Skull Snaps, Atmosfear e muita África no novo lote de reedições da Mr. Bongo

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

No passado mês de Junho deu-se por aqui conta de um espantoso lote de relançamentos com carimbo da londrina Mr Bongo que se alargava dos Sylvers a Tim Maia. A agenda de recolocação de pérolas em vinil não tem abrandado e a loja/editora que sempre mostrou possuir uma feliz sintonia nos seus escaparates entre a modernidade sampladélica do hip hop ou house com o passado disco e bossa, funk e afro está de volta ao serviço com novo lote que inclui preciosidades incontornáveis em qualquer discoteca (referimo-nos às vossas colecções de discos, mas a expressão também se pode adequar aos clubes que eventualmente frequentem…) que se preze. Casos notórios serão os de Skull Snaps, Atmosfear ou Gyedu-Blay Ambolley de que a seguir damos conta…

Abram lá os cordões à bolsa e coloquem os vossos olhos na loja online da Mr Bongo…!

 



[Skull Snaps] s/t (EUA, 1972)

Quando a Internet, a meio dos anos 90, começou a permitir que o conhecimento quase secreto dos diggers — como o mítico Soulman — começasse a ser partilhado em fóruns semi-obscuros, o álbum do mítico “It’s a New Day” foi dos primeiros a ser amplamente cobiçado. Naturalmente, diga-se: aquele incrível drum break no início do tema serviu rimas dos Pharcyde, Mobb Deep, Gang Starr, Camp Lo ou Black Moon entre tantos outros pilares da era dourada do sampling. Por volta de meados da década passada, o Popsike regista vendas de cópias originais na GSF em torno dos 200 dólares e o valor só parece ter-se acentuado com a cotação a ultrapassar os 500 dólares em anos mais recentes. Por isso mesmo, esta nova reedição da Mr Bongo é mais do que bem vinda, até porque este é de facto um daqueles breaks que devem constar em qualquer colecção de DJ, produtores ou simplesmente apaixonados por música cujos gostos toquem nos universos do funk, disco, soul e hip hop.

Estes Skull Snaps gravaram apenas um álbum, mas os seus membros vinham dos míticos Diplomats, veteranos mais do que experimentados nas artes profundas do groove. E se acham que “It’s a New Day” é um grande break, não deixem de escutar o que se esconde a meio de “I Turn My Back On Love”, tema que foi usado pelos míticos Main Source (em “Just Hangin’ Out”) e por DJ Shadow (“Entropy”). Vocês precisam MESMO deste disco…

 




[Jackson Sisters] s/t (EUA, 1976)

Produzido pelo grande Johnny Bristol, este álbum das Jackson Sisters é um molde da história típica de incontáveis bandas americanas que nunca chegaram a lado nenhum… As moças de Compton, Los Angeles, registaram um hit menor — “I Believe in Miracles” — por volta de 1973, mas nunca o conseguiram replicar ou dilatar e o único álbum que lançaram em 1976 estaria destinado ao esquecimento não fosse a mania de certas pessoas desenterrarem pérolas do passado. Os DJs de rare groove britânicos foram os primeiros a perceber o impacto que o tema registava nas pistas, ainda nos anos 80, e depois os Public Enemy samplaram o incrível break com que a música arranca e o resto, poderia dizer-se, é história. Este disco trocou muitas vezes de mãos por valores em torno dos mil dólares, por isso este relançamento da Mr Bongo — o primeiro de cariz oficial — é mais do que oportuno: é, na verdade, um verdadeiro serviço público!

 




[Atmosfear] En Trance (EUA, 1981)

Bem, desta vez não se trata de um disco especialmente valorizado no mercado de coleccionismo, o que não significa que não seja igualmente relevante e merecedor de ser escutado. Este álbum de 1981 sucedeu ao mítico single “Dancing In Outer Space” que mereceu bastas reedições e remisturas revelando-se um clássico nas pistas house nos anos 90. O álbum que a Mr Bongo agora re-oferece aos escaparates é o trabalho sucessor, mais um exemplo de disco sound carregado de classe que ajuda a entender por que razão eram os Atmosfear nomes recorrentes nas sessões do Loft ou Paradise Garage, pólos abertos a estas preciosidades que já na altura eram produzidas no Reino Unido. A Mr Bongo revela igualmente que há mais reedições dos Atmosfear a caminho incluindo, obviamente, “Dancing in Outer Space” (que surge já como faixa bónus na versão CD deste relançamento).

 




[Gyedu-Blay Ambolley] Simigwa (Gana, 1975)

As cópias mais baratas deste álbum disponíveis no Discogs cifram-se acima dos 300 euros e muito provavelmente terão o aspecto de um disco que foi usado como base para cortar lenha (na verdade, a cópia mais barata nem sequer tem a icónica capa original…). Alvo de uma edição bootleg há alguns anos, é por isso mesmo uma excelente notícia esta reedição legítima por parte da Mr Bongo. Co-escrito e produzido por Ebo Taylor, este disco de Gyedu-Blay Ambolley é, há muito tempo, um holy grail para quem persegue os mais fundos grooves de África: afrobeat, funk, highlife e aquele irresistível sabor local ajudam a compor um cocktail único que ainda hoje causa estragos nas melhores pistas de dança. Ambolley era já um veterano em 1975, tendo integrado os igualmente míticos Uhuru Dance Band (que chegaram a apresentar-se na vizinha Nigéria no Shrine de Fela Kuti, feito assinalável para qualquer colectivo) e por isso mesmo acumulado justa experiência que fez deste álbum uma autêntica bomba que recusa — e ainda bem! — ficar encerrado na memória e no passado.

 




[Super Elcados] Togetherness Is Always a Good Venture – Tambourine Party Vol. 2 (Nigéria, 1976)

Juntamente com relançamentos de Marijata, Shina Williams ou Ebo Taylor, este trabalho de Super Elcados (e o de Tunde Mabadu sobre o qual poderão ler mais abaixo) tem ajudado neste último ano a reaproximar o catálogo de reedições da Mr Bongo da vibração de África.

Este é o primeiro de três trabalhos que os Elcados lançaram em meados dos anos 70 e cujas cópias originais trocam de mãos, compreensivelmente, por valores bem acima das possibilidades dos mais comuns mortais. Se tudo correr bem, este será também o primeiro de algumas reedições que a etiqueta londrina dedicará a este incrível colectivo que na Lagos dos anos 70 apostou numa fusão de ritmos locais com os mais universais pulsares da soul e do funk que na América funcionavam como uma libertária banda sonora de uma geração que, justamente, também procurava inspiração em África. Ou seja, o ciclo fechava-se com este glorioso som que os Super Elcados praticavam. Para ouvir — e dançar — com máxima atenção.

 




[Tunde Mabadu] Viva Disco (Nigeria, 1980)

Na Nigéria da entrada nos anos 80, o disco sound foi uma grande febre. E este clássico Viva Disco de Tunde Mabadu uma prova clara disso mesmo, com edição original na Afrodisia que costuma ser revendido acima dos 500 euros em condições normais. Esta pérola foi oficialmente licenciada pela Mr Bongo ao artista (que lançou dois trabalhos de disco-boogie nos anos 80 – talvez o segundo também reveja a luz do dia!…). É importante perceber-se que estas reedições não são meros bootlegs oportunistas, mas resultado de um sério trabalho de gestão respeitosa da memória cultural de um país. Música para dançar carregada de luz e com o “sotaque” distinto dos grooves produzidos no país de Fela.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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