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The Alchemist: o alquimista dos beats que toca esta noite em Lisboa

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

Daniel Alan Maman é o nome da praça em Portugal — pelo menos neste sábado, 23 de Setembro, quando aquele que é conhecido por The Alchemist sobe o degrau que liga o camarim ao palco do Musicbox, na zona do Cais do Sodré, em Lisboa, pronto para actuar para uma casa que se espera cheia. Porque cheios sempre estiveram os nossos ouvidos da música deste produtor, DJ e rapper. O americano até pode nem ser um dos nomes mais badalados (num sentido de star system pop) da indústria global do hip hop, mas o seu contributo desde os anos 90 em dezenas de álbuns alheios e nos seus próprios projectos, além da identidade sonora que deposita em cada instrumental, fazem com que seja um dos mais ouvidos de sempre para quem segue com afinco a cultura nascida no Bronx dos anos 70.

Apesar de ser (e bem) mais reconhecido como autor de instrumentais, The Alchemist começou como rapper e com o nome artístico Mudfoot em 1991. Tinha apenas 14 anos e era metade da dupla The Whooliganz, em conjunto com Scott Caan (o actor hoje em dia talvez mais conhecido por interpretar Danno em Hawai Força Especial), que assinava como Mad Skillz. Foram uma espécie de Kris Kross da Costa Oeste sem grande sucesso e protégés dos Cypress Hill. Nascido em Beverly Hills, na Califórnia, Maman cresceu nos subúrbios confortáveis da classe média americana, o que não representou qualquer impedimento para estar ligado ao hip hop. Os N.W.A. já tinham quebrado o muro daquele lado do país.

Teve a oportunidade de partilhar essa caminhada inicial com gente como Evidence, que viria a formar os Dilated Peoples, ou Shifty Shellshock, que se tornaria o vocalista da banda de rap rock Crazy Town, eternamente famosos pelo tema “Butterfly”. Numa festa em Los Angeles onde The Alchemist rimava com Scott Caan, os dois adolescentes chamaram a atenção de alguém que estava pela zona. B-Real, dos Cypress Hill, tratou de os afiliar de imediato ao alargado colectivo Soul Assassins que também incluía na altura House of Pain e Funkdoobiest (e hoje é ainda bem mais abrangente). The Alchemist vem da escola da velha guarda funky, suja e pesada dos anos 90.

“Ya, foram os Cypress Hill que me lançaram. Eu era apenas um jovem rapper a tentar fazer a sua melhor versão de Grand Puba [dos Brand Nubian]. Era divertido”, recordou à Jacker Magazine.

 


https://youtu.be/CEmIN2-gK9Y


O primeiro e único single dos The Whooliganz — e aquele que fica para a história, nem que seja para recordar o rosto e voz de miúdo de The Alchemist a rimar ou para os fãs de Hawaii Força Especial verem o agente Danno como nunca antes — intitulava-se “Put Your Handz Up” e tinha um beat de DJ Lethal. Não correu bem: não teve o impacto esperado e a editora Tommy Boy Records decidiu cancelar os planos para o álbum que já tinha sido gravado (apesar de algumas faixas poderem agora ser encontradas dispersas pela Internet).

Scott Caan virou-se para o cinema, The Alchemist agarrou na mesa de mistura e no sampler de DJ Muggs, dos Cypress Hill. Apesar de ser da Costa Oeste, as suas referências eram de Nova Iorque: Pete Rock, DJ Premier, Lord Finesse, Large Professor, Diamond D, ou The Beanuts, entre outros. Colaborou com o grupo de B-Real e DJ Muggs nalgumas faixas e mais tarde começou a apoiar os Dilated Peoples de Evidence, que também arrancavam com a carreira, entre outros artistas.

“[DJ Muggs] era mesmo intimidante. Ele batia mesmo nas pessoas e eu via isso ao vivo. Eu não queria ser batido por ele. Por isso apenas fazia o meu papel. Era divertido, fazíamos muito dinheiro juntos e eu costumava dormir no sofá dele nos meus anos de secundário. Fazer beats funky de rap para os Cypress Hill e fumar erva. Era divertido”, contou The Alchemist à revista The FADER em 2012.

Um dos maiores marcos chegou em 1999, quando The Alchemist foi apresentado por DJ Muggs aos Mobb Deep de Prodigy e Havoc (que também actua na mesma sala lisboeta em breve). Ficou creditado em dois temas de Murda Muzik, o quarto álbum da dupla nova-iorquina: “Thug Muzik” e “The Realest”.

 


https://youtu.be/ijxn8eKhlds


Seguiram-se colaborações com Pharoahe Monch, Royce Da 5’9”, Capone-N-Noreaga, Everlast, Cormega, Big Pun, Guru, Jadakiss, Fat Joe, Ghostface Killah, Nas, Snoop Dogg, Big Daddy Kane, PMD, Nelly, Diamond D, Planet Asia ou Ras Kass, antes de chegar a Lil Wayne, Termanology, Fashawn, Raekwon, Curren$y, Kool G Rap, Rick Ross, Roc Marciano, Sean Price, Schoolboy Q e Domo Genesis, para quem produziu o álbum No Idols em 2012, Mac Miller, Ab-Soul, Your Old Droog, Smoke DZA, Danny Brown ou Joey Badass. O currículo de The Alchemist é mais do que impressionante. “A-A-A-A-A-Alchemist”, ouve-se em cada instrumental na discreta e distorcida voz de Prodigy, um dos seus maiores colaboradores. Fez ainda remisturas para os Linkin Park — da faixa “Frgt/10”, para o álbum de remixes Reanimation —, ou de “Wanksta”, nos anos dourados de 50 Cent.

“Se estou a fazer um projecto completo em conjunto com alguém isso obviamente significa que sou um fã do seu rap, e que sinto que vai fazer justiça aos beats. Este é o caso com todos os artistas com quem já fiz um trabalho completo”, referiu na mesma entrevista à Jacker Magazine.

Uma das maiores ligações na música aconteceu com Eminem, de quem é actualmente DJ oficial desde que DJ Green Lanthern abandonou a Shady Records em 2005. No ano seguinte, Marshall Mathers lançou um disco colaborativo da sua label, Eminem Presents: The Re-Up, onde The Alchemist produziu algumas das faixas e compilou o trabalho num formato de mixtape. The Alchemist também acompanha Action Bronson como DJ oficial. Produziu o disco Rare Chandeliers em 2012 para o rapper nova-iorquino e desde então tem-no acompanhado em digressão e em várias faixas de trabalhos de outros MCs.

 



The Alchemist tem, além disso, uma notável carreira a solo, com uma série de mixtapes, EPs, projectos colaborativos e álbuns de instrumentais. A estreia em nome próprio aconteceu com beat tapes no início dos anos 2000, mas o primeiro álbum com convidados de peso chegou em 2004, intitulado 1st Infantry, com participações de gente como Mobb Deep, The Game, M.O.P., Devin the Dude, Lloyd Banks, Dilated Peoples, Nas ou B-Real, entre vários outros. Seguiram-se Chemical Warfare, em 2009, e Russian Roulette, em 2012.

Além de ter produzido inúmeros discos em conjunto (incluindo para Prodigy e Havoc, Fashawn ou Curren$y), The Alchemist tem ainda na discografia vários trabalhos sob o nome Gangrene, parceria que tem com o rapper Oh No, com que se estrearam em 2010 com o EP Sawblade. Em 2017, o produtor conta com participações com Prodigy — no seu ano derradeiro —, Your Old Droog, Evidence, e, de forma mais notória, Kendrick Lamar — um dos beats de DAMN., da faixa “FEAR”, foi cozinhado pelo alquimista de Beverly Hills. Para o futuro, tinha havido algum burburinho sobre um possível álbum com os companheiros Mobb Deep, que não deverá ter sido feito, e com Roc Marciano.

Além disso, foi revelado há poucas semanas que vem aí WestsideDoom, um disco que une Westside Gunn a MF Doom, produzido por The Alchemist e Daringer. Quem sabe se não iremos ouvir uma destas pérolas por editar esta noite em Lisboa. The Alchemist actua por volta da 1h30, num serão que inclui ainda actuações de DJ Slimcutz e DJ Spot, que tem o SPOTCAST no Rimas e Batidas. Os bilhetes podem ser adquiridos na Bilheteira Online e têm o custo de 14€ com direito a uma cerveja. Até logo!

 


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