Rocky Marsiano: “A minha vontade é de retocar a música e partilhá-la”

São mais de 20 anos dedicados ao hip hop, às rimas e às batidas. Se rebobinarmos a história da música portuguesa vamos parar, obrigatoriamente, no período do álbum Rapública, de 1994, a compilação que abriu os ouvidos de uma nação para um género que era novidade em Portugal. Por entre nomes como Boss AC e Melo D aparece o de D-Mars, na altura o jovem Marko Roca, acabadinho de chegar da Croácia – filho de pai croata e mãe minhota -, que fazia parte dos Zona Dread e que ajudou a produzir o primeiro álbum mainstream de hip hop feito em Portugal. Em 1997, juntamente com Sagaz e NelAssassin, formou os Micro – colectivo de referência, sobretudo se recuarmos até ao disco Microlandeses, de 2002.

Porém Marko é mais do que D-Mars. Muito mais. Cultivou o gosto pelo jazz, pelo funk e cresceu como produtor, criando o alter-ego Rocky Marsiano. Este ano celebram-se dez anos do seu primeiro trabalho, The Pyramid Sessions – e Marko quer celebrá-los à séria, com uma importante reedição. Nesta fase, o produtor vive um significativo momento criativo na sua carreira, com o lançamento de Meu Kamba, o álbum feito a partir de Amsterdão, onde vive há vários anos, com pedaços da colecção de discos de Rui Miguel Abreu (director do ReB). Um LP que demonstra como Marko tem vindo a desenvolver um gosto especial pelos clássicos da música africana. “Quase nunca fiz duas coisas iguais na minha carreira, mas agora estou a curtir tanto isto e a descobrir um mundo inteiro de possibilidades à minha frente que quero continuar”, diz, nesta longa conversa feita através de Skype. O passado, o presente e o futuro de D-Mars, Rocky Marsiano ou o Microlandês. É Marko, na primeira pessoa.

 

Nos últimos meses tens vivido numa correria entre Lisboa e Amesterdão, com alguns DJ set em Portugal de Meu Kamba Soundsystem e actuações já programadas para o Verão. Continua a ser vantajoso estar a morar na Holanda?

Sim, mas devia apostar em fazer mais concertos por aqui. Só que não me apetece.

Porquê?

O meu primeiro álbum como Rocky Marsiano saiu há dez anos. Foi um disco que marcou muito 2005 e foi um óptimo arranque para mim como Rocky Marsiano e como projecto paralelo aos Micro, na altura. E quando se começa tão bem, a tocar com Rodrigo Amado, André Fernandes e DJ Ride, depois é difícil não o fazer com pessoas tão boas. Basicamente não sei como chegar ao Rodrigo, ao André ou ao Ride daqui. Gosto da ideia de fazer essa carreira quase toda em Portugal. Com este novo álbum, Meu Kamba, já tenho tido algumas experiências fixes: os gigs que tenho tido aconteceram pela forma como o disco foi recebido em sítios chave para este tipo de som, como o [portal] Okayafrica. Pode ter sido uma espécie de wake up call para tentar fazer mais coisas nesta parte da Europa.

Mas quando dizes que não te apetece fazer mais coisas aí, não é certamente por preguiça, porque tens produzido e editado com bastante regularidade nos últimos anos.

Se fosse preguiçoso não tinha quase 20 álbuns editados. Não é preguiça, é mesmo opção. Aí em Portugal sou conhecido, a minha música passa na Oxigénio, que é a rádio mais importante para o meu tipo de som – a “Hold of Me” toca lá há dez anos! Não me apetece começar do zero num outro sítio. O que me apetece é fazer coisas como o Meu Kamba, que é entrar no mundo das pessoas que gostam de world music e fazer com que percebam que eu já tinha discos editados antes e ganhar o respeito por aí. Todos os gigs que fiz em Bruxelas, em Paris, na Holanda, ou um que vou fazer na Alemanha – em Dortmund, na festa da rádio Funkhaus Europa, no dia 16 de Maio – foi porque vieram ter comigo pela minha música. Sinceramente, não me fazia sentido na minha carreira – ser um dos veteranos do hip hop em Portugal – ir aos sítios dizer: “Sou bué importante em Portugal. Não me querem chamar para tocar?”. Aqui existem muitos outros artistas com carreiras ainda mais antigas.

Dez anos depois do The Pyramid Sessions descobriste com o Meu Kamba um novo impulso para Rocky Marsiano, mais ligado à música de raiz africana? 

Não é um novo impulso, porque a música africana já tinha influenciado a minha música no passado, mas descobri algo que me motiva. Quase nunca fiz duas coisas iguais na minha carreira, mas agora estou a curtir tanto isto e a descobrir um mundo inteiro de possibilidades à minha frente que quero continuar. Há muitas ideias antigas em que agora faz sentido investir. Por exemplo: eu e o Sagaz fizemos um disco, há uns quatro anos, juntos, aqui em Amesterdão. Na altura estava a co-alugar um estúdio muito bom e lá, em três dias, à old school, gravámos o disco juntos. O Sagaz assumiu outra identidade, chamava-se Bodona, e fizemos um álbum muito afro-futurista, com beats electrónicos, samples de música cabo-verdiana e de outros países da África Ocidental e cantado em crioulo. Estava tudo feito, mas não me fazia sentido estar a editar.

Pode agora vir a ver a luz do dia?

É um disco que vai aparecendo na edição digital do Meu Kamba: aproveitei três ou quatro temas, fiz novas versões. O que vai acontecer é que num futuro álbum de Rocky Marsiano sou capaz de pegar em mais alguns temas desse disco. Mas não gosto muito de falar do futuro, para não haver jinx e acontecer algo completamente diferente.

O que me apetece é fazer coisas como o Meu Kamba, que é entrar no mundo das pessoas que gostam de world music e fazer com que percebam que eu já tinha discos editados antes e ganhar o respeito por aí.

Mas a tua ligação aos ritmos africanos, como disseste, não é de agora. Creio que, como ouvinte, até terá nascido por alturas dos Micro, por trabalhares e teres amigos cabo-verdianos e angolanos.

A ligação, cronologicamente, vem de Micro. Mas mais especificamente vem dos tempos da Loop:Recordings, em 2002 ou 2003. Fui sendo exposto por trabalhos de alguns artistas: editámos o primeiro álbum do Sagaz, que foi pioneiro na fusão entre o rap crioulo e português; ou o primeiro álbum do Melo D, que tem vários toques, nos interlúdios, de cenas angolanas.

Mas em casa também foste tendo maior contacto com a música africana.

Sim, o pai da minha ex-mulher é cabo-verdiano e ela ouvia muita música em casa. Mas no que diz respeito à colecção de discos, foi mais o NelAssassin e o Sagaz que começaram a trazer-me alguns álbuns. Alguns dos discos que tenho ainda estão assinados pelos pais deles, vê lá!

A tua personalidade como Rocky Marsiano começou a crescer no icónico Clube Mercado, em Lisboa. Nessa altura mostravas interesse por algumas destas sonoridades, para lá daqueles sons mais jazzísticos que vieste a registar no The Pyramid Sessions?

Sim, isso foi há uns dez ou 12 anos. Tinha vários discos de Tulipa Negra, que ouvia em casa. Curtia a música, mas era um bocado inacessível para mim enquanto produtor. A qualidade da gravação não estava tão ao nível do que ia samplando de discos de jazz, soul, funk, que eram os estereótipos daquilo que um produtor de hip hop samplava. Eu era DJ residente do Mercado e tocava quase todas as semanas. Houve uma noite em que por estar lá o Sagaz, levei esses discos. Eram dos anos 70, mas já davam para sentir uma cena quase afro-disco, com um balanço claramente de funaná, só que de produção mais rudimentar. Por acaso é a primeira vez que estou a lembrar-me disso enquanto estou aqui a falar (risos). Sinto mesmo que estava muito à frente e, naquela altura, ajudou mudar a forma como as pessoas passaram a abraçar e a aceitar a música de raiz africana aí em Lisboa.

©Ricardo Miguel Vieira

Ainda te lembras de como era quando chegaste a Lisboa?

Lembro-me bem. A kizomba já era super popular e ouvia-se muito o zouk. Lembro-me de ir com os Zona Dread e Family, por alturas do Rapública, dar um concerto a Setúbal e íamos no autocarro a ouvir Kassav. Eu era um puto da Croácia, curtia a música, via os manos todos a curtir, adorava aquilo! Mas era impossível passar aquilo para os brancos portugueses da altura. O kuduro ouvia-se nos guetos. Quando ia ao Vale da Amoreira, no Barreiro, com a minha crew, passavam carros a bombar kuduro! Depois, os Buraka [Som Sistema] tiveram um papel crucial: hoje podes estar numa noite de hip hop e R&B e se passa um Anselmo Ralph – que é kizomba moderno com toque de R&B – é a puta da festa! Dantes era impossível!

É interessante referires os Buraka, porque foi no Clube Mercado, onde também passavas os discos dos Tulipa Negra, que, um ou dois anos depois, eles viriam a nascer.

Esse tipo de som passei uma ou duas vezes, porque a aceitação era zero! Só um ou outro cabo-verdiano que estava lá é que estava a curtir à grande. O Mercado era um sítio brutal. Era onde o Lil’ John [hoje Branko] tinha a residência e tocámos muitas vezes juntos. Era um sítio muito ecléctico: dancehall, disco e funk. Para mim foi a minha escola como DJ mais a sério.

O que é que te fez interessar pelos ritmos africanos? A batida, o calor das composições, o tempo, a produção?

Foi a simplicidade. É a mesma cena que o funk – embora essas produções até sejam pré-funk. A maior parte dos discos africanos que tenho são mais antigos do que os que tenho de funk. Os gajos tocavam bem, iam para o estúdio, sem produtores. Isso só aconteceu depois, no caso da música cabo-verdiana, na década passada. Os últimos discos da Cesária é que já tinham mais produção e depois toda a cena que se seguiu: Lura, os últimos do Tito Paris, também já têm um som brutal, mas não os consigo re-trabalhar… Os antigos têm essa cena do groove. Para quem esteve em Cabo Verde, consegue perceber-se o que a música significa lá: não é uma coisa que simplesmente se ouve. A música lá é tudo! Tem o respeito e a vontade de querer partilhar. A minha vontade é de retocar a música e partilhá-la.

O teu último disco, Meu Kamba, não é só com música cabo verdiana. Pega em várias referências africanas.

Sim, angolanas também. Falo mais de Cabo Verde porque, dos países dos PALOP, é aquele com que tenho mais ligações pessoais. Mas passei a conhecer muito mais música angolana por causa desse processo todo, de ter feito o disco, de ter ouvido mais discos do Rui [Miguel Abreu], de ter explorado mais temas na reedição que fizemos. E agora com a experiência de DJ tenho procurado ainda mais material para incorporar nos sets. Vamos editar em breve um 7″, de um lado com um remake de um tema angolano e do outro lado um funaná.

Ainda em África: estiveste em Nairobi, no Quénia, em 2009. O que apreendeste dessa viagem e, sobretudo, dessa experiência?

Nessa altura eu tinha outro trabalho: trabalhava numa ONG holandesa que apoiava músicos de Nairobi. Não eram músicos carenciados: eram pessoas criativas que precisavam de um apoio inicial. Uma das bandas foram os Sauti Sol – na altura uns miúdos de 20 anos e hoje são super estrelas da música Queniana – e outra foi os Just a Band, que ajudámos a editar o segundo álbum e acabaram por ir ao SXSW e por acaso fizeram um tema com os Octa Push. Lembro-me que na altura andava mais virado para a música electrónica – a produzir mais techno. Depois, no Quénia, vi-os a fazer música com tudo e isso deixou-me a pensar: passamos horas na net a falar uns com os outros sobre os plug-in ‘x’ e merdas que não interessam para nada! Tinha-me perdido um pouco nisso, mas dei uns passos atrás, voltei ao básico e no meu penúltimo disco até fiz um som com o pessoal do Quénia quando esteve cá.

Ajudaram-te a descobrir outras realidades enquanto produtor?

É verdade. E foi nessa altura que estava quase a começar uma guerra entre as visões da world music. Até então, quem era músico africano tinha de ir para o palco vestido com vestes tradicionais. Lá na ONG organizei duas tours aqui na Europa para os quenianos e são putos vestidos como nós! Íamos a alguns sítios e o pessoal queixava-se que não tinham aspecto africano. Aquilo é uma metrópole gigante, onde não falta nada. Felizmente, essa forma colonialista de ver a world music, está a desaparecer, a converter-se em fusões entre cenas europeias e africanas e até outras que são só africanas, como o afro-house. Na África do Sul é algo que faz parte da cultura.

Lembro-me de ir com os Zona Dread e Family, por alturas do Rapública, dar um concerto a Setúbal e íamos no autocarro a ouvir Kassav. Eu era um puto da Croácia, curtia a música, via os manos todos a curtir, adorava aquilo! Mas era impossível passar aquilo para os brancos portugueses da altura.

Voltando ao Meu Kamba: depois do soundsystem com o Rui Miguel Abreu, é altura de regressar, mostrar o disco e este lado afro do Rocky Marsiano?

Tenho feito concertos com o Rui Miguel Abreu – uma espécie de DJ duo – e com o percussionista Toni [dos Batoto Yetu]. Foi por isso que resolvemos chamar-lhe Meu Kamba Soundsystem, porque é quase a continuação da ligação que fez o Meu Kamba nascer. O Rui é o meu braço direito ou o esquerdo – nem sei: é uma das maiores influências da minha música. Não aprendi a produzir com ele, a atitude dele perante a música fez-me descobrir outras possibilidades que aprendi a explorar. Se não tivéssemos tido a Loop, eu nunca me teria aventurado, nunca tinha feito álbuns de beats. Eu nem curtia cenas como DJ Shadow porque para mim os beats eram para cascar e não para ouvir. Com o soundsystem vamos ter mais uma ou outra data no Verão, mas como Rocky Marsiano vou apresentar o disco, pela primeira vez, ao vivo no Out Jazz [dia 21 de Junho, no Parque Tejo]. É uma altura e um sítio quase seguro para fazer uma primeira apresentação. Este disco também merece ser levado ao vivo porque há muita gente que gosta dele. Não posso fazer tudo igual ao que fiz em disco, porque há muitos temas vocais – e muitos nem sei quem é a voz! A maneira como vou fazer ainda está um pouco incerta na minha mente.

Mas gostavas que fosse com mais pessoas contigo em palco?

Sim, gostava, mas quero fazer algo especial. Não quero estar a tocar o disco e o Toni a dar nas congas por cima. Isso não faz muito sentido. Sei que vai ser com o Toni – que era o DJ de Zona Dread, por isso é como se fosse família. E depois, se tudo correr bem, o Sagaz ou o Melo D a fazer de anfitriões e a interpretar alguns temas. E ainda estou indeciso entre ter alguém a tocar uma gaita ou um guitarrista, com o toque afro, que em Lisboa não falta.

Este ano celebram-se os dez anos do teu disco de estreia como Rocky Marsiano, o grande The Pyramid Sessions. É para celebrar?

Sim e dez anos depois vai sair o vídeo do “Hold of Me”, que foi gravado aqui em Amesterdão. Na altura, o disco só saiu em CD e esgotou em seis meses. A verdade é que nunca o reeditámos. A malta que curte o formato físico passava a vida a mandar-me e-mails a dizer que não encontrava o CD nem o vinil. Agora é altura. A capa da reedição em vinil foi reinterpretada pelo Filipe Cravo, numa pintura e em princípio vou fazer uma campanha de crowdfunding, que acaba por ser quase uma pré-venda do disco.

Gostavas de voltar a tocar o disco ao vivo?

Sim e quero lançar a campanha de crowdfunding com um concerto. Mas esse disco, ao vivo, nunca morreu. Os primeiros dois ou três anos de Rocky Marsiano foram só com esse disco. Depois há um ou outro tema que foi sobrevivendo nos live sets, até ao ano passado. Para tocá-lo ao vivo, gostava que fosse de maneira diferente. Fazia-o com MPC, sem algumas ferramentas que entretanto aprendi e que podem fazer a diferença.

E o D-Mars, a tua faceta enquanto MC? Editaste o teu disco de celebração de 20 anos, mas e os Micro? Vês alguma hipótese de reunião?
Eu, o Sagaz e o Nelson [NelAssassin] somos como irmãos. Não falamos todos os dias, mas temos uma ligação vitalícia. Fui eu que gravei a mixtape do Sagaz, há um ano e meio [Eterno Vol.1]. Acho que vamos estar sempre muito ligados uns com os outros, musicalmente. Agora, como MC, acho que tinha mesmo de viver em Portugal para fazer esse trabalho. Mesmo para escrever é-me difícil não estando aí. Eu escrevia as rimas quase todas no comboio, entre Cais do Sodré e Paço de Arcos. O 20 Anos escrevi quase todo aqui, e são 20 temas! As rimas, nesse disco, ainda reflectem alguma realidade, mas muitas são mais lúdicas, de ego trip. Houve várias alturas em que me senti inspirado a atacar outra vez no microfone, fiz algum trabalho com Microlandia Connection, coisas mais b-boy, a cuspir rimas. Mas é uma incógnita. No entanto, se me der na cabeça, eu e o Sagaz enfiamo-nos num estúdio e em cinco dias fazemos um álbum, na boa! Está tudo aqui dentro e até acumulado. Se me disserem para amanhã dar um concerto é muito fácil.

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[Fotos]
 Arquivo Pessoal/Marko Roca

Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.