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Publicado a: 02/05/2017

#ReBPlaylist: Abril 2017

Publicado a: 02/05/2017

[FOTO] Made in LX

Se a Internet explodir e este for o único texto que encontrarem nos destroços, não se preocupem: o mundo já esteve bem pior. Para começar, DJ Shadow e Nas encontram-se pela primeira vez numa faixa, o que só pode ser obra divina. Galácticos a mostrarem que são intemporais, seja a criar na década de 90 ou em 2017.

A representar a lusofonia, Valas, muito bem acompanhado por Slow J, e Choice, talentoso rapper brasileiro à procura do seu lugar ao sol, são prova de que vivemos tempos áureos de qualidade e diversidade. Querem o quê? Canção gulosa ou flow ácido? Temos os dois, fiquem descansados. Directamente do Reino Unido, o multi-instrumentista britânico Tom Misch e o MC irlandês Rejjie Snow são exemplos de criatividade e singularidade. Dois nomes que se não conhecem, está na hora de conhecerem.

Sem mais conversa fiada, vamos ao que interessa:

 


[Valas] “Alma Velha” (feat. Slow J)

Alma velha? Talvez soe estranho para quem só agora começa a reparar e a ouvir Valas, Slow J e Lhast. A verdade é que os três já enchem as suas vidas de rimas e batidas há mais tempo do que os mais distraídos possam notar. Em “Não duvides”, de 2014, Johnny Valas já rimava sobre um beat do, à época, Last Hope. Sobre Lhast vale a pena ler mais aqui, no texto de Gonçalo Oliveira. De Slow J não há muito a acrescentar. The Art of Slowing Down é a prova necessária para sabermos que estamos perante um artista maduro e certo da sua sonoridade.

Mas vamos a “Alma Velha”, um dos dois temas lançados a 12 de Abril e que vão mitigando a espera pelo novo álbum de Valas planeado para o início de 2018. Do beat fica-nos gravada na memória a marcação do bombo e da tarola, como também o arrastar dos acordes no braço da guitarra. Sons a que Lhast já nos tem habituado na sua produção e mistura, sons que podemos ouvir em “As Coisas”, também de Valas, em “Do you no wrong”, de Richie Campbell, ou mesmo na “Xamã”, de ProfJam. Um beat bastante contrastante com a calmaria e silêncio de uma Serra da Estrela nevada que se pode ver no videoclip.

Da letra ficam-nos algumas ideias. A primeira a de que Valas quer sublinhar o facto referido em cima: “já não sou novo”. E no refrão, sempre cantado por Valas, o músico quer lembrar quantas páginas virou, ou viraram ambos os músicos desde que apareceram no mundo das artes. Slow J, uma caixa de ritmos em palavras, deixa-nos a ideia de que “nasceu sem lei” e vai, sempre com o seu semba, onde a vida o levar. “Sei que outra vida virá”, canta Slow J lembrando “Mun’Dança”. “O Mundo é dos loucos”, começam e terminam deixando-nos a pensar que loucos são eles por nos conseguirem colocar em repeat a mesma música vezes sem conta.

Alexandra Oliveira Matos


[Rejjie Snow] “Flexin’”

Produzido por Rahki, produtor nomeado para Grammy, o novo single de Rejjie Snow tem estado em repetição desde que saiu da cozinha. Será pelos synths que atacam incessantemente, ou pela linha de baixo 808 que instala um groove imperativo? Será pelo refrão agudo cantado por Ebenezer, ou então pela voz de Rejjie, o irlandês com tom grave e timbre rugoso? Dúvidas à parte, é mais que provável que seja o contraste dos ingredientes o que torna este single num petisco a repetir. A nossa sorte é que ouvir música não engorda.

Amorim Abiassi Ferreira


[Choice] “Super Hip Hop”

O brasileiro Choice foi um dos últimos convidados para a série Perfil para a Pineapple Storm TV. A iniciativa arrancou a escassos dias do final de 2016 e é fruto de uma nova relação entre a marca de roupa Pineapple Supply e o estúdio Brainstorm. O objectivo é estabelecerem-se como uma rampa de lançamento dos novos talentos do rap brasileiro e, nestes primeiros 4 meses, há já vários motivos para acompanhar a plataforma. O contributo de Choice é, para já, o mais quente do catálogo de singles e, em “Super Hip Hop”, mostra argumentos para vir a ser um caso sério no hip hop brasileiro.

O rapper surgiu na dupla NaCaÇa e trilha agora um caminho a solo depois de uma volta de 180º na sua escrita e escolha dos beats. Agora promete o EP de estreia RubyKing7102 e aponta para o dia 29 de Maio num dos seus posts no Facebook, data da provável edição do projecto.

Legua$ assina o instrumental que serve este “Super Hip Hop”. Um super-herói cuja arma é a combinação entre o papel e a caneta, servida com uma elevada dose de atitude e entrega, dignas de quem pode realmente furar até aos lugares cimeiros do hip hop feito no Brasil. Que venha agora RubyKing7102 para tirar a limpo todas as conclusões.

Gonçalo Oliveira


[DJ Shadow] “Systematic” (feat. Nas)

DJ Shadow fez algo pela música… Mais: DJ Shadow fez algo pela cultura, algo de terrivelmente específico pelo qual, estranhamente, nem tem sido muito creditado: Shadow entendeu, provavelmente mais cedo do que a maioria, que a bateria é a fundação, o elemento primordial do edifício sonoro do hip hop. Ao tratar a bateria como elemento nobre da arquitectura hip hop, logo desde os primeiros momentos da sua carreira nos alvores dos anos 90, Shadow influenciou uma geração de produtores que funcionaram como os mestres de quem hoje dá cartas. Falo de gente como J Dilla e Madlib e, um pouco mais tarde, de FlyLo ou HudMo, gente que adivinhou nas produções de Shadow toda uma filosofia de respeito pela bateria que depois se traduziu em novos avanços rítmicos nas produções contemporâneas. Shadow é o verdadeiro elo entre a velha escola e o futuro de que se faz o nosso presente. E isso sente-se em “Systematic”, a faixa que é o primeiro avanço da banda sonora da nova temporada da série Sylicon Valley e que conta com a participação de Nas: uma bateria, imensa, um pequeno lick de guitarra, um baixo sintetizado e aquele flow que parece ser feito da mesma matéria indescritível que se sente desprender do tecto da Capela Sistina ou das formas a que Picasso deu cor ou algo assim. Dois verdadeiros monumentos internacionais dessa grande nação hip hop que se encontram pela primeira vez numa faixa que não inventa ou sequer reinventa a roda, mas que é pura classe intemporal, puro hip hop, sem agendas, mensagens extraordinárias ou outra intenção qualquer que não seja a de celebrar essa ideia primária da disposição de palavras numa cadência particular em cima de uma bateria significante. Shadow e Nas ainda se lembram do que isso significa e fazem-nos o favor de nos relembrar a todos também: “Remenber the past, cherish the present and work for tomorrow. The time is now“, garante o sample de voz scratchado por Shadow no final. Word!

Rui Miguel Abreu


[Tom Misch] “Day 2: Feeling” (feat. Novelist)

Tom Misch insere-se na perpétua vaga de produtores londrinos que sabemos que têm tudo para ser enormes um dia. Enquanto trabalha no seu álbum de estreia, que deverá sair algures no próximo ano, decidiu que era giro lançar um EP. 5 Day Mischon foi gravado em apenas cinco dias, ao ritmo de um tema por dia e conta com um convidado em cada entrada. Por ordem, a saber: Carmody, Novelist, Will Heard, Kaidi Akinnibi e Tobie Tripp.

O EP é uma espécie de história de amor, passado e futuro de mãos dadas, mas de compassos e protagonistas distintos. Cada dia corresponde a um capítulo, mas a maneira como se ligam é tão sublime que é difícil acreditar que cada uma das secções foi escrita por mãos diferentes. Numa viagem de cerca de 25 minutos, há tempo para provar bocadinhos de tanta coisa: r&b, acid jazz, rimas temperadas em grime e até uma fusão de sabores orquestrais.

Não vou negar que foi particularmente difícil escolher entre estes cinco dias de Tom Misch – quanto mais se ouve, mais parece que ficou por descobrir – pelo que o destaque acabou por chegar quase por exclusão de partes. “Day 2: Feeling (feat. Novelist)” foi a primeira música que ouvi deste trabalho e, assim, a primeira por que me apaixonei. Numa colaboração quase inesperada, Novelist empresta a voz e o sentimento a um dia de sabor primaveril. Sendo o tema mais curto do registo, é a entrada perfeita para um repasto que parece combinar bem com quase todas as coisas boas desta vida.

Rute Correia

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