12 artistas que estão a dar que falar no Reino Unido

[TEXTO] Rui Correia [FOTO] Studio 1998

Há um novo grupo de sonhadores à solta no Reino Unido. Um conjunto de pessoas tão vasto que, imaginem a audácia, nem precisamos de referenciar nomes como Stormzy, Little Simz, Wiley, Skepta, J Hus, IAMDDB ou Dizzee Rascal.

Falamos de artistas emergentes, no limiar do estrelato, que querem fazer a diferença no panorama actual. A maioria dos músicos da nova geração é independente: finalmente tornou-se mais fácil vencer sem querer agradar a engravatados que raramente conseguem acompanhar as constantes mudanças de tendências que têm tudo para acontecer. Rappers e artistas em geral chegam directamente ao público-alvo com a ajuda de redes sociais e nada mais fácil do que servirem as suas bases de apoio com singles e vídeos regularmente: o canal de Youtube GRM DAILY, por exemplo, é um dos maiores motores promocionais de música urbana no Reino Unido, com vários vídeos a baterem nos milhões de visualizações. O canal COLORS, de carácter mais global, também tem sido um impulsionador importante.

Num país tão vasto e de tantos criativos, é a capital do Reino Unido, Londres, que recolhe praticamente todos os louros. A hegemonia é evidente e por isso esta lista foca-se obrigatoriamente nos talentos da grande cidade, com excepção para Slowthai, que subsiste no ecossistema do rap numa localidade mais pequena, Northampton.

Em Londres foi criado e catapultado o grime para o altar da música inglesa até ao ponto em que a plataforma digital de streaming Spotify oficializou-o como um género de música. Em Londres caiu um meteoro com “substâncias” afrobeat e dancehall que, combinadas com rap, resultaram em algo fascinante: o afro swing ou afro bashment, celebrizado por J Hus, e agora seguido cegamente por dezenas ou até centenas de novos rappers que lhe tentam pisar os calos, ostentando hits atrás de hits que angariam milhões e milhões de visualizações. Em Londres chegam-se a extremos em que músicas violentas geram violência nas ruas, como é o caso infeliz do drill. Em Londres há uma nova vaga de jazz suficientemente aberta para abraçar o rap e todos os seus subgéneros. Em Londres, como já devem ter percebido, tudo acontece.

Para lá das agitações socioculturais causadas pelo capitalismo desregulado e desumanizado que manda abaixo clubs a uma frequência abismal, seja por falta de financiamento ou por ridículas queixas de volume, e para lá de leis abusivas como o “stop and search” que humilham e discriminam diariamente várias pessoas, incluindo artistas bem conhecidos como George The Poet, há uma riqueza artística que nunca desvanece no underground e invade o mainstream a ritmo galopante. Neste destaque especial à música do Reino Unido, desvendamos uma amostra dessas preciosidades.

 


[Avelino]

O rapper de Tottenham, sul de Londres, é um nome que está muito próximo de despontar para o patamar estelar de Stormzy ou Skepta. Aliás, em 2017, Avelino aliou-se aos outros dois para “Energy”, música que se tornou tema oficial do FIFA 18. Exímio na entrega, as palavras saem-lhe com naturalidade e inteligência. É, sem sombra de dúvida, um dos melhores rappers da sua geração. Avelino tem estado muito activo este ano com singles como “Boasy” (com participação de Not3s) e por isso augura-se o lançamento de um álbum de estreia para breve, embora não esteja ainda prevista uma data. Até lá, vale a pena revisitar o EP FYO (2016) com produção de Raf Riley, registo que conta com algumas das suas melhores faixas lançadas até ao momento, e ainda várias mixtapes como Young Fire, Old Flame (2015), criada em conjunto com Wretch 32.

 



[Ms Banks]

A poderosa Ms Banks já mereceu a atenção e os elogios de Nicki Minaj, algo que até surpreendeu a própria. A “cunha” surgiu no ano passado em forma de tweet e a rapper londrina soube aproveitar o hype para disparar balas certeiras. “Bangs” foi a reacção certa para se promover com todas as suas qualidades expostas: sensualidade, agressividade e uso de slang ao jeito britânico: “Hope it bangs, yeah bangs/ Play this in your speakers, bet it bangs/ Get me on a feature, bet it bangs/ Yeah that boy’s a dog, he just bangs”. Este ano lançou a mixtape Coldest Winter Ever, de onde saltaram mais dois singles de excelência: “Clap” e “Come Thru” desfilam braggadocio. Os flows saem como chapadas milimetricamente colocadas. O que dói também dá prazer. Temas viciantes que vieram para ficar.

 


[Denzel Himself]

Denzel é um punk com roupagem rap. DIY a 100%: produção, letras, vídeos e edição ficam quase sempre a cargo do próprio. A sua imaginação faz recordar Tyler, The Creator nas suas criações mais sujas (“BANGIN’” é uma versão distorcida de “Yonkers”), mas também em encontros com as suas vulnerabilidades emocionais (“Melty” é uma versão menos romântica de “See You Again”). O EP de estreia Baphomet James é como um excerto do livro do desassossego (olá Bernardo Soares…Fernando Pessoa?). Som fragmentado, descritivo e exploratório do íntimo com uma análise distanciada. O futuro da música de Denzel Himself é incerto e até isso encanta…

 


[Benny Mails]

O Sul de Londres é a área onde cresceram e habitaram nomes como David Bowie ou Slick Rick, duas inspirações mencionadas por Benny Mails numa entrevista à Clash. A arte que “sai” da zona sul há várias décadas é tremendamente vasta e não pára de criar “novos filhos”. Os pais de Benny passaram-lhe o conhecimento punk, funk e soul e o hip hop acabou por ser uma sequência previsível no seu percurso: começou pela dança, no breakdance, e muito rapidamente passou para o rap. No ano passado editou a sua primeira mixtape, Aware, em que deambula por problemas de ansiedade que se agarram à sua voz e aos seus flows apressados (e que tentam ser relaxados) em beats dentro da gama clássica boom bap e de extremos exploratórios da electrónica e do grime.

 


[Sam Wise]

Sam Wise soa-vos familiar? Algum fã de Senhor dos Anéis por aí? A verdade é que Samwise, o hobbit, aparece listado nas pesquisas do Google quando pesquisamos por Sam Wise, o rapper. Imaginamos de repente uma história de um rapper hobbit, mas fica para uma crónica futura, quem sabe. Sam Wise faz parte de um colectivo de Londres, House of Pharaohs, que se move em formas semelhantes a Odd Future ou Brockhampton: ganham força em números, promovem o seu lifestyle e premeiam a individualidade artística de cada membro. Falta-lhes atingir o objectivo de garantirem a sua independência para financiarem e criarem os seus vídeos e editora — HOPE — é certo, mas não é por acaso que Frank Ocean destacou-os no seu programa de rádio BLONDED na Apple Music com a passagem do tema “RWM (Run With Me)”, em 2016.

O sábio Sam (trocadilho intencional) é o elemento proeminente do grupo, estando mais activo a solo com o lançamento de singles como a veraniça “Lizzie” ou a pseudo-perigosa “Do or Die” e em participações como a recente “100 Degrees” de Octavian.

 


[Octavian]

Octavian é mais um caso de ascensão astronómica do rap londrino: após o lançamento do single “Party Here” em 2017, recebeu o co-sign de Drake que postou uma foto no Instagram citando parte da letra da música e mais tarde foi filmado numa after-party dos Golden Globes a cantá-la. “Your mandem are getting too close/Careful how you approach me and my bros,”. A vida de Octavian não é de todo uma festa, pelo contrário, tem uma história conturbada e marcada pela pobreza. Perdeu cedo, aos 3 anos, o seu pai, que era angolano, e viveu em Lille, França, até que a sua mãe mudou a sua família para Londres. Octavian sempre foi um rapaz problemático e aos 15 anos passou a ter de se desenvencilhar sozinh. A sobrevivência tornou-o focado em querer descrever fielmente a realidade e as contrariedades da sua cidade em termos musicais. O rapper revela diversidade, operando entre influências americanizadas — o trap de Travis Scott vem à baila — e britânicas — o positivismo do afro swing ecoa por aqui –, mostrando-se sempre um produto local à procura da globalização. Os singles mais recentes como “Little” ou “Hands” servem de exemplo. Octavian está a um pequeno passo de algo muito maior.

 



[Jimothy Lacoste]

Um misto de Lil B e David Bruno: apresentamos Jimothy Lacoste, um rapper goofy que não se leva a sério e por isso não sabemos bem onde começa o humor e termina a música. A comédia musical é abstracta e surrealista à la Monty Python e intempestiva como Eric André. Também é lo-fi e romântica q.b. para todos os gostos. Jimothy caiu de peito aberto no meio do cenário rap londrino e o timing é perfeito. “I Can Speak Spanish” é um hino à multiculturalidade da cidade; em “DRUGS” assume-se como um rapper consciente avisando-nos sobre o uso excessivo de drogas, “Take it easy with your drugs or it could be a loss”, e em “Getting busy !” ilustra bem como a sua vida está a ficar bastante preenchida com o sucesso atingido. Ou não…

 


[Not3s]

Um novo (sub)género chamado afro bashment, que foi celebrizado por J Hus, tem ganho imensos adeptos. Not3s é um jovem que nasceu no seio deste movimento e é notável a sua omnipresença nos lançamentos mais recentes: foi requisitado para participar em singles de AJ Tracey, Avelino ou NSG e enfim, tem inúmeros singles de grande sucesso comercial como “My Lover” ou “Aladdin”. Um dos rappers do momento com um swag e flows exuberantes que prometem redefinir a pop actual.

 


[Loski]

No dia em que lançou Scorpion, Drake teve mais um momento de partilha com uma sequência de histórias no Instagram em que identificou músicas que o influenciaram na criação do disco. Call Me Loose, mixtape de estreia de Loski, foi um dos projectos mencionados. O rapper de apenas 18 anos — o mais jovem nesta lista — é já um dos ponta-de-lanças da nova geração de artistas britânicos: Call Me Loose entrou facilmente no Top 50 da tabela de álbuns mais vendidos no Reino Unido, sem qualquer tipo de apoio editorial, realce-se, e conta com cerca de uma dezena de singles que angariaram vários milhões de visualizações. Loski é filho de Ty Nizzy, rapper e membro dos PDC, um gang de Brixton conhecido pelos piores motivos. Começou pelas actividades criminais, que incluem roubos a bancos, tráfico de drogas e tráfico de armas, mas “recompôs-se” mais tarde como editora e colectivo musical. Filho de peixe sabe nadar e a fama conquistada por Loski tem tanto de bom como de mau: a sua crew Harlem Spartans – uma das mais comentadas da cena drill — teve vários dos seus membros presos, incluindo o próprio, por situações como ameaças à integridade física a membros de gangues rivais.

A vibe mudou desde que saiu da prisão e Loski só pensa em atacar ao topo dos topos agora. No princípio era o drill — ouça-se “Hazards” –, no fim ficou o afro swing — atentem no banger “Forrest Gump”. E é assim que ficamos colados a mais um rapper camaleónico de Londres.

 


[A2]

Introspectivo, ambíguo, A2 deixa o ouvinte entrar no seu mundo e completar os espaços em branco. A carreira do rapper de Croydon iniciou-se ao ritmo frenético do grime, até que a sua sensibilidade o acalmou. O EP BLUE, lançado no final do ano passado, é um trabalho coerente, repleto de grandes canções que “fotografam” pequenos instantes do seu estado de alma. Como o próprio indica em entrevista à Crack Magazine, o (des)amor está em todo o lado. Na mesma conversa também revela que é um ouvinte assíduo de r&b, género que se faz sentir na sua passada lenta. Os beats a baixas rotações dão-lhe a possibilidade de alcançar um maior número de pessoas: troca constantemente posições entre cantor e MC, sempre com o mesmo brilhantismo, e os sentimentos transparecem como água, tal é a sua capacidade de encaixe lirical e entrega completa nas produções escolhidas. “Rolling Stones” e “Cupid // No Feedback” são dois temas soltos que foram lançados há poucos dias. Merecem a atenção dos grandes players do momento (Drake, vem cá ouvir isto também).

 


[Flohio]

Acompanhada de artistas com uma visão artística mais alternativa, como a dupla de produtores God Colony ou Gaika, a rapper de Bermondsey, sul de Londres, já teve a oportunidade de pisar palcos em Portugal: em 2017, com os God Colony, estreou-se em Lisboa no Festival Zona Não Vigiada e esteve presente também em Guimarães no Festival Mucho Flow; no início deste ano tivemos oportunidade de entrevistá-la antes da sua passagem pela Galeria Zé dos Bois num evento com curadoria de Gaika. “Fights”, “Bands” ou “Watchout” são alguns dos temas mais recentes e refrescantes da cena rap britânica. Desafiante e de língua afiada, Flohio é um talento de potencial enorme que está pronto para qualquer batalha no grime, e fora dele.

 



[Slowthai]

“Fugindo” finalmente de Londres, o ReB encontra talento descentralizado: slowthai vem de Northampton e cria performances audiovisuais cheias de carisma e imaginação, apontando novos caminhos ao grime. Já lhe dedicámos um perfil mais extenso em Britain’s Next Big Thing, escrito por Gonçalo Oliveira: “slowthai tem um jeito curioso de abordar temáticas de rua, recorrendo a jogos de palavras bastante nerdys. É daí que vem grande parte da sua frescura musical, ele que também produz a maioria dos temas que soma nestes dois anos de trajecto”. A sua identidade vincada continua a somar-se em consecutivos singles gingões como “Ladies”, de refrão fragilmente cantado, “This one’s for the ladies/’Cus they have our babies/And they drive us crazy/But they made us men”, ou “Polaroid”, em que resume parte da sua vida em momentos “kodak” perturbados.

 



[Menções Honrosas]

Se quiserem aprofundar o conhecimento sobre rap britânico, também aconselhamos estes nomes: Asco, AJ Tracey, Blay Vision, Bugzy Malone, Capo Lee, Col3trane, Dave, Gaika, Jay Prince, Jelani Blackman, Jeshi, Kojey Radical, Kojo Funds, MoStacks, Nafe Smallz, Novelist, Ramz, Rocks FOE, SL, Stefflon Don, Trim, Yxng Bane, Lady Leshurr, Mist e Jaykae.

 


ReB Team

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