Beautify Junkyards // The Invisible World Of Beautify Junkyards

beautify junkyards review

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Em Retromania, o livro que Simon Reynolds publicou em 2011 (na Faber and Faber), aborda-se, tal como revelado logo no subtítulo, “a adição da cultura pop pelo seu próprio passado”. Reynolds, um dos mais prolíficos e inteligentes autores das últimas duas décadas, fala-nos de uma era recente de “desenfreada reciclagem”: “géneros de tempos idos recuperados  e renovados, material sónico vintage reprocessado e”, muito importante a palavra seguinte, “recombinado”.

É de “recombinação” que trata a música dos Beautify Junkyards, banda de João Branco Kyron, João Moreira, Sergue Ra, António Watts, Rita Vian e agora também de Helena Espvall, a violoncelista sueca que em tempos integrou os Espers e que nos últimos anos encontrou nova casa em Lisboa, sendo agora parte extremamente activa no lado mais inconformista e experimental da cena musical da capital.

Os Beautify Junkyards nasceram da recombinação das ideias mais exploratórias dos Hipnótica com uma nova visão musical nascida de leituras colectivas e de pesquisa por parte dos diferentes músicos da banda que acabou por se materializar de forma discreta em 2013 num álbum homónimo que funcionou como uma espécie de manual de instruções de boas práticas psicadélicas e como um mapa de influências e sonoridades que importava explorar. A folk pastoral de Vashti Bunyan, Bridget St. John, Linda Perhacs ou Nick Drake, o psicadelismo de Heron ou Donovan e até Roy Harper, o tropicalismo de os Mutantes e a electrónica pioneira dos Kraftwerk impuseram-se como um conjunto de coordenadas que o grupo resolveu depois concretizar em material de lavra própria no álbum The Beast Shouted Love de 2015 que trazia na sua génese mais uma importante parcela para a complexa lista de ideias que continha — a assumida influência da música lançada pela britânica Ghost Box.

A etiqueta comandada por Jim Jupp e Julian House há década e meia que tem vindo a erguer um mundo musical extremamente singular – a que se colou o rótulo Hauntology – que resulta, precisamente, de um aturado olhar sobre o passado e da recombinação de uma série de ideias — musicais, visuais, filosóficas até — que se traduzem numa das mais vibrantes discografias urdidas nas margens da pop mais esotérica do Reino Unido neste milénio: folk pastoral, música concreta, psicadelismo, electrónica pioneira, library music, o legado do Radiophonic Music Workshop, a kosmische alemã, os ecos espectrais das experiências mais radicais resultantes do “hardcore continuum” da club music britânica (Burial, Boards of Canada…), as bandas sonoras do cinema e da televisão que o Reino Unido produziu nas décadas de 60, 70 e 80, a arquitectura brutalista, a literatura de Nigel Kneale

Quando a Ghost Box desafiou os Beautify Junkyards a contribuirem para a série Other Voices — um conjunto de dez singles por gente como Steve Moore (dos Zombi), Sean O’Hagan (dos High Llamas) ou os Cavern of Anti-Matter de Tim Gane (Stereolab) — em 2016, estava, de facto, a reconhecer a aproximação entre a produção musical do grupo português e o seu próprio universo. Integrar The Invisible World of… no seu catálogo seria, por isso mesmo, o mais natural dos gestos, com os Beautify Junkyards a poderem enfim beneficiar não apenas do contexto editorial mais apropriado para a música que criam, mas também de detalhes chave como a moldura gráfica de Julian House ou o adequado tratamento sónico ao nível da masterização de Jon Brooks.

Em Retromania, Simon Reynolds refere que “a música hauntológica também destaca tipicamente os aspectos fantasmagóricos das gravações”, referindo-se às possibilidades oferecidas pelas tecnologias de estúdio com efeitos que podem acentuar a ideia de deslocação temporal, como o eco, o reverb ou até a degradação analógica da fita. Ora, o que se sente em primeiro lugar em The Invisible World of… é, precisamente, essa qualidade atmosférica, com a música a parecer envolvida numa qualquer névoa que a distorce muito subtilmente, como se todas as gravações tivessem decorrido num campo coberto por uma fina neblina. Esse é, de facto, o universo invisível que rodeia os Beautify Junkyards: um limbo sonoro que os parece subtrair ao tempo e que os coloca num plano interdimensional difícil de localizar — entre épocas, entre géneros, entre continentes, entre até tecnologias.

“Prism”, tema que surge a meio do lado A deste LP, é um caso sintomático: abre com a sobreposição de um loop espectral a gravações de campo com sons de pássaros a que depois se acrescenta uma linha de baixo e uma subtil linha percussiva antes do quadro ficar completo com a harmonia das vozes de Rita e João e um discreto sintetizador que carrega uma melodia distante. O que cola todos estes elementos aparentemente dispersos são os efeitos, a densa camada de reverb que parece fazer estas vozes voarem para dentro da canção vindas de uma memória qualquer, as camadas de sépia impostas aos pormenores electrónicos, a degradação lo-fi de alguns dos sons que se pressentem na arquitectura geral do tema, como se parte deles tivessem sido gravados numa fita prestes a desintegrar-se. E no centro de tudo uma melodia carregada pelas vozes que se induz no nosso pensamento como se se tratasse de uma qualquer canção infantil há muito esquecida, mas agora subitamente reavivada.

Esta capacidade que os Beautify Junkyards parecem ter de circular por entre marcas de uma estranha familiaridade, como se todas as canções que nos oferecem fossem feitas de fragmentos meio esquecidos, meio lembrados de música que ouvimos noutras vidas, é uma das suas maiores qualidades. Outra será a sua original apropriação da “doutrina sonora” da hauntologia a partir de um ângulo que lhes permite acrescentar à complexa equação enunciada pelo catálogo da Ghost Box uma forte dose de psicadelismo tropical. João Branco Kyron viveu parte do seu período formativo no Brasil, onde teve as suas primeiras bandas, e é um devoto estudioso das derivas mais psicadélicas da produção musical pernambucana, da tropicalia do Rio ou dos novos baianos, e esse particular tempero confere a este mundo invisível que desenha perante os nossos ouvidos uma singularidade que lhe permite não se diluir simplesmente no caldeirão hauntológico que vai borbulhando no fogo lento da Ghost Box, mas antes destacar-se com classe.

 



“Manhã Tropical”, que abre o lado B, é quase um manifesto poético da música que os Beautify Junkyards desenham neste álbum: “Sou floresta tropical que te esconde, te envolve, te cobre, te suspende, como as folhas em busca de um lugar ao sol ou do calor”. 71 segundos feitos de dedilhar grave, pormenores atmosféricos e a voz que desenha uma imagem nítida, como se nos puxasse para dentro de um quadro de Henri Rousseau. É o que prepara o caminho para “Aquarius”, tema que parece responder à questão “o que teria acontecido se Tom Zé tivesse gravado um tema no Radiophonic Workshop com Delia Derbyshire?”… Já “Cabeça-Flor” trilha um impossível caminho entre os mesmos cenários rurais que hão-de ter acompanhado as viagens de Vashti Bunyan na Inglaterra dos anos 60, as tropicais noites psicadélicas de Lula Cortês e Zé Ramalho a meio da década seguinte e algo de estranhamente português – as cordas de aço que carregam a melodia poderiam ser de uma viola campaniça, não?…

A qualidade de produção garante que cada nova audição deste The Invisible World Of… consiga revelar novos pormenores, detalhes de um dedicado e intrincado trabalho de tapeçaria aural, com muitos fios entrelaçados numa rica malha de melodias e texturas, de harmonias e ritmos, de elementos orquestrais, de sons acústicos, eléctricos e electrónicos, de atmosféricas derivas por mundos semi-iluminados, densos de folhagem verde. É um dos discos do nosso ano, um dos discos de qualquer ano que se meça por intensas experiências que são puramente musicais e que não aspiram a outra cisa que não seja a um simples deleite estético. Música que pretende apenas encantar, hipnotizar, que convida ao mergulho e à imersão. E a mais nada. Mas também, na verdade, mais nada importa…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu