Sexta-feira farta: novos trabalhos de Elaquent, Moses Sumney, Grimes, Lee Ranaldo & Raül Refree e Stasya

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Ryan Antooa

Grimes, Stasya, Moses Sumney, Raül Refree e Elaquent juntam-se num solarengo dia de Inverno. Parece a contradição perfeita para a primeira artista, que tem a seu cargo o grande lançamento pop desta sexta-feira: uma história em que se imbricam o aquecimento global e tons abismais de êxtase. Conta-a perante a razoável descrença de Stasya, mais familiarizada com os oráculos do juízo final, com que reveste a sua electrónica, que traz à mesa do piquenique num novo EP (via Buenos Aires).

É um debate que interessa menos a Moses Sumney, construtor incessante de mundos sonoros: morre um, renasce outro, e parte já se pode ouvir na primeira metade do seu segundo álbum. Também Raul Refree (presença habitual do clube dos novos lançamentos) foi convocado por Lee Ranaldo, co-fundador dos Sonic Youth, para edificar um refúgio. E se o produtor canadiano Elaquent parece pouco incomodado com tudo isto, num disco de pegada macia, a verdade é que se rodeou com um batalhão de vozes.

E ainda há discos de Royce 5’9″ (The Allegory), AKAI SOLO (Ride Alone, Fly Together), King Krule (Man Alive!), Elcamino & 38 Spesh (Martyr’s Prayer), Kamaiyah (Got It Made) e Deniro Farrar (Sole Food). Tudo ao vosso dispor. Mergulhem na música, saboreiem o horizonte, e não deixem de espreitar as acções da Tesla.


[Elaquent] Forever Is a Pretty Long Time

Em meados dos anos 2000, Sona Elango assumiu-se Elaquent e singrou no hip hop instrumental. Forever Is a Pretty Long Time é o 17º e mais colaborativo episódio do produtor, numa discografia essencialmente preenchida por beat tapes. Boom bap é o alicerce, com um verniz digital e desacelerado, que abraça o flow de insignes como Oddisee e Guilty Simpson, e convida novas promessas — A L L I E, que faz nome no r&b, ou os versos de Saturn, Alexander.


[Moses Sumney] græ: Part 1

“Não estritamente singles, nem estritamente álbuns, nunca músicas em conjunto nem segmentos de spoken word isolados”. O que é, afinal, o segundo álbum de Moses Sumney? Desde a estreia com Aromanticism, o artista da Jagjaguwar tem-se revelado alérgico a rótulos e binários, mas mais predisposto a mergulhar neles. É o que faz em græ, que, qual Salomão, Sumney cortou ao meio. 

A primeira parte já está cá fora e junta as incisões de “Virile”‌ e “Cut Me” a dez faixas de avant-pop e soul atmosférico na sua voracidade. Sem mais tentativas de categorização, para não enfurecer o criador…


[Grimes] Miss Anthropocene

Poucos discos se podem gabar duma campanha promocional tão distendida quanto Miss Anthropocene. Quase um ano após ter sido anunciado, o terceiro álbum da visionária pop Grimes vem na ressaca de uma pletora de disparos tabloidescos, hologramas, Azealia Banks, Elon Musk e uma gravidez (em curso). 

A estratégia parece ser o atordoamento:‌‌ “GLOBAL WARMING IS GOOD”, grita um outdoor promocional. Mas há que tentar ver a nuance (pelo menos tentar), num longa-duração que corporiza a mudança climática num corpo bicéfalo: uma diva adepta da pop-via-techno e nu-metal, tanto quanto uma vilã decidida a olhar para além do abismo. Aguardam-vos 44 minutos (mais sobras, na edição de luxo) de contradições, excessos e catarses à la Grimes.


[Lee Ranaldo & Raul Refree] Names of North End Women

Meras semanas depois de termos posto as mãos no seu disco com Lina, Raul Refree volta ao ataque. Aviso: poderá ser surpreendente vê-lo a fazer música que não tente reinventar uma cultura‌—o flamenco ao lado de Rosalía, o fado com Lina. Ei-lo agora: comparsa do guitarrista Lee Ranaldo, com quem já trabalhara no disco Electric Trim (2017). 

Junta-se novamente ao co-fundador dos Sonic Youth para Names of North End Women — mulheres que dão nome a ruas da cidade canadiana de Winnipeg, e que o cumprimentaram num passeio à noite. Este é o relato, através de marimbas, vibrafones e samplers. Curiosamente, não muitas guitarras.


[Stasya] Hiedrah Presents: Lamurya EP

Com selo de qualidade da Rádio Quântica, Stasya opera na electrónica nacional mais transgressiva. O seu novo EP é “cyberpunk distópico com uma dose de humanidade”, disse à Swine Daily, onde o estreou:‌ uma publicação eslovaca a interpor-se numa relação Lisboa–Buenos Aires. Batidas e melodias alfacinhas, edição argentina pelo colectivo queer HiedraH. De som “severo, frio e industrial”‌, mas “muito humano e sensível”, Lamurya está pronto para ser posto à prova.

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