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Fotografia: Lais Pereira
Publicado a: 21/04/2026

Ficar ali para sempre, no presente.

Tortoise no Theatro Circo: um sistema que distorce o espaço e o tempo

Fotografia: Lais Pereira
Publicado a: 21/04/2026

Domingo passado, 19 de Abril, em Braga, os Tortoise regressaram a Portugal para afirmar que não são uma banda-museu, mas um sistema que distorce o espaço e o tempo. O que ouvimos não é o tempo a passar, mas o próprio tempo a formar-se. Um buraco negro ao qual nada nem ninguém consegue escapar. O Theatro Circo recebeu os norte americanos com uma casa cheia, até ao limite, num dos momentos que ficará gravado na história que celebra os seus 111 anos.  

Quase dez minutos depois da hora marcada, tempo necessário para acomodar toda aquela gente, o pano subiu com os primeiros acordes de “Night Gang”. É esta faixa que fecha o último disco, Touch, mas que parece ter sido criada para abrir espetáculos, começar filmes ou iniciar odisseias. As duas baterias em palco, sempre entre a simbiose e o caos, continuam como o eixo em torno do qual circulam John Herndon, Dan Bitney e John McEntire. Pelo meio, estações-satélite como o vibrafone, o glockenspiel, o sintetizador ou a percussão eletrónica exerciam sobre eles uma força gravitacional constante, como se assistíssemos ao movimento do sistema solar. A rotação dos músicos parecia definir a noite e o dia — e a liberdade, como uma lei fundamental do universo.

Entrar no horizonte de eventos dos Tortoise é, e recuperando Stephen Hawking, “como atravessar as cataratas do Niágara numa canoa”: a partir de certo ponto, já não há regresso. Uma entropia que parecia parar relógios ou, pelo menos, transformar o tempo pessoal, individual, num tempo mais amplo, universal e coletivo. Douglas McCombs, no baixo, servia-se da simplicidade como sofisticação suprema. “Vexations”, por exemplo, ou “Monica”, recordavam-nos o princípio da incerteza: a impossibilidade de fixar, em simultâneo, posição e velocidade. O virtuosismo de cada um, diluído no movimento orgânico, conjuntural, criava uma certa tensão com a sonoridade rústica, rude, por vezes suja. 

“I Set My Face to the Hillside” do aclamado TNT é aquela quase-balada, aquela quase-mãe-fértil das bandas que lhes seguiram; e que revela os universos que estes músicos de Chicago abriram ou mostraram ser possíveis visitar. Uma quase-síntese de um léxico onde dub, jazz e minimalismo coexistem sem hierarquia, agregando ocidente e oriente num só globo. É justo falar da música infinita aqui. A ideia de princípio, meio e fim é a curvatura que se dissolve numa espécie de matéria negra que tudo envolve e agarra. O público era, constantemente, arrastado para a convicção de fim, de aplausos, que não se concretizava. Outras vezes, o fim aparecia subitamente sem aviso ou antecipação, deixando as mãos com dúvidas e as palmas hesitantes. Assistíamos assim à deformação da nossa perceção do que vem antes ou depois, do que começa ou acaba. 

É preciso notar que todos os temas são reinterpretados, nunca reproduzidos, que se formam a partir de uma intenção inicial, reconhecível nas melodias e no ritmo. Os universos que concretizam — mas sobretudo os que sugerem — são a força que concentram a atenção em texturas e ambientes desmaterializados, etéreos quase sempre. “Ten-Day Interval” — também do álbum TNT — serviu como o momento de retorno, após o encore, a um estado primordial da consciência. A coordenação milimétrica do glockenspiel com o vibrafone, a sonoridade cristalina, metálica, agia sobre os cérebros fazendo-os vibrar numa frequência eminentemente catártica. O tempo presente, como o único que existe, é uma mensagem antiga, por vezes oculta. Ou talvez esquecida demasiadas vezes. É sobre esse tempo, não reconhecido pelo coração, e que se perde para sempre, que agrilhoamos a consciência ao passado. São precisamente essas as correntes que se quebram com a música dos Tortoise, quando nos recordam que o espaço e o tempo não só afetam como são afetados por tudo o que acontece no universo. 

O futuro, ou o presente por vir, esteve sempre perante nós, num concerto que não termina quando acaba, mas que continua a reorganizar o tempo dentro de quem o ouviu. Como uma máquina que distorce a linha do espaço-tempo, como uma massa sonora que suga e absorve tudo em volta, os Tortoise revitalizam-nos a crença num país que, atualmente, desregula e desequilibra o balanço do mundo. Ouvi-los é aceitar que o cosmos nos é, ainda, uma geometria desconhecida, embora familiar. A ausência de voz — ou de um frontman — em contraponto com a ideia renascentista do homem ao centro, rejeita o solo, omite o sujeito — descentralizado e disperso — enquanto o grupo se afirma como um corpo de mil faces transbordantes. 

Nesta tour europeia, sem Jeff Parker — atualmente a preparar a digressão com Flea —, os Tortoise apresentaram-se com Jim Elkington, que ocupou o lugar sem romper a arquitetura. Estes dois concertos em Portugal (tocaram na Culturgest no dia seguinte) surgem na reta final de um périplo que cruzou praticamente todo o continente em dias consecutivos, como um cometa. É uma apresentação de Touch não como rotura, mas como uma nova camada, mais visível, sobre os álbuns clássicos: TNT, It’s All Around You ou Standards. Uma hora e meia depois, no final dos 14 temas, todo o público se levantou para o aplauso longo e efusivo. A sensação que fica é que poderíamos ficar ali para sempre, no presente.


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