Stasera // Trainhouse

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

A Interzona13 de Tiago é um pequeno selo fascinante que, como as suas outras investidas editoriais (lembram-se da Ruby Red?), parece existir numa dimensão própria, paralela, alheia a movimentações de fundo, imune a qualquer tentação de sintonia ou de “encaixe” nalgum esquema maior. Nesse sentido, estes espaços editoriais são sempre livres, na mais nobre acepção da ideia de liberdade.

Vem isto a propósito do segundo maxi de Stasera para a Interzona13, Trainhouse, que sucede a Jubilation, lançado há um par de anos.

Este projecto de Afonso Simões encontra-o em modo solitário, o que é um dado relevante para alguém que tem um riquíssimo currículo ligado a entidades colectivas e colaborativas como é o caso de Rajada (projecto de free jazz, com trabalho lançado em 2018), Fish & Sheep (duo com Jorge Martins que assinou uma das entradas no catálogo da Ruby Red, um exercício de noise) ou, talvez mais notoriamente, Gala Drop (célula exploratória de zona não identificada onde o dub, o kraut, a electrónica e um qualquer sentido tropical se mesclam em psicadélicas variantes).

Aqui, Simões explora a repetição, partindo de uma matriz disco que não enjeita o carácter canónico do género (cordas, baixos pulsantes, guitarras staccato…), mas que dispõe elementos em micro-loops tornando os arranjos muito mais abstractos, embora totalmente eficazes para a pista de dança. Trata-se, ainda, de música perfeitamente funcional, capaz de agitar o(s) corpo(s) se debitada através de um bom sistema de som colocado numa sala escura iluminada apenas pelo foco que incide na bola de espelhos, mas há também uma intenção desconstrutiva na forma como Afonso dispõe os loops, quase como se procurasse analisar à lupa os diferentes elementos que formam um qualquer clássico disco como os que aqui se samplam. E da forma como a repetição se organiza e se permite evoluir parece emergir um outro sentido, talvez espiritual, se quiserem (é assim em “Seasons”, no lado B), ou porventura mais devedor de uma busca do êxtase, do abandono total (como acontece com “Trainhouse”, no lado A).

O tema principal é servido por uma voz, brasileira, um discurso de alguém que diz querer “pegar o trem” sobre uma intrépida conjugação de percussões, guitarra, saxofone, imparável como um comboio (lá está), que conduz quem se deixa levar na pista até um lugar superior qualquer. Nesse sentido, esta música que busca o transe talvez tenha mais em comum com o psicadelismo tribal de uns Master Musicians of Jajouka do que se poderia pensar. E talvez seja essa a marca comum aos diferentes projectos a que Afonso Simões se vai entregando, um qualquer carácter ritualístico que procura sempre uma outra esfera, uma outra dimensão.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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