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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 16/04/2026

Uma sala centenária preocupada em semear o futuro.

Luís Fernandes no 111º aniversário do Theatro Circo: “Queremos chegar às pessoas que ainda não alcançámos”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 16/04/2026

O Theatro Circo assinala o seu 111º aniversário com justificada pompa e circunstância: foi desenhado um programa abrangente que se estende da ópera ao pós-rock, como o Rimas e Batidas já noticiou. Para entendermos um pouco melhor o papel desta sala tão nobre na fértil oferta cultural da cidade de Braga, conversámos com Luís Fernandes, o director artístico da empresa Faz Cultura que tutela o centenário teatro e também o gnration, um espaço mais recente e bastante diferente.

Nesta entrevista, abordam-se questões como o financiamento e as linhas estruturantes da identidade do Theatro Circo. E numa altura em que há cidades que cortam nos seus orçamentos da cultura, importantes equipamentos que perdem subsídios e opções políticas que interferem directamente nas estruturas que definem linhas programáticas para equipamentos fundamentais, é importante perceber como se posiciona o Theatro Circo e Braga neste complexo mapa cultural nacional.



Começa por me explicar, por favor, qual é exatamente o teu título, o cargo que ocupas, as funções que desempenhas neste momento.

Muito bem. Sou diretor artístico da Faz Cultura, a empresa municipal de Braga que gere dois equipamentos culturais: o Theatro Circo e o gnration. Faço a direção artística transversal da empresa e trabalho com uma equipa de programadores responsáveis por diferentes áreas programáticas. O Ilídio Marques, por exemplo, trabalha a música no gnration, enquanto eu programo a música no Theatro Circo e a componente expositiva da empresa municipal, excepto quando há programadores convidados. A Maria Inês Marques trabalha teatro e dança no Theatro Circo e também no gnration quando acontece lá. Temos, portanto, uma abordagem colegial e especializada à programação. Ainda assim, é mais fácil dizer que sou diretor artístico do Theatro Circo e do gnration do que explicar a estrutura da Faz Cultura, que muitas vezes não é imediatamente reconhecida.

A diversidade na programação de celebração do 111º aniversário do Theatro Circo que foi recentemente anunciada tem, supnho, uma componente estratégica?

Sim, completamente. Estes momentos de celebração são sempre ocasiões privilegiadas para dar a conhecer o que é o equipamento, traçar uma espécie de radiografia dos seus públicos e da sua identidade, mas também tentar chegar a mais públicos, uma missão que nunca está concluída. No caso do Theatro Circo, com 111 anos — e assinalando também os 20 anos da sua reabertura —, trata-se de um teatro de cidade, profundamente acarinhado pela população e com uma história muito significativa, sobretudo nas últimas duas décadas. É importante que um equipamento desta natureza reflicta uma grande diversidade programática, sem nunca descurar o nível qualitativo que lhe é exigido. Essa diversidade manifesta-se tanto entre áreas disciplinares como dentro da mesma área. No caso da música, por exemplo, os espectáculos programados são muito distintos entre si e dirigem-se a públicos diferentes. Isso resulta também de um trabalho colectivo, com equipas especializadas, porque ninguém domina todas as áreas. O programa reflecte essa pluralidade: artistas emergentes, artistas consagrados e propostas com autonomia estética.

Tendo em conta a tua posição na estrutura, com responsabilidades sobre a programação e perante instâncias superiores, até que ponto a pressão por indicadores como público, taxa de ocupação ou visibilidade influencia as tuas escolhas programáticas?

Há diferentes formas de quantificar uma ideia de sucesso, normalmente associadas aos números do público e à receita gerada, que tendem a caminhar lado a lado. Apesar de, na área da cultura, haver alguma tolerância para o que não é tangível — aquilo que se pode designar como valor vivencial, em contraste com o valor de mercado —, não podemos ignorar esses indicadores. Trabalhamos com experiências singulares, que têm significados diferentes para cada pessoa, e isso também tem valor. Mas se uma programação, por mais interessante que fosse, tivesse uma adesão muito reduzida e gerasse pouca receita face ao previsto, isso seria problemático. Existe, portanto, uma responsabilidade de adequar a programação à realidade. No caso do Theatro Circo, sendo uma estrutura de cidade e uma sala de grande dimensão, é importante conjugar momentos de forte adesão com propostas menos rentáveis. Muitas áreas, como o teatro e a dança, raramente são financeiramente sustentáveis, e mesmo no caso da música há segmentos, como o jazz, que dificilmente geram retorno financeiro, apesar da qualidade dos artistas. Cabe-nos equilibrar essa dimensão com a construção de públicos e a missão de proporcionar uma oferta cultural relevante, que não pode ser avaliada apenas por critérios quantitativos.

Os responsáveis políticos reconhecem esse valor não quantificável da cultura?

Pela minha experiência, tenho tido a felicidade de lidar com interlocutores políticos que demonstram sensibilidade e compreensão do papel de uma estrutura como a nossa, que é de serviço público. Nem sempre isso acontece em todo o país, há muitos casos de pressões para alterar perfis programáticos com base em critérios puramente quantitativos, ou de falta de valorização da cultura. Em Braga, pelo contrário, tem havido espaço para trabalhar. Esse espaço é fundamental: independentemente de gostos pessoais, é importante permitir que o trabalho se desenvolva. À medida que se constrói um historial consistente, reconhecido pela imprensa e pelas instituições, torna-se também mais difícil desvalorizar ou interferir negativamente. Quanto mais sólido é esse percurso, mais difícil é “puxar o tapete”.

Há conhecimento sobre os públicos do Theatro Circo? Têm feito estudos?

Não existe, em Portugal, uma construção sólida e validada de conhecimento sobre públicos culturais. Não dispomos de estudos com impacto e abrangência suficientes para fazer essa análise de forma rigorosa. Ainda assim, pela observação, percebe-se que a maioria dos espectadores tem algum tipo de afinidade com a cultura, seja por gosto, profissão ou proximidade. Há muitas pessoas que nunca entram num teatro, porque não se sentem parte desse universo, porque não têm interesse ou porque acham que não têm ferramentas para compreender o que ali acontece. Esse afastamento é acumulado ao longo do tempo e está ligado a contextos socioeconómicos e educativos. Apesar dos esforços de mediação e de abertura à cidade, há sempre uma sensação de que se trabalha para um grupo relativamente delimitado. Trazer mais pessoas não pode ser apenas responsabilidade das instituições culturais; é um processo sistémico, que envolve educação, escola e hábitos culturais. Em Portugal, essa relação com as práticas culturais não é tão enraizada como noutros países, e isso condiciona o trabalho. Mesmo tendo bons públicos, aquilo a que não chegamos continua a ser muito maior.

As mudanças demográficas da cidade influenciam a programação? Há atenção dada a comunidades migrantes quando se programa?

Sim. O perfil da população de Braga tem-se alterado, nomeadamente com o crescimento de comunidades imigrantes, como a brasileira, que tem uma presença muito significativa. São comunidades que, pela nossa experiência, muitas vezes têm uma relação muito forte com a cultura e com práticas de participação. Muitos dos espectadores frequentes que identifico são brasileiros. Há outras comunidades mais fechadas, a que não conseguimos chegar com a mesma facilidade. No pensamento programático, essas dinâmicas estão sempre presentes, sobretudo no caso de propostas brasileiras, porque queremos também dialogar com essa população. Isso não significa que essas pessoas só se relacionem com artistas da sua origem, mas é um factor que consideramos.

Como é que se desenha hoje a arquitetura financeira que sustenta o Theatro Circo?

Existe, antes de mais, um trabalho de uma equipa muito alargada que, ao longo dos anos, tem vindo a alicerçar tudo aquilo que fazemos. E depois há uma relação directa entre programação, comunicação e financiamento: quanto mais consistente e bem comunicada for a programação, maior é a probabilidade de atrair parceiros e gerar interesse. As coisas acabam por funcionar de forma interligada. Do ponto de vista estrutural, o Theatro Circo é uma estrutura municipal, gerida por uma empresa municipal, mas financiada através de um contrato-programa com o município. Ou seja, o município aloca anualmente um valor à empresa, sendo o seu único acionista, e isso constitui a principal base de financiamento. Para além disso, há também remuneração por serviços prestados ao município, como a cedência da sala para atividades municipais. Depois, existe financiamento a nível central, através da DGArtes e da Rede Portuguesa de Teatros e Cineteatros, que apoiam tanto o Theatro Circo como o gnration. No caso do gnration, acrescenta-se ainda a Rede Portuguesa de Arte Contemporânea, cujo financiamento é por projecto — neste momento temos dois projectos apoiados nesse âmbito. Há ainda o nível europeu, que é uma dimensão onde temos vindo a crescer e que é particularmente relevante para o gnration, dada a sua vocação para relações internacionais e trabalho em rede com parceiros europeus. Trata-se de uma fonte de financiamento importante, mas também de uma forma de estruturar o trabalho de outra maneira.

Depois há ainda o sector privado, que em Portugal continua pouco desenvolvido, mas onde Braga tem alguns exemplos relevantes. Existem empresas com uma relação consistente com a cultura, como a DST, que financia programas no Theatro Circo, nomeadamente na área da música e da mediação, e que está inclusivamente a investir na criação de um museu de arte contemporânea. Ainda assim, são casos que não abundam, e seria importante que houvesse mais investimento deste tipo, eventualmente incentivado por enquadramentos legais mais favoráveis. Por fim, há outras fontes mais pontuais, como o apoio de embaixadas a artistas dos seus países, que também podem ser mobilizadas. No fundo, parte do nosso trabalho passa por identificar oportunidades e combinar diferentes fontes de financiamento. Porque, se dependêssemos apenas da bilheteira, estaríamos limitados a programar apenas aquilo que garante retorno imediato, o que comprometeria a nossa função de apresentar também propostas novas e menos evidentes.

Estar inserido num território com tanta oferta cultural próxima — em Barcelos, Guimarães, etc. — complexifica o trabalho de programação?

Por um lado, sim, porque implica encontrar uma identidade própria, uma voz programática diferenciada dos outros agentes da região. Mas, por outro lado, há um aspecto muito positivo: estamos inseridos num território com muitos agentes a trabalhar para captar públicos e fomentar o consumo cultural. Isso faz com que os públicos circulem. Existe uma mobilidade significativa entre cidades — Braga, Guimarães, Barcelos, Porto, e até a Galiza — com pessoas que se deslocam de forma bastante activa para assistir a espectáculos. No fundo, trabalhamos para uma área urbana alargada, onde esses fluxos são constantes. O Theatro Circo e o gnration ocupam, nesse contexto, lugares muito próprios. Não são melhores nem piores do que outras estruturas, mas são diferentes, e essa diferença contribui para a riqueza do território. É um ecossistema muito vivo precisamente por essa diversidade e pela circulação de públicos.

As relações internacionais fazem parte de uma estratégia consciente?

Depende muito da visão de cada programador ou director artístico. No meu caso, isso vem desde o início do meu percurso, que esteve muito ligado a contextos internacionais, nomeadamente através de projectos mais especializados, que exigiam redes para além do contexto nacional. Acredito que é fundamental trabalhar não apenas a nível local ou nacional, mas também internacional. Isso permite encontrar estruturas com afinidades, estabelecer parcerias e viabilizar projectos que, de outra forma, seriam difíceis de concretizar. Além disso, existe uma dimensão de legitimação: quando um projecto ganha visibilidade internacional, tende a ser mais reconhecido no contexto nacional.

O Theatro Circo, pela sua própria história, sempre teve uma forte dimensão internacional, sobretudo na música. É um espaço por onde passaram artistas de grande relevância que eu fui vendo ao longo dos anos, nomes como David Sylvian, Terry Riley ou Philip Glass. Isso marca profundamente o posicionamento do equipamento. É uma sala que, pela sua natureza, impõe um certo nível de exigência. Essa exigência não significa trabalhar exclusivamente com artistas estrangeiros, mas implica também garantir que eles passam por cá e que o público tem acesso a essas propostas. Para além disso, trabalhar a nível internacional abre portas a financiamento europeu e permite contacto com outras metodologias, processos e boas práticas. Sobretudo, obriga-nos a sair da nossa realidade. E isso é essencial: um programador que permanece fechado no seu contexto acaba inevitavelmente por limitar o seu trabalho. O contacto com outras realidades, outros artistas e outras formas de fazer é aquilo que realmente informa e transforma a prática da programação.

Como imaginas o futuro do Theatro Circo?

Respeito profundamente o lugar histórico do Theatro Circo, mas penso sobretudo no futuro. Não acredito em fórmulas pré-estabelecidas. É fundamental manter a capacidade de ouvir, ler o contexto e ajustar a forma como materializamos os nossos princípios. Programar não é uma questão de gosto pessoal, mas de encontrar princípios que respondam à missão de serviço público. Se programasse apenas aquilo de que gosto, não conseguiria desempenhar esta função. O que gostaria para o futuro é que conseguíssemos, progressivamente, chegar às pessoas que ainda não alcançámos, sem comprometer os princípios fundamentais: uma programação exigente, com elevada qualidade artística, que respeite a identidade e a “nobreza” da sala, no sentido de gerar valor cultural e duradouro.


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