Amor, Escárnio e Maldizer – ou Amor, Amor e mais Amor

No princípio era a tesão, a fúria e a sofreguidão

Depois veio a calma à procura do saber e a satisfação

Inspiração para uma vida melhor, um caminho melhor

Um mundo melhor, para uma pessoa melhor

“(No Princípio Era) O Verbo”

 

Escrever sobre os Da Weasel (DW) por ocasião dos 10 anos passados de Amor, Escárnio e Maldizer, o álbum que encerrou a sua discografia, é exercício que não deixa de me atirar para uma certa (grande) nostalgia. Estávamos em 99, eu tinha 11 primaveras e a mãe do Pedro Coelho, meu grande amigo de infância, falou com a minha para que eu fosse com ele, nas férias grandes, para uma colónia de férias. Era na Tocha (ali por Cantanhede, embora, à data, se me dissessem que eu estava em Espanha, bem que teria acreditado, alienação que só a infância, infelizmente, permite…), dez dias com miúdos da minha idade e, sobretudo, miúdos mais velhos, entre jogos e brincadeiras. A “Tocha” era uma colónia organizada para filhos de funcionários de entidades integradas no Ministério do Saúde, o que incluía tanto filhos de médicos de hospitais como os filhos de empregadas de limpeza desses mesmos hospitais, filhos de administrativos, enfermeiros, auxiliares, cozinheiros, etc..

 


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Esta enorme diversidade, que já me era cultivada em casa, foi, por isso, algo que, desde o primeiro dia em que me meti na camioneta, me fascinou. Por essa altura, e ainda muito longe de saber a importância que o cinema viria a ter na minha vida, eu já tinha em mim, de alguma forma, aquilo que mais tarde a cinefilia esclareceu: a tendência para a observação dos outros e para me interessar sobre as suas origens, as suas motivações, as suas atitudes, os seus gestos. De resto, por que razão a diferença, da pronúncia à cor da pele, sempre me suscitou uma imensa curiosidade, em vez de estranheza? Por que motivo eu e mais dois ou três colegas, quando o Johnny, um miúdo negro, o único, entrou para o colégio, fomos os únicos a chamá-lo para o nosso lado em vez de replicarmos os olhares sombrios que os outros lhe dispensavam? Como não querer conhecer alguém que vinha de outro lado, de outro continente, de uma terra com outros cheiros, temperaturas, cores? Como não querer experimentar tudo isso, enriquecer com tudo isso? Agora que penso, desde miúdo que pressinto que é na diferença que está o potencial alargamento do meu mundo e dos meus sonhos, que só no encontro com ela (diferença) é que posso cumprir com um, não destino, mas um caminho que faça sentido para a passagem por este lugar. Se alguma qualidade tenho, uma devo-a aos meus pais: a curiosidade, a mesma que me despertou, entre tantas outras coisas, para os DW e para o hip-hop. Aliás, a eles e aos Mind Da Gap devo o amor de uma vida ao hip-hop – e que bonito é, na altura como hoje, vê-los (ou ouvi-los) juntos em “Nortesul” (Sem Cerimónias, 1997).

Quando cheguei à Tocha, a recepção não foi, confesso, de sonho: eram miúdos que já se conheciam de Verões anteriores, com as suas relações e dinâmicas (invejei-os quando se abraçaram efusivamente no reencontro), razão pela qual caí um pouco de pára-quedas naquela camarata de 10 ou 12 miúdos em plena puberdade, muito olhares desconfiados a questionarem, em silêncio, “mas quem é este puto que apareceu agora?”. O Pedro – ele que me perdoe – também não foi a melhor “ponte”, algo natural naquela idade, i.e., quando os nossos pais organizam coisas pelos filhos e nós somos os últimos a ser ouvidos – é natural, ele tinha ali o seu grupo de amigos já formado, espécie de “lugar secreto” fora do Porto e dos amigos do dia-a-dia, e não viu com os melhores olhos esse espaço a ser “invadido” por alguém, precisamente, do seu dia-a-dia. Coisas de miúdos.

Na mesinha de cabeceira de um dos rapazes com quem partilhava a camarata, uma pequena aparelhagem deu-me a banda sonora daqueles 10 dias, os quais se viriam a multiplicar por tantos os que vivi até hoje e viverei depois deste texto: Iniciação A Uma Vida Banal – O Manual, aquele que continuo a considerar – e não é apenas pela nostalgia – como o melhor álbum dos DW (e, até, como o segundo melhor álbum da história do hip-hop português, como assinalei numa lista que há tempos me pediram). “(No Princípio Era) O Verbo”, “Outro Nível”, “Agora E Para Sempre (A Paixão)” ecoavam-me pela cabeça enquanto andava, calado e observador, por aqueles corredores e pelo campo lá fora, fascinado com os cigarros (seriam só cigarros? Não sei, too young…) que o Rafa fumava às escondidas enquanto falava dos graffitis que pintava por Lisboa (onde? sei lá, Lisboa era tão grande para mim na altura, sobretudo para um miúdo do Porto), as calças da JNCO e a camisola de mangas compridas por debaixo da t-shirt do Espanhol (Tiago?, nunca lhe soube o nome ao certo) ou o rabo de cavalo do Stevs (com cuja irmã, a Inês, troquei umas cartas, de amor?, por uns tempos, sentindo-me sempre um péssimo escrevinhador ao lado das suas inteligentes crónicas do quotidiano).

 



Foi ao som de “O Remorso (O Que É Que Se Há-de Fazer)” – cujo significado demorei a perceber – que, pela primeira vez na minha vida, pensei a sério na Sida, numa altura em que a grande ressaca dos 90 se abatia sobre o país, eu e todos os miúdos a sentir o peso da culpa do Pacman como se fosse o nosso. Foi, portanto, com as paredes da camarata a ressoar “A Harmonia (Sentimento, Talento E Fundamento)”, “Venha Lá O (Money)”, “O Real”, “É Mesmo Assim (Respeito)” que, ao longo daqueles 10 dias, me fui enturmando lentamente, criando relações e cumplicidades, conquistando e sendo conquistado pelos outros. Talvez não tenha melhor exemplo (a par do futebol) na minha vida dessa ideia de que o hip-hop, a música, enfim, a Cultura, aproxima as pessoas nas suas diferenças, de que as tornas amigas e benfazejas, do que esses 10 dias na Tocha; numa generosa parte, foram os DW que me “integraram” naquele território desconhecido, e, só por isso, a minha história e a deles já se misturam a um nível muito íntimo, esse capaz de nos fazer estremecer em qualquer momento das nossas vidas. Como neste momento em que escrevo.

A terceira coisa que fiz mal cheguei ao Porto foi comprar o disco e ouvi-lo ininterruptamente enquanto observava – e receava, até!, como se pegasse em material subversivo – aquela capa que ainda hoje se conserva assombrosa aos meus olhos: duas esqueléticas mãos, vistas a raio-X, algemadas, a bater texto numa máquina de escrever. Disposição que ilustra bem a “prisão”, a “dependência” de todo o homem de espírito (Pacman, entretanto Carlão) às palavras, à exteriorização (exorcização, também) do que de mais íntimo, negro ou visceral carregamos cá dentro. As palavras de Pacman sempre foram isso mesmo: desnudos veículos de expiação, redenção, confissão de fantasmas e demónios. Mas também exaltação do amor e das coisas simples e boas da vida, do que de maravilhoso há, afinal, nisto de viver. As suas palavras, pejadas de evocações bíblicas, sempre foram as de alguém tão atormentado com os infernos da culpa e da consciência (o “pensar demais”) quanto fascinado com a sensualidade da vida – acima de tudo, de alguém que sempre lhe deu (escreveu, cantou, gritou, gesticulou, suou) com a alma, como o título do álbum de 1995 o sintetiza.

E são essas mesmíssimas palavras as que também lhe escutamos em Amor, Escárnio e Mal Dizer, o último álbum de originais dos prolíficos DW, que, convém recordar, lançaram, entre 1994 (More Than 30 Motherf***s) e 2007 (Amor, Escárnio E Maldizer), sete álbuns de originais (com mais dois discos gravados ao vivo nos Coliseus, onde estive a fazer muitas mosh com o Pedro Evangelista, e no Pavilhão Atlântico). Algo quase ímpar (só acompanhados pelos Mind Da Gap e por Boss AC) para uma banda predominantemente centrada – e isto é matéria basta para discussão, mas já lá iremos – no hip-hop num tempo em que este ainda era coisa exótica e marginal (quando não, e era-o frequentemente, “violenta”, “de pretos” e por aí fora). E “exótica”, até, para os próprios standards do hip-hop português à época, não tivessem os DW começado “ao contrário”, i.e., logo com formação de banda, e não no formato clássico (DJ e MC) que depois evolui, em tantos casos, para banda. Amor, Escárnio e Maldizer é título que resume bem os vários momentos emocionais pelos quais foi passando a relação dos próprios DW com o seu público – ou melhor, com “o” público, na subtracção do pronome possessivo se revelando o progressivo alargar do raio de penetração da sua música, de banda de nicho a banda “da moda” que enche anfiteatros, momento em que já não era “fixe” e de bom-tom gostar da banda de Jay, Quaresma e companhia.

 



Hoje, porém, com outra lucidez que o distanciamento histórico sempre permite, podemos avaliar mais justamente as coisas e perceber como Amor, Escárnio e Maldizer, não sendo, de todo, um dos seus melhores discos, conserva algumas das suas melhores marcas, desde logo o interesse pela mistura, o entrelaçar das diferentes cores e sabores que sempre tintaram a obra dos DW – e que, inclusivamente, como sempre acontece nestas coisas, lhes valeu o repúdio de muita gente, que os acusou de se terem “comercializado” ou “vendido”. O que essa gente não sabe – a ignorância pesa sempre muito nestes assuntos – é que na, carreira da banda de Almada, não existiu nunca qualquer imaculado “jardim do Éden” do hip-hop. Dito de outra forma: os Da Wasel, banda verdadeiramente transgénero, nunca foram, nunca quiseram ser, só hip-hop. Do rock e do rap de “More Than 30 Motherf***” à absolute gem de funk que é “Right On”, ao reggae e ao dub de “Essa Vida” ou à inclassificável “Só a Ti” (um dos tesouros mais escondidos da sua discografia), todas elas canções integradas em Dou-lhe Com a Alma (1995), os DW sempre tiveram no seu ADN sónico o gosto pela mestiçagem e pela largueza de horizontes, os quais, posteriormente, se haveriam de espraiar para o nu metal de “Tás Na Boa” e“Nu Selectah” ou o acid –  sim, meus senhores, acid! – de “Sigue, Sigue!” (Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder, 2001), para a bossa nova de “Toque-Toque” ou a pop de “Dialectos de Ternura” (Amor, Escárnio e Maldizer). E estes são apenas alguns exemplos modelares de uma vasta e indomesticável obra que, iniciada sob o signo da Fusão que marcou toda a década musical de 90, se aventurou sempre por paragens novas e originais – onde meter, por exemplo, malhas como “O Puro”, “O Real” ou “A Força Negra”? Em nenhuma prateleira, a não ser numa chamada “Da Weasel”, modo de sublinhar a singularidade (ainda hoje prevalecente) da sua proposta no âmbito da história da música portuguesa.

Amor, Escárnio e Maldizer não é o grande álbum de despedida que os DW mereciam – e não o é por ser, precisamente, um disco exacerbadamente de despedida: demasiados, descontextualizados e desarmoniosos interlúdios [de reggae, dub, metal, com espaço, até, para as inenarráveis aparições de Simão Sabrosa (?!) e dos Gatos Fedorento quando eles próprios começavam já a entrar num sofrível declínio], momentos sinfónicos de uma gravidade demasiado auto-consciente (colaborações de Rui Massena, do malogrado Bernardo Sassetti e da Orquestra Sinfónica de Praga) e remixes e versões instrumentais que, além de sugerirem que estão lá para “encher” (22 faixas perfazem o álbum), acusam um tom demasiado auto-celebratório. Aliás, “8 Naipes”, faixa que inicia o disco (e anuncia a sua dimensão sinfónica), parece já, na sua solenidade, apontar para o adeus, a percussão e as cordas a comporem o epitáfio. E, claro, as palavras, sempre elas: em “(No Princípio Era) O Verbo” (Iniciação a Uma Vida Banal), Pacman cantava “Palavra de Honra era e é a palavra todo o santo dia”; para, oito anos depois, o mesmo Pacman fechar o ciclo em “A Palavra – Tema Para Sassetti”. “Foi tanto o que me deram para nunca mais esquecer / Palavra de honra, guardo a palavra no meu bolso / Na parede, no conforto de uma cama de rede / Palavra de honra”.

De todo o modo, o álbum reserva algumas malhas excelentes, casos de “Toque-Toque”, “Dialectos de Ternura”, “Mundos Mudos” (que tem um impacto emocional muito particular em mim , razão pela qual só passado este tempo todo é que consegui, como crítico, apreciá-la “analiticamente”…), “Um Dia Destes” (com um certo toque “grimesco” que, em Portugal, Ex-Peão já avançara no ano anterior em Máscara), “Niggaz”, “Sistema do Sistema” e “Amor, Escárnio e Maldizer”, que podemos finalmente escutar sem as pressões imediatistas do “gosto” e “não gosto” que as redes sociais exigiriam se o álbum saísse hoje. E, sobretudo, sem a guiltiness, sem o “pecado” de gostar de um álbum de uma banda popular e na berra como os DW eram à data. “Cowboys – Poema Para Cláudia”, canção cinéfila que vai de John Wayne a Claudia Cardinale e Sophia Loren (supõe-se), e “A Palavra – Tema Para Sassetti” acabariam por prenunciar o trajecto de spoken word que Pacman viria, na sua carreira pós-DW, a abraçar nos trabalhos O Algodão Não Engana (2009), Uma Falaciosa Noção De Intimidade (2011) ‎e A Gramática Da Paixão Dramática ‎(2012). E, à luz de hoje, o tema dedicado a Sassetti acaba por se tornar particularmente sombrio pelo destino (ainda hoje não esclarecido) que o compositor e pianista português viria a conhecer em 2012, como se, cinco anos antes, as palavras de Pacman já “advinhassem” qualquer coisa…: “A caminho da essência eu verifico a cadência / Da matéria que se mostra mim livre de regência / Mato a dor de sentir demais, de amar demais, de pisar demais”.

 



Comum a toda a (desalinhada) linha sónica dos DW esteve sempre o talento de Pacman como letrista, um dos melhores da sua geração [a par, entre outros,  de Manel Cruz, com quem haveria de partilhar a magnífica “Casa (Vem Fazer de Conta)”], embora frequentemente obscurecido, sintoma de um sinistro tempo em que o hip-hop não merecia a dignidade de outros géneros musicais – um tempo, felizmente, da “outra senhora”. Se, até 3.º Capítulo [1997, o tal “álbum da palma” (conferir artwork) para o qual Sam The Kid diz, em “Placas” (5-30, 2014), ter gravado por já então lhe dar “com a alma”], e não obstante alguns excelentes momentos, o conteúdo e o flow do texto ainda carregarem uma certa ingenuidade ou fragilidade (próprias, de resto, de alguém de apenas 22 anos), Iniciação A Uma Vida Banal marca, definitivamente, a sua afirmação como um enorme letrista: glosador do quotidiano, romântico incurável, poético e circunspecto, feroz e arguto na observação social, lúcido e irónico no comentário dos nossos tiques, complexos e manias. Sim, “nossos”, porque outro dos traços exemplares da sua escrita é o comentário sobre nós, portugueses, e do modo de ser “português” – coisa impossível de definir mas que o leitor certamente saberá, à sua maneira, mais ou menos o que significa (“Toda a Gente” dá pistas). Mais do que um rapper, um letrista, um escritor de canções (songwriter) que, mesmo quando o sucesso apareceu, não deixou nunca que as suas palavras se domesticassem. Muitos e excelentes rappers há que nunca foram grandes letristas (e o contrário também é possível: JK, da Monster Jinx, é, quanto a nós, muito melhor letrista do que rapper), precisamente por nunca terem transcendido a forma (a postura, as “barras” puras e duras) e a substância (os temas convencionais) do rap, algo que Pacman haveria de selar em Re-Definições e em Amor, Escárnio e Maldizer.

A este respeito, o amor sempre foi, indubitavelmente, um dos territórios por excelência de Pacman. Ouvi-lo é testemunhar o crescimento de um homem, do miúdo franzino de cabelo rapado ao adulto entroncado de dreadlocks, com todas as desilusões, cicatrizes e epifanias que o passar dos anos carrega. Da juventude, idealismo e sofreguidão de “Dúia” chegaríamos à distensão (e a palavra está paredes meias com uma outra: “distanciamento”…), à maturidade e à serenidade charmosa de “Toque-Toque”: “Eu ‘tou interessado em tudo menos sexo sem significado / (…) Nunca durmo na primeira noite, haja ou não tesão” (importante ouvir a canção e não ler o trecho assim, descontextualizadamente). Tudo sempre envolto numa escrita engenhosa e burilada, tão inteligente quanto adocicada e orelhuda. Foi, aliás, esta valência, juntamente com a sua sonoridade descomplexada e ecléctica, que permitiu aos DW confeccionarem canções “pop” – inclusivamente com um pé na pista de dança –, sem, porém, jamais caírem na mediocridade e no mau gosto (o de Dengaz, por exemplo). E isto num tempo em que não era frequente – muito menos bem-visto – o hip-hop produzir “canções” no sentido convencional, algo absolutamente normal hoje em dia, desde logo quando a própria pop foi consumida pelas fórmulas do hip-hop.

Num texto publicado nesta casa, o meu colega Ricardo Farinha interrogava-se sobre se Slow J seria o “herdeiro” de Sam The Kid (STK). A pergunta, obviamente, era retórica, estímulo para reflexão, algo em que muitos “leitores” (as aspas justificam-se para deixar de fora aquele que se limitam a ler os títulos, as gordas e três ou quatro frases ao calhas) não perderam tempo (ler custa, não custa?), preferindo bolsar que “não fazia sentido”, que “não tinha nada que ver” e outros pensamentos elaborados que tais. Será que faz sentido relacionar um filme de John Carpenter com a música de Nerve? Ou um filme como Much Loved  de Nabyl Ayouch com o Les Demoiselles d’Avignon de Picasso? Faz e não faz, tudo depende da amplitude da nossa reflexão – e do tempo e da vontade para reflectir. Tudo isto para dizer que, não concordando, de todo, com a ideia de Slow J como um “herdeiro” de STK, vejo-o mais na linha, isso sim, de uns DW: o hip-hop como base (mutante), a criação de verdadeiras canções onde as harmonias e o canto são protagonistas, o  gosto pela mistura, a mesma indomesticável vontade em cruzar ideias, formas, temperaturas, continentes – se um dos remixes de Amor, Escárnio e Maldizer tinha o dedo “kudurista” (e, até, um certo balanço trap avant la lettre!) dos Buraka Som Sistema quando o grupo ainda era praticamente desconhecido, hoje é Slow J que abraça o afro house – o género de dança de origem africana hoje na berra, como o kuduro começava a estar à data em que os Buraka lançavam From Buraka To The World E.P. (2006) – em “Mun’Dança” (por isso é que também insinuei que não me surpreenderia se, no futuro, testemunhássemos uma incursão do sadino pela música brasileira, como os DW fizeram com a bossa nova em “Toque-Toque”). E até no microfone a voz de Slow J ecoa, por vezes, a de Pacman, sobretudo em “Sonhei Para Dentro” (The Art of Slowing Down, 2017): a partir dos 1:26, como não sentir, na voz de Slow, o timbre (grave) e a cadência (pausada) do vocalista dos DW? Razão pela qual nos interrogámos mesmo (retoricamente, calma…) se The Art of Slowing Down não poderia ser, hoje, o álbum lançado por uns DW ainda no activo e a acompanharem as transformações mais recentes da música (nomeadamente, do hip-hop e de toda a toada dançante oriunda dos PALOP). No mais, é o próprio Slow a “patrocinar” a evocação da Doninha: “Quero unir os ouvintes como os Da Weasel faziam quando eu era miúdo. Vias pessoal da metalada e do R&B a ouvir as mesmas canções e a abanar a cabeça da mesma maneira!”.

 



Em “Adição” (Iniciação a Uma Vida Banal), uma das mais belas letras que Pacman já compôs, de ressonâncias bíblicas, ouvíamo-lo, oniricamente, a tactear, pela primeira vez, o mundo imperfeito que o esperava. “Como um bebé que dá os primeiros passos / rompo todos os meus laços (…) / Saí do teu ventre quente há pouquinho (…) / Abro caminho na escuridão, à procura de uma mão / que me leve a bom porto sem cair em perdição / Já conheci a perfeição da mais bela ilusão / não preciso da redenção do teu falso perdão”. A ligação, anos mais tarde, desta canção com “Casa (Vem Fazer de Conta)” (Re-Definições) selará, poeticamente, o ciclo biológico e a imagem de fragilidade, do aperto, que é, afinal, isto de viver, de fazermos o nosso caminho, de ganhar e perder, celebrar mas também sofrer e resistir: “Não vejo a hora de voltar lá para dentro / Faz frio cá fora / Faz tanto frio cá fora que eu já não vejo a hora”. Provavelmente inconsciente, é um raccord lindíssimo (inclusivamente “térmico”: o quente “lá dentro”, o frio “cá fora”…), desses bigger than life, desses que nos fazem colocar tudo em perspectiva e ver como a nossa vida (banal) é tão insignificante como preciosa no movimento maior do universo. E talvez a essa súbita tomada de consciência da nossa pequenez só a música, a arte em geral, possa oferecer algum conforto – por vezes, só as palavras de alguém que também se apercebeu da nossa ínfima condição e, acto contínuo (urgente), as transpôs para uma canção nos podem aconchegar. As de Pacman terão, provavelmente, aconchegado muita gente – aconchegaram-me a mim, com toda a certeza.

Felizmente, a solo e noutros projectos, o tempo tem-nos dito que continuamos a poder sentir Pacman “cá fora”, entre nós. Que assim seja por muitos e bons anos.

 

Almada Crew. Da Weasel. Bernardo Sassetti.

Obrigado.

Palavra de honra.

 

Primeiro acto ‘tá no final, yo, o livro fica aberto

Porto, 4 de Abril de 2017.

Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e crítico de música e de cinema em diversas publicações. Autor do programa de rádio "Regresso ao Futuro" (Antena 3, Rimas e Batidas). obosforo.blogspot.com.