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A artista como ponto de condensação de experiências.

ROSALÍA: há LUX para além de Deus

Quem não entender Duchamp não entende o século XX nem estes primeiros 26 anos do presente século. Pode soar abusivo, mas não parto do princípio de que as pessoas são estúpidas — parto do princípio de que Duchamp, goste-se ou não, é a ponte entre todo o nosso passado e o presente. Foi quem deslocou o pensamento artístico de forma irreversível: a arte deixa de residir no objeto e passa a residir na decisão, no contexto, no gesto.

Até para mim, que por vezes me sinto dividido na avaliação do que é ou não objeto artístico, ele funciona como um lembrete constante de que a arte pode ser tudo o que quisermos — com ou sem justificação — desde que exista essa intenção. Mas o mais relevante dentro do seu pensamento e prática é a subversão da visão e do pensamento humanos. A pergunta deixa de ser “o que é isto?” e passa a ser “o que é que isto pode ser?”. É aqui que se inaugura uma base para aquilo que mais tarde se torna cultura pop: não como estética, mas como possibilidade. Todos nós somos dotados de criatividade e inventividade; podemos é estar presos, por causa de uma sociedade com fraca equidade à partida, num sistema que não nos permite desenvolver esse “músculo”.

Muita coisa aconteceu no pós-Duchamp, mas as duas grandes guerras e a subsequente Guerra Fria empurraram os seus ensinamentos até hoje. Vivemos num tempo onde a interpolação, a colagem, o sampling fazem parte da vida, quer de artistas, quer de público. É extremamente interessante perceber como, na última década — mais do que nunca, na minha perceção — os fãs passaram a ter prazer em identificar referências, descobrir origens de samples, mapear influências. Mesmo fora de nichos mais geek, esse interesse existe. E se para gatekeepers isso é um problema — porque expõe estruturas, porque ameaça uma cultura que não era de toda a gente — eu recuso-me a rejeitar esse progresso. Prefiro pessoas interessadas a pessoas excluídas. Criativamente, isto levanta problemas sérios, mas isso é outra conversa.

A ROSALÍA aparece exatamente neste ponto de tensão. Estudou música, mas não está à margem do tempo — e isso cria uma ligação direta com o público, mesmo que não seja imediatamente consciente. Interpola, recorta, cola, sampla; trabalha numa lógica de pastiche; tem um pensamento humorístico na acessão freudiana sobre o que é e o que faz o humor, que não é necessariamente fazer rir. Em MOTOMAMI isso é evidente em músicas como “CUUUUuuuuuute” (colagem), “Abcdefg” (humor).

E depois há LUX. LUX é um fenómeno. Quando saiu, vi muito a reação: “a música está tão má que isto parece um grande trabalho”. Não é obrigatório gostar, nem sequer atribuir valor, mas isto é, no mínimo, reacionário. Estamos perante um objeto que rompe com uma lógica pop um pouco saturada, que se tem tornado baudrillardiana. Não é preciso entrar em guerras estéticas para perceber que há um esgotamento geral. E quando isso acontece, o movimento natural da cultura é procurar outros espaços. Esses espaços muitas vezes vêm da nostalgia, de tempos que na nossa memória eram melhores, mesmo que a conjuntura desses tempos se provem piores.

A verdade é que a nostalgia não olha para o que estava mal nessa altura, olha para a idade que tínhamos e já não temos. E por isso a pop e a cultura de clube encontram-se hoje com música em espanhol, com várias tradições africanas, com o Brasil. Ao mesmo tempo, novas gerações empurram isso ainda mais. Não é novo: basta pensar num hip hop fechado no Bronx que se foi encontrar com uma jovem geração de punks e hipsters brancos em Manhattan, ou em jovens de contextos conservadores a ouvirem 2 Live Crew e toda a tensão legal e cultural que isso gerou e se revelou num avanço.

Voltando à ROSALÍA, e focando em LUX e no concerto: eu não quero descrevê-lo, há excelentes artigos que já o fazem, interessa-me a ideia de “divino confessional”. Lembrei-me de uma cena de Sopranos em que A.J. diz que Deus morreu, citando Nietzsche. Mais do que a morte de Deus, interessa-me a morte de uma autoridade transcendental estável. E o que aparece no lugar disso não é vazio — são formas de transcendência temporária, emocional, performativa. Não sei se ROSALÍA se posiciona conscientemente nesse lugar — acho mais honesto dizer que sou eu que a leio assim. Mas a leitura faz-se porque há matéria para isso. A sua estética cruza várias camadas: há um diálogo com formas clássicas e neoclássicas, há uma recuperação e reorganização que pode ser lida como renascentista, há uma dimensão emocional e confessional claramente romântica, e há contrastes e deslocamentos que tocam o surreal. Estas categorias não estão aqui como classificação histórica rigorosa, mas como ferramentas de leitura.

O que está realmente em jogo é outra coisa: um colapso de hierarquias. Entre o sagrado e o profano, entre o erudito e o popular, entre o autêntico e o artificial. A pergunta impõe-se: como é que um álbum como este fura a pop?

Não é um ponto de partida — há capital acumulado. A linguagem, apesar de tudo, é legível. Surge num momento de saturação. Responde a uma procura por experiências emocionais mais intensas. E, talvez mais importante, mobiliza uma estética quase religiosa num mundo cada vez mais secularizado. O artigo da Margarida Valença aqui no ReB fala de uma ideia de esperança no artista num mundo em crise, e isso faz sentido. Mas eu gostava de acrescentar: talvez seja reconhecimento. As pessoas não precisam de acreditar em Deus para se identificarem com estruturas simbólicas que o evocam. E nesse processo, o artista deixa de ser apenas artista e passa a funcionar como ponto de condensação de experiências, como um símbolo. Eu acredito na natureza humana exatamente por causa disso. Os Gregos viveram há cerca de 2500 anos, e mesmo sem partilharmos os seus códigos, reconhecemo-los como humanos. Criaram mitos para explicar o mundo — o mesmo mundo que habitamos. ROSALÍA, enquanto artista pop, opera nesse território: o da construção de formas que nos permitem reconhecer-nos.


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