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Silab & Jay Fella

Ed Harris Tape

Mano A Mano / 2020

Texto de Rui Miguel Abreu

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No arranque de Ed Harris Tape, o cinemático beat carimbado pela dupla Silab & Jay Fella e adornado pelas esparsas notas da guitarra de Pedro Quaresma suporta um discurso do actor que tão famosamente vestiu a pele de Jackson Pollock: Harris fala do êxtase, daquele momento criativo em que algo maior parece apoderar-se do artista e transportá-lo para um plano paralelo – não necessariamente superior, mas diferente, pelo menos – e de como todos os passos seguintes são uma mera tentativa de recuperar esse arrebatamento.

Percebe-se na perfeição o paralelo estabelecido: o hip hop, como de resto qualquer outra forma de arte, também vive desses momentos de arrebatamento e êxtase, de magia pura, quando tudo parece encaixar-se na perfeição – o loop certo em cima daqueles drums pesados; o scratch que complementa o tema com redonda assertividade, como aquela última pincelada que o pintor dá antes de declarar a obra terminada; o freeze em que o b-boy exibe aquele esgar de puro escárnio, porque sabe que acabou de esmagar o adversário; a explosão de cor num muro remoto da cidade que é declaração suprema de liberdade; ou então a rima perfeita, entregue com o flow que melhor resolve aquelas palavras, naquele momento único, em cima do beat feito com o loop certo para aqueles drums pesados e complementado pelo scratch tão assertivo como a última pincelada do pintor na obra-prima, e que deixa no rosto do MC o tal esgar de triunfo imposto pela explosão de sílabas que é também manifesto de pura liberdade.

Esta Ed Harris Tape parece cheia desses momentos. No radar do Rimas e Batidas desde pelo menos 2017, a dupla da Margem Sul formada por Silab e Jay Fella sempre prometeu chegar aqui. E entende-se que esta estreia formal, amparada pela Mano A Mano, foi preparada com a calma própria de quem sabe estar a fazer a coisa certa, com a calma própria de quem recusa entrar no jogo antes de sentir que é o momento, porque sabe que só aí poderá fazer a diferença.

A dupla rima de forma clássica, alinhando-se formalmente com a escola ancestral que continua em cima, aquela que vai de Samuel Mira a Frankie Dilúvio, de Raekwon a Roc Marci, de Biggie e Jay-Z a Conway, aquela que não cede aos tempos porque prefere sobrevoá-los. Na sua entrega há cinema e poesia, “Shakespeare cheio de espírito”, há barras cheias de dicas, “que sa foda a vossa espécie/ eu penduro-me num décimo andar”, há ironia livre, classe crua de rua nua e sem adornos supérfluos, há sabedoria e uma capacidade cromática aparentemente infinita que lhes permite pintar murais com palavras, com segundos, terceiros e paralelos sentidos. E há música. Tanta música: na forma como arredondam a respiração, como forçam as rimas, como saltitam entre línguas, seguindo à risca a “Regra number 1/ é Sentimento de prazer”, ou seja, por um lado acreditarem no que estão a dizer (talvez porque tenham vivido cada uma destas palavras), por outro retirarem um indizível regozijo do acto de debitarem o que lhes vai na alma (talvez porque seja tudo o que lhes resta). Crença + deleite = arrebatamento, êxtase. Lá está, não é preciso ir à missa ou confiar numa qualquer substância química… às vezes basta um golo, subir a um monte, trocar olhares com a pessoa certa, sentir o sol no rosto ou simplesmente casar rimas com batidas.



E sim, as batidas são aqui parte importante da equação. Além dos próprios Silab e Jay Fella, que assinam os beats de cinco das nove faixas, são chamados a comandar a MPC (ou qualquer outra ferramenta de produção…) Wake Up Sleep (que assina “Circolar”, o primeiro single), Richard Beats, Dekor e TNT, o patrão da Mano A Mano que também se encarregou da supervisão de todo o projecto. E sonicamente, esta Ed Harris Tape é igualmente certeira: os instrumentais alternam densidade nocturna, geleia cinemática feita de acordes menores, ecos jazzy de clube de outro tempo, com muitas guitarras bluesy, teclas que debitam notas igualmente azuis, vozes herdadas da soul que oferecem backdrops melódicos para as rimas. E tudo isto sempre em modo de gestão económica, tudo isto servido por um rigor orquestral que dispensa grandes gestos e prefere encontrar sentido nos detalhes, com atenção especial dada aquela superior trindade formada pelos pratos, tarola e bombo.

E no primeiro plano Silab e Jay Fella. Silab é logo o primeiro a entrar em cena, em “Wrong Manz”, e não perde tempo a dizer ao MC imaginário que tem à sua frente na batalha: “não estás ready, estás aquém, e esses teus decibéis não incomodam ninguém”. Depois é nervo, matemática gramatical, com frases redigidas sobre régua e esquadro que respeitam milimetricamente o espaço criado pela cadência ditada pela tarola e pelo bombo. Classe pura.

Jay Fella, por outro lado, traz tudo, um flow carregado de um irónico tom que lhe dá um boost no bravado que só pode mesmo deixar-nos um sorriso na cara: em “Drive”, tema em que participa o mestre Blasph, Fella esclarece qual é o seu lugar: “I’m really sorry, mas rappers como eu na nova escola, brother, ainda não vi” enquanto sugere que a concorrência apanhe o bloco de notas do pocket para poderem anotar o seu flow flawless. É bem capaz de ter razão e é bem capaz de não ser má ideia, de facto. Ele rima e canta de uma forma que é original e nem teme exibir-se ao lado do seu sensei, que entra a pés juntos quando nos diz que “deve ser uma maçada… seres a salada da semana passada”. Blasph a ser Blasph como só Blasph sabe ser Blasph.

E é isto: um disco de rap para cabeças reais. Um disco de rappers para rappers, reais ou imaginários. Um disco Mano A Mano para manos e sistas que sabem bem distinguir entre aquilo que é do agora e faz sentido, aquilo que é do passado e continua a fazer sentido, aquilo que bem pode estar a chegar do futuro, mas que também bate e faz sentido ou então, coisa provavelmente mais rara, mas possível, aquilo que, como acontece nesta Ed Harris Tape, não tem tempo algum, vive fora daquilo que nos dizem relógios e calendários, pode ser do passado, do presente ou até do futuro, que por isso mesmo nos deixa na dúvida e, ainda assim, faz igualmente sentido. Total sentido. Porque, já se sabe, vive daquele arrebatamento que não tem explicação, mas que vicia e ao qual queremos sempre voltar. Obrigado, Silab. Obrigado, Jay Fella. #meteplayoutrax


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