Parecia que o Papa estava prestes a entrar na MEO Arena. Horas antes, já se amontoavam fãs em filas, vestidos maioritariamente de branco: tiaras, lenços, vestidos, t-shirts, calças — e, claro, muitas cruzes de Cristo em brincos e colares. A estética da multidão que marcou presença na primeira de duas noites esgotadas em Lisboa poderia facilmente confundir-se com a de um evento das Jornadas Mundiais da Juventude. No entanto, este era apenas mais um dos palcos onde se afirma a pop contemporânea da cantora catalã que mais tem dado que falar pelo mundo. Enquanto a sala já rebentava pelas costuras com um público ansioso por ver esta diva artisticamente renascida através de referências seculares europeias — que culminaram em LUX, o seu último álbum que tem como fio condutor relação de ROSALÍA com a sua espiritualidade —, ouvia-se, ao fundo, música clássica entrelaçada com alguns flamencos, antecipando o que estava prestes a acontecer nessa noite. Desde a apresentação de Los Ángeles no Theatro Circo, em Braga, em 2017, passando pelo Primavera Sound Porto e pelo concerto de MOTOMAMI na MEO Arena em 2022, até a estas duas noites esgotadas em Lisboa, tem vindo a consolidar uma ligação consistente com quem a acompanha por cá. E esta foi sem dúvida uma noite de consagração do seu percurso artístico.
O relógio marcava as 20h45 quando a Heritage Orchestra, liderada pela maestrina cubana Yudania Gómez Heredia, entrou em cena no meio do recinto. Lentamente, começaram a afinar os instrumentos, enquanto dois grandes painéis brancos ocultavam o palco. Pouco tempo depois, esses painéis afastaram-se, revelando vários elementos cobertos por lençóis brancos. Uma das estruturas foi desvendada com a ajuda de escadotes por dançarinos vestidos de preto, precisamente quando ecoaram as primeiras notas de piano de “Sexo, Violencia y Llantas”. A caixa foi então deslocada para o centro do palco; a parte superior abriu-se e, de seguida, toda a estrutura se desdobrou como uma caixa de música. Ali estava ela: ROSALÍA, de tutu e sapatilhas de ballet, dando início ao primeiro ato do concerto, que incluiu “Relíquia”, “Divinize”, “Porcelana” e “Mio Cristo”. Entre pontas de ballet e movimentos contemporâneos, com véus esvoaçantes, o cenário parecia evocar o universo de O Lago dos Cisnes. Nem a exigência coreográfica desviava a atenção da sua voz, que se impunha com intensidade, cruzando as várias línguas que fazem parte deste álbum, e as emoções num registo quase litúrgico.
O segundo ato, iniciado com “Berghain” — a faixa-marca deste álbum — destacou-se por uma interpretação ao vivo que fundiu, num momento de grande climax, música clássica e uma dancefloor de techno, semelhante ao que apresentou nos BRIT Awards. Essa intensidade refletia-se também no novo visual: um adereço de cabeça de penas pretas em forma de ‘chifres’, de estética gótica, possivelmente evocando O Aquelarre, de Francisco de Goya — uma representação de um bode demoníaco rodeado por bruxas. De seguida, abriu-se espaço para “Lisboa dançar”. Substituindo o adereço na cabeça por uma peruca inspirada em Maria Antonieta, ROSALÍA recuperou temas como “Saoko”, “La Fama” e “Combi Versace”, do álbum anterior MOTOMAMI. A “cruz en el pecho” de LUX regressou depois ao cenário com “De Madrugá”, cujo bater de palmas e as danças de inspiração flamenca pareciam antecipar o que estava por vir. Acto finitum.
A melancolia escura e crua de “El Redentor”, música do seu primeiro álbum Los Ángeles, que retrata a Paixão de Cristo, o sacrifício espiritual e a humilhação pública, arrebatou a sala, seguida de uma versão com um toque orquestral de “Can’t Take My Eyes Off You”. Como se fosse um padre, o concerto transformou-se num confessionário, onde um influenciador chinês a viver em Lisboa partilha uma história de uma viagem feita a Barcelona com um amigo durante o Pride, em que um rapaz que conheceu numa festa lhe roubou o telemóvel e a carteira. “Como se diz perla em chinês?”, pergunta ROSALÍA, antes de dar início a um dos temas mais emblemáticos sobre relações falhadas. A ligação com o público intensifica-se — há leitura de cartazes, bandeiras erguidas e até pedidos de fotografias à distância. Seguiu-se o hino ao amor romântico “Sauvignon Blanc”, interpretado ao piano sob uma chuva de confetti dourados, num momento de rara intimidade. Logo depois, “La Yugular” elevou essa intimidade a um plano quase metafísico, onde tudo se contém e o íntimo se expande ao infinito, numa explosão poética e emocional que encerra o terceiro ato com imponência.
ROSALÍA inicia o quarto ato com “Dios es un Stalker”. E num dos momentos mais aguardados da noite, convida Carminho ao palco para interpretar “Memória”, num dueto acústico carregado de emoção, que termina com um abraço prolongado e uma ovação imensa. “Quando esta mulher canta, parte-me em duas”, confessa ROSALÍA, visivelmente tocada. Do fado passa-se à rumba com “Rumba del Perdón”, e rapidamente a energia sobe com incursões no universo de MOTOMAMI, como “Biscochito” e “Despechá”, celebradas em coro por uma plateia completamente rendida. Há espaço ainda para uma luta de almofadas em palco e um interlúdio marcado por um incensário gigante que desce do teto, reforçando a dimensão quase ritualística do espetáculo.
Já na reta final, ROSALÍA brinda o público com “Novia Robot” e “Focu ‘ranni”, duas pérolas reservadas à edição física de LUX, antes de se despedir com palavras de gratidão: “Eternamente grata a ti, Lisboa”. Num gesto final carregado de simbolismo, sobe a escadaria, ajusta as asas e deixa-se cair para trás, numa imagem que remete para a dança final de Cisne Negro. Ainda há tempo para um breve encore com “Magnolias”, encerrando o espetáculo num tom etéreo e quase divino, naquela que é a simulação do funeral de ROSALÍA.
LUX é a prova viva da capacidade de ROSALÍA se transformar sem setas apontadas para o expectável. Como cantou em “Saoko”: “Yo me transformo”. E que bela noite foi esta para testemunhar essa mutação constante: dos momentos mais etéreos e quase sacros aos rasgos eletrónicos que irrompem no final de “Relíquia”, passando pela catarse de “Berghain” ou pela pulsação irreverente de “CUUUUuuuuuute” também acompanhado de beats eletrónicas. Há uma fluidez entre mundos que não pede permissão nem procura coerência linear, apenas intensidade.
Até aqui, o concerto. Mas LUX convoca também outra camada de leitura, particularmente no uso de símbolos religiosos e na encenação clerical que ROSALÍA tem trazido com este novo capítulo artístico. Esta estética não existe num vazio. Dialoga com experiências, memórias e tensões que muitos de nós reconhecem.
ROSALÍA não parece interessada em fazer catequese, nem em desmontá-la pedagogicamente, tão pouco em apresentar-se como santa ou mártir. O que faz é honesto e, por isso mesmo, potencialmente visto como ambíguo — uma ambiguidade que se torna ainda mais evidente no uso de símbolos católicos num momento em que estes têm vindo a ser capitalizados por setores da direita radical, que os instrumentalizam em narrativas de exclusão e ódio dirigidas a várias minorias.
Há, na forma como habita estes símbolos, uma relação que parece mais intuitiva do que programática: a de alguém que é crente, mas que o faz a partir de um lugar contemporâneo e progressista, seja pelas referências a figuras femininas do sagrado, ou pelo facto de ser uma mulher queer que não abdica dessa dimensão espiritual. Usa os símbolos religiosos, da cultura clássica europeia, da estética clerical, da teatralidade barroca e até da iconografia do sofrimento, sem se submeter a uma leitura única ou moralista. É por isso que não deixa de ser curioso que haja quem – como um cronista no El País – considere que ROSALÍA é a chamada de Deus encarnada no corpo de uma mulher. Um discurso que, reciclado por outras palavras e contextos, não está assim tão distante daquele usado pela base evangélica devota de Jair Bolsonaro, que o vê como um “Messias” (também o seu nome do meio), escolhido para combater o chamado “marxismo cultural” e todos os “males da esquerda”, e que ajudou a legitimar um projeto político profundamente conservador, anti-democrático e perverso.
Também não é muito distante dos setores mais radicais do universo MAGA — veja-se a forma como JD Vance se tem vindo a posicionar como possível sucessor de Donald Trump, explorando inclusive a sua conversão ao catolicismo como elemento identitário e político. Por cá, temos a extrema-direita a pedir o regresso do “Deus, Pátria e Família” do tempo da outra senhora. E, ao lado, em Espanha – berço de ROSALÍA – também não faltam narrativas igualmente deploráveis, protagonizadas por Santiago Abascal.
Todas estas figuras, que usam a religião em nome de “grandes princípios”, têm vindo, a um ritmo voraz, a transformar o mundo num lugar onde a guerra se banaliza, a mentira se torna verdade e a boçalidade é trendy. Na busca por formas simples, previsíveis e estáveis de ver o mundo — padrões que transformem a complexidade em respostas fáceis e prometam mudança, escolhe-se muitas vezes a idolatria: cega, ignorante, mas confortável.
Mas afinal, o que é que tudo isto tem a ver com ROSALÍA?
A forma como, à sua volta, se constroem narrativas de teor divino, como se de uma figura redentora se tratasse e a facilidade com que se projeta nela uma ideia de pureza, de elevação, de resposta, quando aquilo que oferece está longe de ser linear ou resolutivo. Há, nesse movimento, um reflexo da necessidade de acreditar em algo maior, de encontrar sentido num mundo cada vez mais instável.
Eu, como muitas pessoas neste país fui atravessada pela Igreja Católica na minha vida. Fui batizada, fiz a primeira comunhão, o crisma. Andei na catequese. E como tantos outros, esta relação tornou-se desafinada ao longo do tempo. Comecei a questionar os dogmatismos que muitas vezes vêm associados à fé, o apego à religião como uma forma de fuga, o puritanismo dos costumes, o conservadorismo. As palavras e os gestos que repetia vezes sem conta na missa deixaram de pura e simplesmente fazer-me sentido. Tendo posteriormente passado a considerar-me ateia, rejeitando de uma forma quase visceral tudo associado à Igreja Católica, ao longo do tempo comecei também a reconhecer valor e semear curiosidade sobre os vários mundos que abarcam a religião e a espiritualidade.
E se é verdade que, numa realidade tão estranha como a que estamos a viver, é urgente criar alternativas sociais e políticas capazes de desafiar um status quo atravessado por múltiplas crises, também a busca de sentido, a necessidade de pertença e a procura espiritual – ou a ligação a nós próprios e ao que nos rodeia – fazem parte desse processo. E, quando falo de espiritualidade, não me refiro a instituições religiosas, mas antes a um encontro progressivo com aquilo que nos é mais íntimo. Nesse sentido, a artista catalã revela-se particularmente eficaz ao explorar as tensões entre o bem e o mal, o material e o divino, a vida e a morte, o finito e o infinito. Com o resultado material que pode também ser um veículo de “conexão divina” para outros, mas que é fruto da sua própria vivência.
E para uma “ateia em desconstrução” como eu, não deixa de ser uma material valioso de escuta e de procura por outras formas de sentir a espiritualidade, para além dos Pais Nossos e Avé Marias rezados na igreja. Porque também a música, e toda a arte pode ser uma forma de espiritualidade, quer tenham conotações religiosas associadas ou não. E é impossível não sentir comoção ao ouvir este álbum.
E, no entanto, ROSALÍA não oferece uma mensagem fechada, mas sim um espaço onde diferentes leituras e vivências podem coexistir. Pode ser um impulso inesperado para quem atravessa uma semana difícil e encontra ali a possibilidade de simplesmente existir. Pode ser, para um jovem queer, um momento de acolhimento dentro de uma fé com a qual comunga, mas da qual tantos setores da sociedade o excluem. Pode ser, ao mesmo tempo, a reafirmação da devoção cristã para um crente mais radical. E, sendo ou não ROSALÍA uma mensageira de Deus, não deixa de ser uma mensageira — variando apenas na forma como cada um recebe essa mensagem e no que decide fazer com ela. Não há uma leitura universal para o que este álbum significa: transforma-se consoante quem o escuta, dizendo coisas diferentes a pessoas diferentes.
E se, por um lado, esta apropriação de símbolos religiosos pode ser lida à luz de um contexto social e político em que essa iconografia tem sido cada vez mais capturada por discursos da direita radical, também é possível lê-la no sentido oposto: como uma reivindicação — ainda que não programática — de uma igreja mais tolerante, inclusiva e feminina. Não por uma tomada de posição explícita, mas pelo simples facto de ROSALÍA habitar esses símbolos de forma natural, deslocando-os dos significados rígidos a que têm vindo a ser associados.
Ainda assim, fica a questão sobre afinal qual é o papel que a arte deve ter no meio deste mundo cada vez mais confuso e em colapso. ROSALÍA tem sido uma figura permanentemente atravessada por contradições: entre as críticas de apropriação cultural, o silêncio sobre certos temas, a devoção da estética católica e a recusa em ser lida a partir de “ismos”, ou um discurso que evoca despojamento, comunhão e transcendência e um espetáculo altamente controlado (no qual os fotojornalistas não puderam entrar) e marcado por bilhetes caros. Para alguns, isso será uma ambiguidade calculada ou desconectada da realidade social e política em que vivemos; para outros, simples liberdade de criar e de ser.
A sua música não é um manifesto político linear, nem uma resposta ideológica pronta a consumir. É antes uma tentativa de fazer da música um lugar de intensidade, de vulnerabilidade, de excesso, de beleza e de procura, sem se querer fixar em etiquetas, rótulos ou visões binárias da realidade, nem sequer indicar caminhos para além do da sua própria verdade. O que não deixa de ser admirável e corajoso nos dias que hoje correm. E talvez essa celebração de um lugar mais íntimo e honesto, tantas vezes boicotado pelo frenesim comunicativo e algorítmico em que vivemos, seja, por si só, um gesto de rebeldia. Mas será suficiente? Será esse espaço de ambiguidade uma forma de resistência ou apenas mais uma camada de abstração num mundo em colapso? O que é certo é que, para o público, a resposta parece óbvia. Talvez, no fim, isso também faça parte da resposta. Ou talvez apenas mais uma pergunta.