Britain’s Next Big Thing: slowthai

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Daniela K. Monteiro

Confirma-se a chegada da lufada de ar fresco que o grime tanto precisava. O género que evoluiu do UK garage no início do milénio tem vindo a estagnar com o passar dos anos. À falta de frescura, aborrece-nos a árdua tarefa de encontrar um novo rapper ou produtor digno de ser rotulado de alavanca de uma evolução estética que esta cena em particular tanto precisa. Nomes da velha guarda como Skepta, Wiley ou Dizzie Rascal não deixaram de estar em boa forma, mas falta aos newcomers a irreverência de criar algo que soe diferente, com um cunho particularmente pessoal.

Os exemplos citados anteriormente são, ao mesmo tempo, o rosto de uma missão ingrata condenada ao fracasso. A exportação do género pela via do mainstream foi um fiasco, já que a América do Norte, onde mora o principal mercado musical à escala planetária, pouco ou nada quis saber do grime na altura do primeiro boom. Algo que mudou num passado bem recente, quando Drake puxou os holofotes para Skepta no momento crucial que antecedeu a edição de Konnichiwa. Além dos benefícios colhidos pelo Top Boy, foi também a abertura de portas necessária para que Stomzy brilhasse ainda mais alto, após anos a editar inúmeros videoclipes.

Ninguém tira o mérito a Gang Signs & Prayer — com quase 70 mil vendas na primeira semana, o disco de estreia de Stormzy colocou-o como o primeiro artista grime de sempre a alcançar o primeiro lugar das tabelas britânicas, tendo amealhado também o incrível feito de conseguir ter todos os seus temas a integrar o Top 40 de singles do seu país. Há que reconhecer, no entanto, que nada de novo nos foi posto à frente. E basta recordar as tentativas de Dizzie Rascal, por exemplo, para perfurar o mainstream e rapidamente percebermos o quão pouco mudou, comparando os dois momentos de exportação.

 



Fugimos de Londres, o berço do grime, e encontramos uma figura capaz de renovar o género. À semelhança de Mike Skinner — a.k.a. The Streets –, que colocou Birmingham no mapa, slowthai chama todas as atenções para o que está a acontecer a quase 100 quilómetros da capital britânica. Mais precisamente em Northampton, há um jovem a desenvolver novas fórmulas para o grime num meio rural — “Pitchforks and keys telling me farmers ain’t got dreams?”, questiona-se em “The Bottom”, depois de lançar o aviso,  “and the farmers are coming, pitchforks sharpen”em “T N Biscuits”.

Tyrone Williams está virar a cena underground do avesso no Reino Unido. O nome artístico nasceu da sua natureza humana: a forma como se expressa foneticamente chamou a atenção dos seus amigos, que o apelidaram de Slow Ty. A maneira como se desenrolam os seus fraseados — lentos e arrastados –, aliados à forte necessidade de auto-afirmação, obrigaram à mudança da alcunha para alter-ego, dando vida a slowthai — “No space, no caps, no one can imitate”, frisa no seu mais recente single, “North Nights”.

Aos 23 anos, Tyrone é um dos casos a seguir de perto. Os astros alinharam-se e estamos perante um das grandes revelações em terras de sua majestade. O nome slowthai está escrito nas mais diferentes plataformas especializadas, que o destacam como uma promessa digna de acompanhamento em 2018 — a Complex ou a Pitchork já destacaram-no e a Vice estreou o seu último videoclipe.

 



O toque humorista e satírico é algo a realçar nos seus versos, capazes de se colarem na perfeição ao lado de linhas mais obscuras, que deambulam entre o consumo, pesagem e venda de drogas ou os estados de depressão e ansiedade. “Kenny”, do seu EP de estreia I WISH I KNEW, editado pela Bone Soda, é um forte exemplo desta complexa teia de temáticas. Tyrone goza consigo próprio por ter equacionado cortar os pulsos numa fase mais delicada, já que sem eles não iria conseguir enrolar as ganzas que o fazem afastar-se do mundo real. O título da faixa aponta para o personagem mudo e encapuzado da série South Park, a quem o rapper se compara — é o desenho animado mais amaldiçoado da história da televisão.

slowthai tem um jeito curioso de abordar temáticas de rua, recorrendo a jogos de palavras bastante nerdys. É daí que vem grande parte da sua frescura musical, ele que também produz a maioria dos temas que soma nestes dois anos de trajecto. Os singles que apresentou em vídeo são todos dignos de incansáveis repeats — da marginalidade assumidamente descontraída em “Jiggle” ao psicótico e desconcertante “North Nights”. Não esquecendo, claro, aquele que foi o tema que me fez apaixonar novamente pelo grime — “Drug dealer, I wear Nike, no Fila / Lean like tower Pisa, smile like Mona Lisa”, rasga na entrada de “T N Biscuits”, o storytelling que é inspirado no dia-a-dia do narcotráfico com os traços mais contemporâneos da actualidade.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira