Mr. Bongo: Brasil, África, Soul e México mágico no calendário editorial de 2018

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

A Mr. Bongo abriu em 1989 na famosa Berwick Street, em Londres, antes de se mudar para a não menos famosa Poland Street, também no Soho, bairro que, entre outras coisas, é também um verdadeiro hub de grandes lojas de discos onde, por exemplo, também se encontra a Phonica ou a Sounds of the Universe, pertença da Soul Jazz Records.

Há muitas semelhanças entre o espírito da Mr. Bongo e da Soul Jazz, embora a raiz de ambas as operações seja algo diferente: dividem-se as duas pela distribuição, retalho e edição, têm igualmente uma produtora de cinema associada e em ambos os catálogos há muito espaço para as memórias do Brasil e de África. Mas se a Soul Jazz nasceu no seio da cultura rare groove e acid jazz de finais dos anos 80 e inícios dos anos 90, a Mr. Bongo tinha uma raiz, enquanto loja, mais sintonizada com o hip hop, por um lado, e até com o house, som que mereceu o seu próprio selo, a Disorient, que nasceu em 1997.

Quando começaram a editar discos, em 1992, as cabeças pensantes da Mr. Bongo investiram logo pelo lado dos rare grooves latinos, com discos de Tito Puente ou dos brasileiros Os Ipanemas e Marcos Valle, mas edições dedicadas a Labi Siffre ou Masters At Work também deixavam claro que tinham perspectivas mais amplas, capazes de irem ao funk ou aos sons então contemporâneos de pista de dança.

A Mr. Bongo reclamou a sua filiação hip hop quando em 2006 dedicou entradas em catálogo aos míticos Incredible Bongo Band, o projecto de Michael Viner responsável por “Apache”, um dos maiores hinos da nação hip hop, um verdadeiro “call to arms” para todos os b-boys do universo.

Em 2018, a Mr. Bongo tem estado particularmente activa, com uma agenda intensa de edições que se estendem do Brasil à América soul e funk e das Caraíbas a África incluindo ainda um México experimental e electrónico. É esse calendário editorial destes primeiros seis meses que agora aqui destacamos.

 



[Célia] Célia (Brasil, 1972)

A edição chega, infelizmente, pouco tempo depois do desaparecimento de Célia Regina Cruz. No arranque dos anos 70, Célia gravou uma série de álbuns homónimos para a Continental que são hoje cobiçadas peças de colecção. O álbum que a Mr. Bongo agora recuperou, de 1972, foi o segundo na já referida série e por causa da presença do grande Arthur Verocai, responsável pelos arranjos, é uma das mais preciosas peças da sua discografia trocando de mãos normalmente por preços à volta dos 400 dólares na sua versão original. Com reportório de Erasmo e Roberto Carlos, Marcos Valle, Vinicius e Jobim e, claro, com uma enorme versão do fabuloso “Na Boca do Sol” de Verocai, este é um disco incrível, com baterias bem pronunciadas e um delicioso balanço funk. Fundamental, pois claro.

 




[Shina Williams & His African Percussionists] African Dances (Nigéria, 1979)

Incrível disco gravado em Lagos, na Nigéria, em finais dos anos 70 por um verdadeiro cast de estrelas incluindo músicos como Biddy Wright, Fred Fisher, Saliu Alabi, Prince Bola, Tutu Shoronmu ou Tunde Williams, “feras” habituadas a tocar nos melhores colectivos da cidade, incluindo os grupos de Fela Kuti, os SJOB Movement, Sonny Okoson ou King Bucknor, entre outros. Deliciosa e irresistível mistura de afrobeat e disco com recurso a muita instrumentação electrónica soa fresco até aos dias de hoje. Esta é a primeira reedição oficial deste disco e uma forma mais do que inteligente de poupar a carteira às cerca de 500 libras que possuir um original implica nos dias de hoje.

 




[Foster Sylvers] Foster Sylvers (EUA, 1973)

Uma vez mais, esta é uma das entradas no catálogo da Mr. Bongo que trai as raízes hip hop da marca: “Misdemeanor”, o clássico que mais se destaca neste álbum com material de 1973, já foi alvo de tratamento sampladélico por toda a gente, incluindo Madlib, Pete Rock, Rodney P, Big Daddy Kane e muitos outros. Como é óbvio, os grandes argumentos deste lançamento não se ficam apenas por essa pérola. Co créditos de produção de gigantes como Jerry Butler, Keg Johnson e Michael Viner, este é um daqueles pilares do som boom bap que parece existir numa cápsula e ser incapaz de envelhecer, tal a classe elevada dos seus grooves e a qualidade das interpretações do jovem Foster Sylvers, uma espécie de Michael Jackson para os Sylvers, colectivo de Los Angeles que também mereceu atenção recente da Mr. Bongo.

 




[The Sylvers]The Sylvers II(EUA, 1973)

Escrito por Leon Sylvers III e produzido porJerry Butler e Keg Johnson, este álbum é um insuperável clássico, um pequeno tesouro da idade dourada da soul, recheado de grandes canções servidas por arranjos brilhantes que ainda hoje merecem estudo por parte de todos os que querem entender as dinâmicas profundas do groove, a melhor forma de arrumar melodias, como gerir harmonias, tempos, cadências e crescendos, pausas e silêncios. está lá tudo, é como um manual de grande soul, mesmo quando a matéria prima pertence aos Beatles (é ouvir “Yesterday”…). E por isso mereceu, ao longo dos anos, atenção de gente grande como Madlib (fque extraiu daqui um sample para MF DOOM), Homeboy Sandman, 50 Cent, Ghostface Killah, Black Milk, Roc Marciano, David Banner ou 9th Wonder. Gente que sabe muito, claro.

 




[Pat Thomas Introduces Marijata] Pat Thomas Introduces Marijata (Gana, 1976)

Os Marijata, do Gana, eram um trio poderoso formado por Kofi ‘Electric’ Addison na bateria, Bob Fischlan no orgão e Nat Osmanu na guitarra. Pat Thomas foi, neste trabalho, o vocalista. Thomas era um artista experiente tendo trabalhado ao lado de colectivos como a Uhuru Dance Band ou o grupo de Ebo Taylor. O vigor que se sente nestas incríveis faixas carregadas de funk é o mesmo que justifica que, 50 anos após ter dado os primeiros passos, Thomas continue no activo, levando a sua marca musical a palcos de todo o mundo. Mas neste registo com 40 e poucos anos, o rigor clássico e a imaginação rítmica estão no seu ponto mais elevado tornando este título uma adição preciosa a qualquer discoteca.

 




[Tim Maia] Disco Club (Brasil, 1978)

Tim Maia: felizmente que nos últimos anos a sua discografia foi sendo recolocada no presente através de uma série de reedições oportunas e legítimas (ainda para chegar a esse patamar estão os dois volumes de Racional, mas lá chegaremos…). Disco Club é uma das suas melhores pérolas tardias, trabalho que, como o título indica, se aproxima do som disco da época e que para isso vê Maia a trabalhar longe da sua banda habitual, recorrendo a arranjos do fabuloso Lincoln Olivetti, que assegura também teclados e que dirige uma banda de notáveis das sessões do Rio incluindo Paulinha Braga na bateria, Jamil Joanes no baixo, Robson Jorge no clarinete, Hyldon De Souza na guitarra, Sidinho na percussão, os trombonistas Edmundo Maciel e Darcy Seixas e ainda Juarez Assis no sax tenor. Tudo isto e uma sucessão de clássicos, como “A Fim de Voltar”, “Acenda o Farol” ou “Sossego”, entre outros, fazem deste álbum um título fundamental em qualquer colecção mais focada na obra de Tim Maia ou do Rio mais “negro” e dançante.

 




[Ebo Taylor] Yen Ara (Gana, 2018)

Yen Ara não é uma reedição, mas antes um testemunho da pertinência presente de uma lenda viva que soma mais de seis décadas de entrega à música. Este verdadeiro gigante do Gana consegue neste álbum a proeza de equilibrar o melhor da tradição afrobeat e highlife, exibe as suas credenciais jazz, a sua raiz konkoma e ainda assim consegue mostrar que apesar da idade soube ouvir as novas direcções seguidas nas pistas de dança de Londrs ou Nova Iorque, acrescentando um refinado pulsar disco à sua música que se revela mais do que adequada para os sets de DJs modernos preocupados em instalar a festa nos clubes. Grande Ebo Taylor!

 




[Luis Perez] Ipan In Xiktli Metzli, México Mágico Cósmico, El Ombligo de la Luna (México, 1981)

Mais uma oportuna reedição: o original mais em conta disponível actualmente no Discogs cifra-se acima dos 175 euros. Com esta entrada em catálogo, a Mr. Bongo oferece também um válido contributo para o alargado esforço de redescoberta de um passado mais esotérico e experimental, apesar deste ser um disco muito, muito particular. Luis Perez era um respeitado académico, um antropólogo que se focou muito no estudo de artefactos e práticas musicais dos povos nativos do México e das suas culturas ancestrais incluindo a Maia, Nahuatl, Mazateco, Yoemem, Comcaac, Raramuri ou Wixarika. Ávido coleccionador de instrumentos tradicionais, neste álbum fabuloso, Perez oferece-nos uma espécie de visão ao mesmo tempo ancestral e moderna, quase uma espécie de new age pré-Colombiana, com a sua música a parecer evocar tanto a aridez do topo de algumas montanhas como a densa folhagem das florestas mais impenetráveis.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu