui na zona, se tu eras um aspirante a rapper, adoravas o Regula, de certeza. Eu tenho uma irmã mais velha, ele já a conhecia da escola e sabia quem eu era, mas não sabia que rimava, então houve uma altura em que lhe mostrei uma música minha, ele curtiu, e, passado uns tempos, depois de ouvir mais uma ou outra, convidou-me para entrar na primeira mixtape dele, Kara Davis. Mas já o conhecia da escola. Aqui na zona, toda a gente da minha idade cresceu a ouvir Regula. Somos daqui, ele é daqui, ele fala da realidade que se vive aqui.

O boom do Regula nos últimos anos, para o qual também contribuíste, foi uma inspiração para acreditares num projecto teu?

Acho que não foi só para mim, foi para todos os rappers em Portugal, porque ele é o gajo que conseguiu tudo, sozinho, sem ninguém, apenas ele. E acho que isso é uma grande inspiração para todos, porque cada vez mais a tendência é fazer-se tudo sozinho, ou o máximo que a gente consiga fazer sozinho. E ele foi o pioneiro, the first one that made it.

 


Holly Hood - Sara Falcão


Estavas à espera do feedback positivo e de todo o sucesso que tens tido, depois de teres lançado a primeira parte do álbum, O Dread Que Matou Golias?

Não… Não estava à espera que os singles tivessem o sucesso que tiveram. Depois, o que mais me impressiona é a quantidade de vezes que eu sou citado, seja na Internet, seja em conversas… as pessoas citam-me muito mais daquilo que eu estava à espera que alguma vez acontecesse. Não estava à espera deste boom. Tinha as minhas expectativas de não ser aquele flop fatela [risos], mas não estava à espera que fosse assim tão grande.

Quanto tempo é que passaste a trabalhar nos sete temas que editaste?

A primeira música que saiu do meu álbum foi “Qualquer Boda”, com o Regula, a 1 de Janeiro de 2016. O beat foi feito a 25 de Dezembro, numa noite de Natal aqui no estúdio, depois gravámos o som e saiu dia 1. Fiz o resto das faixas desde esse dia até à altura em que o álbum saiu.

Mas não tinhas instrumentais nem letras guardadas para o teu projecto?

Nem instrumentais. E acho que essa também é uma parte fixe de o álbum ser dividido em três partes, porque as coisas vão acontecendo, e nunca sabes exactamente o que vai acontecer, mas está sempre a acontecer. Por exemplo, não tenho a minha terceira parte pensada… não sei como é que vai ser, mas sei que vai ser.

Desde Junho, quando lançaste o álbum, até agora, quais foram os melhores momentos?

Sudoeste, Lux, foram todos… Nunca dei um concerto que achei que tivesse sido mau. Foram todos muito fixes. Mas tive momentos especiais, que eu nunca acreditei que fossem acontecer comigo na vida. No Sudoeste, uma miúda a chorar por me estar a ver a tocar… Foi uma cena crazy para mim. No Fizz, em Cascais, foi o primeiro concerto meu onde vi pessoas a fazerem mosh, e não era um mosh, eram núcleos de pessoas espalhadas a fazer mosh. No Festival Iminente, foi gangsta as fuck.

Em relação a esta trilogia, como é que tiveste a ideia de fazeres um álbum dividido em três partes?

Não sei como é que surgiu a ideia, mas pensei que era uma boa ideia, como se fosse um livro ou um filme, dividido por capítulos. Se dividires um álbum podes dar estéticas diferentes — não é que não possas se o álbum for lançado todo junto — mas pareceu-me melhor ser assim. E por causa da Internet. Essa foi a razão principal. Por causa da maneira como a Internet funciona com a música. Por exemplo, se eu lançar o meu álbum com 21 faixas para a Internet, não é por ter 21 faixas que há de ter uma durabilidade maior. Hoje em dia tudo é consumido muito rápido. Lanças uma cena, mas daqui a um mês, não importa se tem 21 faixas, 10 mil pessoas já lançaram álbuns e tu já não és assim tão fresh. E dividires um álbum em três partes com datas de lançamento diferentes faz com que estejas sempre mais fresh. ‘Toma, mas não está aqui tudo. Agora toma mais um bocado’. Vai-se consumindo. Não é logo tudo consumido. E cada vez as pessoas querem mais e mais e mais. O meu álbum saiu há cinco meses e já toda a gente quer mais e mais. A culpa é da Internet.

 


Holly Hood - Sara Falcão


E, por falar nisso, mas sem querer pressionar e alimentar essa urgência, já tens feito alguns teasers da segunda parte, Sangue Ruim. Ainda está em processo de produção, está em que fase?

Está avançado o suficiente para estar dentro dos deadlines. Entretanto há de sair um single, em breve, de Sangue Ruim. Posso adiantar o nome da música, chama-se “Ignorante”.

A segunda parte vai ter pontos de ligação à primeira, vai ser diferente de propósito?

A estética é totalmente diferente. E até porque os nomes que eu dei a cada uma… na minha cabeça, pelo menos, estão relacionados com a estética de cada parte. Eu tentei fazer a primeira parte a mais equilibrada, a segunda é mais aquilo que o título sugere.

Em relação aos videoclips da Superbad, tu realizaste o do 9 Miller para “Limonada”, vocês preocupam-se em criar uma estética própria?

Sim, eu faço vídeos um bocado por necessidade. Nos meus vídeos não tento ter sempre a mesma estética, mas tento incorporar elementos que, ao veres os vídeos, percebas que há ali uma ligação qualquer. Mas normalmente é procurar uma estética que me agrade. Como sou uma pessoa esquisita, perfeccionista ou picuinhas, acaba por não haver uma grande variedade na estética dos vídeos porque é aquilo de que eu gosto.

Em relação a outros rappers da nova geração, de que é que gostas de ouvir em Portugal?

Sem falar da minha crew, gosto de Wet Bed Gang, Phoenix RDC, um boy novo da Linha de Sintra que descobri há pouco tempo, Toy Toy, um boy da minha linha que se chama Amaral Jones, e um boy daqui do rap crioulo chamado Mano Burraz.

E referências internacionais recentes, o que é que costumas ouvir actualmente?

Oiço um bocado de tudo o que se faz em Atlanta, desde Future a Young Thug; até UK, com Krept & Konan, Stormzy, Skepta; mas também Denzel Curry ou Travis Scott.

 


Holly Hood - Sara Falcão


Acompanhas o hip hop em Portugal por dentro, há muitos anos, apesar de só agora editares um trabalho teu. Como é que vês o estado da cultura nos dias que correm?

Acho que está na melhor fase de sempre. Quando eu digo que o hip hop em Portugal está melhor do que alguma vez esteve é em termos de tudo. Há uns anos, tu não tinhas sequer muita gente a conseguir viver do hip hop. Hoje em dia tens rappers portugueses que compram carros com o dinheiro do hip hop. É um nível totalmente diferente. Vês os festivais: palcos principais com artistas nacionais de hip hop, isto está a ficar grande e está a ficar com muitos ouvintes. Há muitas pessoas a queixarem-se mas não há assim grande razão. E mesmo em termos da qualidade da música que se faz está a ficar melhor.

E achas que este é um crescimento sustentado ou é uma fase boa que pode ser uma moda passageira?

Não acredito que seja uma moda. Acho que é algo sólido. Eu já acompanho a história do hip hop desde que me interessei e a fui tentar perceber, desde o seu início, e claro que para muita gente pode ser uma moda. Tens um amigo que ouve hip hop e depois começas a ouvir mas depois até te mancas para a vida que aquilo não é a tua cena e bazas. Mas se formos conhecer a história, desde os anos 70 até agora, é uma moda que não deixou de ser moda. Já não é moda, é uma cultura.

Em relação ao concerto no Musicbox: é o primeiro organizado por vocês, em Lisboa, num local que tem recebido bastantes concertos de rap e se tem tornado emblemático para a cultura. O que podemos esperar? Estás entusiasmado?

Estou, por um motivo em particular. Eu tinha uma ideia de o público de Lisboa, antigamente, quando eu ia a concertos de hip hop, de que era o público considerado de “cara trancada” [e de braços cruzados, apenas a abanar a cabeça]. E, com o meu álbum, todas as vezes que eu toquei em Lisboa — e não só com o meu álbum, quando tocava como back vocal do Regula — não é isso que acontece. É crazy, o público de Lisboa é um grande público. Aderem ao concerto, vibram imenso e estão lá para se divertir. E isso é algo que me deixa ansioso para poder tocar no Musicbox, em Lisboa, com o público lisboeta. Há muito a questão de ninguém ter orgulho de ser lisboeta: as pessoas do norte têm orgulho de serem do norte, as pessoas do sul têm orgulho de serem do sul, e vais falar com os lisboetas e… fuck it, eu tenho orgulho em ser lisboeta. E quero muito tocar para o público da cidade onde nasci.

 


Os bilhetes estão à venda por 6€ na Bilheteira Online e Holly Hood promete “coisas novas” e convidados especiais. Na mesma noite actuam DJ Kronic e DJ Big.


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha