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Fotografia: Ana Carvalho
Publicado a: 17/06/2026

À conversa com um dos artistas que ajudaram a dar banda sonora à vida da diáspora cabo-verdiana em Portugal.

Pedrinho Xalé: “Enquanto a música continuar viva, eu também quero continuar a tocar”

Fotografia: Ana Carvalho
Publicado a: 17/06/2026

Olhando para a capa de Aleluia, álbum de Pedrinho Xalé editado há quase meio século, em 1979, parece que nada mudou, excepto o penteado e o bigode. É que este músico continua a ostentar um sorriso amplo, sobretudo quando as suas mãos se agitam sobre um teclado, hoje certamente mais moderno que o Farfisa que tocava em finais dos anos 70.

Nascido em Santa Catarina, na ilha de Santiago, Cabo Verde, e chegado ainda jovem a Lisboa, Pedrinho fez parte de uma geração de músicos que ajudou a dar banda sonora à vida da diáspora cabo-verdiana em Portugal nos anos que se seguiram ao 25 de Abril. Aprendeu praticamente sozinho a tocar teclados — um instrumento raro na sua ilha natal —, integrou grupos como Os Alegres e os Afrika Star e construiu uma carreira que o levaria dos bailes da Amadora, Queluz ou Lisboa às salas de espectáculo da Holanda, numa época em que a música cabo-verdiana circulava sobretudo através de clubes nocturnos, associações comunitárias e de uma vasta rede migrante espalhada pela Europa.

Entre finais dos anos 70 e a década seguinte lançou uma série de gravações em nome próprio que hoje ocupam um lugar especial na história da música cabo-verdiana produzida em Portugal: Aleluia, Nhôs Dêxa De Conta Mintira, Nhôs No Dêxa de Estupidês ou, mais tarde, Djagui Djagui revelam um autor singular, capaz de fundir funaná, coladeira, electrónica rudimentar, teclados de baile e uma imaginação melódica muito própria. Durante anos, porém, esses discos permaneceram praticamente esquecidos fora dos círculos que os viram nascer.

A história mudou quando uma nova geração de coleccionadores, DJs, investigadores e editoras começou a escavar o extraordinário património musical produzido pela diáspora cabo-verdiana. Canções de Pedrinho passaram a integrar compilações de referência como Space Echo – The Mystery Behind The Cosmic Sound of Cabo Verde Finally Revealed e Synthesize The Soul: Astro-Atlantic Hypnotica From The Cape Verde Islands 1973-1988, dois marcos fundamentais na redescoberta internacional desta música. Em 2018, a editora Mar & Sol devolveu também Aleluia ao presente através de uma muito bem vinda reedição, permitindo que uma nova geração de ouvintes pudesse finalmente escutar o álbum sem ter que desembolsar uma quantia muito avultada.

Mas talvez o mais surpreendente seja que esta redescoberta encontrou o próprio Pedrinho ainda disponível para subir ao palco. Em 2018, um concerto no Musicbox demonstrou que aquelas canções continuavam bem vivas. E, no passado mês de Março, no Tremor, nos Açores, voltou a comprová-lo. Como escrevemos então no Rimas e Batidas, “apesar da economia extrema de meios — apenas um verdadeiro teclado de baile da Yamaha e delay na voz —, Pedrinho foi das mornas aos funanás com a autoridade de quem passou muito tempo a fazer públicos dançar nas mais reputadas casas nocturnas, de Lisboa a Roterdão”. O baile foi absoluto. E talvez também simbólico: poucas figuras representam tão bem a ligação entre a memória da diáspora cabo-verdiana e a curiosidade de uma nova geração de ouvintes.

Foi precisamente à margem dessa passagem pelo Tremor que nos sentámos à conversa com Pedrinho. Ao longo de várias horas falou-nos da infância em Santa Catarina, do seminário onde aprendeu solfejo, do pai que não gostava de música, dos primeiros teclados, dos bailes que animavam a comunidade cabo-verdiana em Lisboa, dos Afrika Star, das gravações na Valentim de Carvalho, da inesperada passagem de teclista a cantor, da decisão de abandonar a música para trabalhar nos Correios e criar os filhos, e do igualmente inesperado regresso aos palcos décadas mais tarde. O resultado é o retrato de uma vida que atravessa algumas das mais fascinantes histórias da música produzida entre Cabo Verde e Portugal nas últimas cinco décadas.

No próximo dia 21 de Junho vai ser possível ver e ouvir Pedrinho tocar, desta vez como parte do cartaz do Festival Waking Life, no Crato.



A sua história na música começa muito antes dos discos, muito antes dos bailes em Lisboa e até antes da emigração. Gostava de recuar à sua infância em Santa Catarina, na ilha de Santiago. Numa altura em que a música não era propriamente incentivada dentro da sua própria família, como é que nasceu essa vontade de tocar?

Eu escolhi os teclados porque, depois da escola primária, fui estudar para um seminário. Fui seminarista. E ali havia uma escola para as pessoas aprenderem música. Mas essa escola era só para os meninos bem-comportados. Não passava de duas pessoas que podiam aprender a tocar teclado. Eu não tive essa oportunidade porque não era dos mais bem-comportados. Mas eu ia vê-los tocar. Ficava ali a olhar. E foi aí que nasceu o bichinho. Nunca tive aquela inclinação para a guitarra. Já tive guitarras, já tive outros instrumentos, porque mais tarde tive bandas e fui eu que comprei muito do material, mas o teclado foi sempre aquilo que me puxou. Eu via-os tocar, mas não dava para aprender grande coisa. Mais tarde, quando saí do seminário, comecei a mexer no órgão da igreja. Mas isto já em Santa Catarina, na ilha de Santiago. No seminário tinha aprendido uma coisa importante: o solfejo. Não digo que soubesse solfejar profissionalmente, mas já tinha alguma noção. Já tinha ouvido musical. E mesmo antes disso eu já tentava cantar, já tinha a música dentro de mim. Cantava, fazia as minhas coisas. A música já estava lá. Mas músicos na família não havia. Pelo contrário. Até fui vítima do meu pai por causa do meu gosto pela música. O meu pai não gostava de música. Era uma daquelas pessoas raras que não gostam mesmo de música. E dizia-me: “Se te apanho atrás dessas coisas da música, vais ver o que te faço”. Então fazia tudo às escondidas. Enquanto ele estava a trabalhar, eu aproveitava para ir ter com outros rapazes que já tocavam alguma coisa. Aprendia o que podia. O curioso é que eu ensinava um deles no pouco que sabia de teclado e, passado algum tempo, ele já tocava melhor do que eu. Mas isso também me serviu de incentivo. Eu percebia que tinha de continuar a aprender.

Há um aspecto curioso no seu percurso: escolheu precisamente os teclados numa época em que praticamente ninguém tinha acesso a esse instrumento em Cabo Verde. Não era uma guitarra que se podia pedir emprestada a um amigo ou encontrar em qualquer lado. Como é que se constrói uma relação com um instrumento tão raro?

Era mesmo raro. Naquela altura, em Cabo Verde, quem é que tinha um teclado? Ninguém. Ou ias a uma escola de música ou à igreja. Não havia outra hipótese. Talvez por isso hoje ache graça quando as pessoas me perguntam porque escolhi precisamente esse instrumento. Nem eu sei explicar muito bem. Só sei que era aquilo que me atraía. Punham-me uma guitarra à frente e eu olhava para o teclado. Sempre foi assim. Como não havia quem me ensinasse, comecei a pensar a música à minha maneira. Fazia um acorde e dizia para mim: “Se este acorde é assim em dó, então em ré tem de ser desta forma”. Seguia essa lógica. Fiz os acordes maiores todos. Depois comecei a descobrir os menores. Tudo pela lógica. Aprendi a pensar.

Pelo que conta, houve uma parte importante de aprendizagem autodidacta. Sem professores, sem conservatórios, sem métodos formais. Até que ponto sente que inventou o seu próprio caminho para compreender a música?

Foi exactamente isso. Eu aprendi sozinho. Ninguém me ensinou. Nem tinha quem me ensinasse. Não havia professores à minha volta. Não havia escolas onde eu pudesse ir aprender. O que havia era curiosidade e vontade. Por isso fui construindo tudo sozinho. Fazia experiências, ouvia, tentava perceber como funcionavam as coisas. Quando aprendia uma coisa, tentava perceber porque é que ela funcionava. Depois aplicava-a noutras tonalidades. Foi assim que comecei. E acho que isso me ajudou mais tarde. Porque aprendi a ouvir. Aprendi a pensar a música.

Quando chega a Lisboa encontra uma realidade muito diferente daquela que conhecia em Santiago. Havia bailes, clubes, discotecas e uma comunidade cabo-verdiana muito activa. Que cidade era essa que encontrou quando chegou?

Eu frequentava uma discoteca chamada Andaluz. Mais tarde ainda teve outro nome, Sandokan. Ficava ali naquela zona do Conde Barão. Havia lá uma banda a tocar e eu nunca lhes disse que tocava alguma coisa. Estava lá para me divertir. Ia ouvir música, encontrar amigos, passar um bom bocado. Só que o teclista deles faltava frequentemente. E eu ouvia-os a queixarem-se. Um dia perguntaram-me: “Tu também arranhas qualquer coisa, não arranhas?” Eu disse que sim. “Então senta-te aí.” Foi assim. Fui ensaiar com eles. Passados quinze dias apareceu o teclista. Eu saí. Depois ele desapareceu outra vez. Voltei eu. Quando estava preparado para tocar com eles, reapareceu novamente. Aquilo andou assim algum tempo. Até que um dia pensei: “Se este homem voltar a desaparecer, eu não saio mais daqui.” E foi o que aconteceu.

Gosto particularmente dessa história porque começa quase por acaso: um teclista que faltava frequentemente aos ensaios e um jovem músico que estava simplesmente no lugar certo à hora certa. Como se deu a sua entrada definitiva no grupo?

O grupo chamava-se Os Alegres. Até temos um disco gravado. Mas no princípio não foi fácil. Eu ouvia alguns elementos dizerem que eu era fraco. Que não servia para aquilo. Que não tinha nível para tocar na banda. Só que eu fiquei. Continuei a ensaiar. Continuei a aprender. Continuei a trabalhar. E lembro-me de uma conversa que nunca esqueci. Um dia o vocalista chamou-me e disse: “Pedrinho, quando chegaste aqui eu era dos que não te queria na banda. Achava-te fraco. Achava que não servias.” E depois acrescentou: “Agora, passados seis meses, és tu que nos ensinas como se toca esta música ou aquela. Quando queremos tirar uma música nova, és tu que explicas aos outros como se faz.” Aquilo marcou-me muito. Porque percebi que tinha conquistado o meu espaço.

Mas a verdade é que nem toda a gente acreditou imediatamente em si. Houve quem o considerasse um músico demasiado verde para aquele lugar. Como viveu esse período de conquista de espaço e de afirmação dentro da banda?

Olha, vivi-o trabalhando. Não havia outra solução. Eu sabia que não podia responder com conversa. Tinha de responder tocando melhor. Com o tempo fui aprendendo cada vez mais. Comecei a perceber mais de harmonia, mais de arranjos, mais de repertório. Quando apareciam músicas novas era muitas vezes eu que ajudava a desmontá-las e a explicá-las aos outros. As coisas foram acontecendo naturalmente. Sem dar por isso, passei de ser o rapaz de quem desconfiavam para ser alguém cuja opinião contava dentro da banda.

Mais tarde surge um grupo que acabaria por ter um papel importante na música cabo-verdiana feita em Portugal: os Afrika Star. E há um detalhe que muita gente talvez não saiba: foi o próprio Pedrinho quem lhes deu o nome. Como nasceu essa banda?

Havia uns rapazes que iam ver-nos tocar. Eram três irmãos oriundos de São Nicolau e tinham uma banda chamada Os Irmãos. Gostaram de me ouvir tocar e convidaram-me para me juntar a eles. Diziam que tinham espectáculos todos os fins-de-semana e que eu até podia ganhar mais dinheiro. Eu aceitei, mas levei comigo um amigo baterista. Precisamente porque o baterista deles estava de saída para a Holanda. Quando cheguei lá olhei para aquilo e disse uma coisa muito simples: “Já que não somos todos irmãos, vamos ter que mudar o nome da banda.” Eles concordaram. Então fizemos uma espécie de votação. Cada um escreveu num papel o nome que gostaria de dar ao grupo. O nome que venceu foi o que eu tinha proposto: Afrika Star. Foi assim que nasceu. Um dos irmãos tocava teclados, mas como eu fiquei nesse lugar passou para guitarra ritmo. Outro era guitarrista e cantor. O terceiro tocava baixo. E o baterista que eu levei juntou-se também ao grupo. Andámos muito tempo juntos.

Quando pensamos hoje nos Afrika Star pensamos também numa época muito particular da vida da comunidade cabo-verdiana em Portugal. Os bailes eram eram lugares de encontro, de convívio e de afirmação cultural. Como recorda essas noites?

Eram sobretudo bailes. Tocava-se em Lisboa, Amadora, Queluz, por essas zonas. Cobrava-se entrada à porta. Havia muita actividade. Lembro-me perfeitamente dos cartazes colados nas estações de comboio. As pessoas viam os cartazes e já sabiam onde iam passar o fim-de-semana. Era uma época muito diferente. A comunidade encontrava-se ali. As pessoas trabalhavam durante a semana e depois encontravam-se nos bailes. Havia música, dança, amizade. Era uma vida muito própria.

Durante muito tempo via-se sobretudo como teclista, arranjador e compositor. No entanto, há um episódio de estúdio que acaba por mudar completamente o rumo da sua carreira e que, de certa forma, marca o nascimento do Pedrinho cantor. O que aconteceu nessa sessão de gravação?

Eu sempre tive tendência para fazer as minhas próprias músicas. Quando os Afrika Star foram gravar um disco, dei ao vocalista uma canção minha para cantar. Já a tocávamos nos bailes e eu gostava muito dela. Fomos gravar à Valentim de Carvalho. E quando chegou a hora de gravar essa música, ele não conseguia. Tentava uma vez. Tentava outra. Repetíamos. E naquela altura não era como hoje. Não se gravava aos bocadinhos. Um elemento falhava e tínhamos de repetir todos. Ele insistia, insistia, insistia. Às tantas já estava cansado. E também um pouco zangado. Acho que parte do problema tinha a ver com as diferenças entre as ilhas. Embora sejamos todos cabo-verdianos, cada ilha tem a sua maneira de pronunciar as palavras e até a sua forma de cantar. Às tantas ele disse que não conseguia. Então eu respondi: “Está bem. Canto eu”. Mas a verdade é que eu não era cantor. Nunca pensei ser cantor. Eu tocava teclado. Fazia coros. Mais nada. Eu, sinceramente, nunca pensei em cantar. Mas fui para o microfone e gravei a música. E sabe o que aconteceu? Foi precisamente essa música que vendeu o disco. Foi aí que tudo mudou.

Foi esse o momento em que percebeu que podia seguir um caminho próprio?

Foi a partir daí, sim. Eu saí dos Afrika Star e comecei a escrever a solo. Nunca tinha pensado em ser cantor. Aquela gravação aconteceu porque tinha de acontecer. Não foi uma decisão planeada. Mas quando vi a reacção das pessoas percebi que talvez houvesse ali qualquer coisa. Continuei a compor. Continuei a escrever. E comecei a construir o meu próprio caminho. A verdade é que eu sempre gostei de criar as minhas próprias músicas. Mesmo quando estava nas bandas já tinha essa tendência. Gostava de fazer melodias, de experimentar coisas novas. Por isso a passagem para uma carreira a solo acabou por surgir naturalmente.

Quando se fala hoje da sua discografia, fala-se frequentemente de Aleluia, um disco que entretanto ganhou estatuto de culto entre coleccionadores e investigadores da música africana. Mas naquele momento era apenas o primeiro passo de uma aventura pessoal. Como nasceu esse álbum?

Eu tenho um problema com datas. Nunca fui bom para decorar datas. Às vezes até preciso de alguém ao lado para me lembrar quando foi isto ou quando foi aquilo. Mas lembro-me das pessoas. O primeiro disco gravei-o com um senhor da Rua de São Bento chamado Armando Carrondo, que tinha uma editora. Havia ali uma loja de discos e foi através dele que comecei a fazer essas gravações. Mais tarde surgiu o Aleluia. E lembro-me de o Armando dizer que o disco estava a vender muito bem. Naquela altura nós não tínhamos acesso aos números como hoje. Sabíamos das coisas porque os editores nos diziam, porque as pessoas comentavam, porque começávamos a ouvir as músicas em mais sítios. Mas sentia-se que alguma coisa estava a acontecer.

Nessa fase aparece também uma figura importante na sua história: José Augusto, da Iefe Discos. Quando ouvimos falar da música cabo-verdiana gravada em Lisboa nesses anos, o nome dele surge frequentemente. Que papel teve na sua carreira?

Foi um grande homem. Veio de Angola e abriu a Iefe Discos ali na mesma zona. E para mim foi uma pessoa muito importante. Recordo-me de ele me levar à Valentim de Carvalho para escolher um teclado. Isto hoje pode parecer uma coisa normal, mas para mim era uma coisa enorme. Entrámos lá e estavam três teclados. Eu olhei para os três e pensei logo: “Esses grandes devem ser caros.” Fiquei a olhar para o mais pequeno. Mas havia lá um senhor que me disse: “Então estás a olhar para esses e não escolhes os melhores?” Eu nem queria olhar para o maior. Acabei por escolher o do meio. Ainda hoje me lembro disso. Porque eu vinha de uma realidade em que um teclado era quase um objecto de sonho. 

É curioso ouvi-lo falar dessa visita à Valentim de Carvalho porque remete para a história que nos contou inicialmente, do rapaz que, anos antes, tentava aprender um instrumento que praticamente não existia em Cabo Verde. O que significou, para si, ter finalmente acesso a esse equipamento?

Foi muito importante. Nós hoje vemos teclados por todo o lado. Naquela altura não era assim. Quando cheguei a Lisboa e comecei a tocar mais regularmente, comecei também a ter contacto com instrumentos que nunca tinha imaginado poder usar. E aquele teclado acompanhou-me durante muito tempo. Há até uma história engraçada. Nem fui eu a estreá-lo. Um dia bateram-me à porta para pedir o instrumento emprestado porque o Paulino Vieira estava a gravar um disco e precisava dele. Eu disse logo que sim.

E foi assistir à sessão de gravação?

Fui. Lembro-me de chegar ao Musicorde, em Campo de Ourique, ao final da tarde. Eles estavam a gravar. Quando a música parou, o Paulino olhou para mim e disse: “Ó Pedrinho, não fiques preocupado que eu não vou gastar os três vinténs todos. Vou deixar algum para ti.” Toda a gente começou a rir. E eu disse-lhe: “Toca à vontade.” São memórias bonitas dessa época.

Falamos muitas vezes dos discos, mas nem sempre se fala dos estúdios onde eles nasceram. Viveu por dentro uma época muito especial da gravação musical em Portugal, trabalhando tanto na Valentim de Carvalho como no Musicorde. Que memórias guarda desses lugares?

Gravei em vários sítios, mas gravei muito na Valentim de Carvalho. Naquela altura era o melhor estúdio do país. Não havia comparação. O Musicorde tinha excelentes técnicos, como o Rui Remígio. Pessoas muito competentes. Mas as máquinas já eram diferentes. A tecnologia fazia diferença. Na Valentim sentia-se outra capacidade. Outra qualidade. Mas guardo boas recordações dos dois lados. Foram estúdios muito importantes para mim.

Quem eram os músicos que o acompanhavam nessas gravações? Quando ouvimos esses discos percebemos que havia uma verdadeira comunidade de músicos africanos a trabalhar em Lisboa.

Sim, havia muita gente boa. Eu trabalhava com músicos que conhecia e em quem confiava. Toquei com o Jaimito, que era moçambicano. Um guitarrista extraordinário. Um homem da noite. Um músico muito versátil. Chegou a tocar com o Leandro Águas. Toquei também com músicos vindos de Santo Antão. Lembro-me bem do Hermínio do Pires. Na bateria trabalhei com várias pessoas ao longo dos anos. Toquei com o Pató, que vinha dos Afrika Star. Toquei com o Cabenga, da Voz de Cabo Verde. E fui conhecendo muitos outros músicos pelo caminho. Era uma comunidade muito activa.

Quando ouvimos esses discos hoje imaginamos uma actividade intensa: bailes, estúdios, concertos, viagens. No entanto, a certa altura toma uma decisão que muitos músicos talvez não tomassem. Decide afastar-se da música numa altura em que a sua carreira parecia consolidada. O que aconteceu?

Tive cerca de dezasseis anos sem actividade musical. Mas quando digo sem actividade, é mesmo sem actividade. Não era só deixar de gravar. Deixei de tocar. Deixei de frequentar sítios onde havia música. Deixei de ir a discotecas. Afastei-me completamente desse mundo. A minha vida mudou radicalmente. Os filhos começaram a aparecer e eu queria dar assistência aos meus filhos. Ao mesmo tempo já trabalhava nos Correios. E apareciam convites para tocar na Holanda, para tocar noutros países, mas eu tinha de pensar no futuro.

Foi uma escolha entre a música e a estabilidade?

Foi exactamente isso. Eu pensava assim: uma vez ainda posso faltar ao trabalho e resolver a situação. Duas vezes talvez, também. Mas viver permanentemente nessa incerteza já era outra história. Tive de escolher. Ou ficava com um emprego seguro, ou seguia a vida de músico. E eu pensei muito nisso. Nunca tive excesso de dinheiro. Nunca fui rico. Mas também nunca passei fome. Então perguntei a mim próprio: “O que é que vais fazer? Vais arriscar tudo e viver apenas da música? Ou vais manter uma segurança para ti e para a tua família?” E optei pela segurança. Porque a vida de músico podia levar-me muito longe. Mas também podia levar-me para o outro lado. Nos Correios eu sabia que ao fim do mês tinha o meu salário. Foi assim que criei os meus filhos. Foi assim que construí a minha vida. E sinceramente não me arrependo.

Hoje, olhando para trás, sente que tomou a decisão certa?

Sinto. Porque consegui educar os meus filhos. Consegui criar a minha família. Consegui viver com tranquilidade. A música ficou adormecida durante muitos anos, é verdade. Mas nunca desapareceu completamente. Afinal de contas, aquele bichinho continuava lá.

Acreditava que um dia haveria um regresso?

Na verdade, eu não estava a pensar regressar. A minha vida tinha mudado completamente. Tinha o meu trabalho, tinha a minha família, os meus filhos. A música ficou para trás. E não foi só deixar de tocar. Deixei de ir aos sítios onde havia música. Deixei de frequentar discotecas, deixei de andar nesses ambientes. Afastei-me mesmo. Mas há uma coisa que aprendi: aquele bichinho nunca desaparece completamente. Pode ficar adormecido muitos anos, mas continua lá.

O curioso é que, enquanto se afastava da música, os seus discos começavam lentamente a ganhar uma segunda vida. Décadas depois aparecem coleccionadores, DJs, investigadores e editoras interessadas em recuperar gravações que tinham sido feitas muitos anos antes. Como reagiu quando percebeu que havia pessoas em Nova Iorque, Berlim ou Amesterdão à procura dos seus discos?

Foi uma surpresa. Temos a Mar & Sol, temos a Analog Africa, temos também um senhor em Nova Iorque que me contactou. Foram aparecendo pessoas interessadas na minha música. Mas isso aconteceu já depois de eu ter gravado o Djagui Djagui. Porque entretanto também já tinha começado a pensar novamente em tocar. Mesmo assim, surpreendeu-me. Estamos a falar de músicas gravadas muitos anos antes. Nunca imaginei que viessem a despertar esse interesse tanto tempo depois.

Como é que decidiu voltar à música?

Bem, a vida dá voltas, não é? Um dia um compadre meu apareceu-me à frente com um teclado e disse-me: “Ó compadre, toma lá isto. É para relembrares os velhos tempos”. Eu agradeci e levei o teclado para casa. Mas a verdade é que o teclado ficou lá em cima do guarda fatos, no quarto, guardado. Passava por ele, olhava para ele, e ficava tudo na mesma. Às vezes entrava no quarto, olhava para o teclado e seguia a minha vida. Até que um dia pensei: “Hoje vou ligar isto”. E liguei.

Lembra-se desse momento?

Lembro-me perfeitamente. Comecei a tocar um bocadinho durante a semana. Como os horários de trabalho meus e da minha mulher eram diferentes, aproveitava quando estava sozinho. Depois veio um sábado. A minha mulher estava na cozinha a fazer o almoço e eu pensei: “Vou dar aqui um espectáculo”. Liguei o teclado e comecei a tocar. Ela ouviu e apareceu logo. Disse-me: “Ó pá, tu já estás ultrapassado. Tu já não vais lá”. Eu não respondi nada. Fiquei calado.

Mas a história não termina aí.

Não. Durante a semana continuei a tocar. Continuei a estudar. No sábado seguinte sentei-me outra vez ao teclado. Já tinha as coisas mais alinhadas. Comecei a tocar. Ela veio ter comigo e disse: “Mas isso és tu que estás a tocar? Eu não acredito”. Então eu respondi: “Então? Não era eu que já estava ultrapassado?” A partir daí recomeçou tudo outra vez.

A sua mulher, Aldina, acaba por ter também um papel importante nesta nova fase da sua vida artística.

Sim. A Aldina cantou comigo muitas vezes. Fez coros em vários espectáculos. Aliás, já antes tinha cantado comigo. Fui dos primeiros músicos a aparecer em palco com uma mulher a cantar ao lado. Acabámos por partilhar muita coisa em palco. E foi bonito viver essa fase juntos.

Ao mesmo tempo que regressava à música, começou também a perceber que o público tinha mudado profundamente. Os bailes dos anos 70 e 80 tinham desaparecido e havia uma nova geração a descobrir aquelas canções. Como viveu esse reencontro?

Foi completamente diferente. Antigamente eram sobretudo cabo-verdianos. Eram os bailes. As pessoas dançavam aos pares. Era um ambiente muito específico. Agora encontro gente de todo o lado. Ontem, por exemplo, ouvia pessoas a falar português, inglês, francês e outras línguas que nem sabia identificar. É um público muito diferente aquele que hoje me vem ouvir. Mas a música continua a funcionar. A música continua a chegar às pessoas.

E isso ficou particularmente evidente aqui no Tremor. Havia pessoas que provavelmente não compreendiam uma palavra de crioulo e, no entanto, estavam completamente envolvidas nas canções.

É verdade. Mas a música também fala. Eu gosto de explicar algumas coisas ao público. Ontem havia uma música em que eu dizia: “Chora para quê?” Então comecei a explicar-lhes o significado. Dizia: “Chorar para quê? Vamos lá!” E, de repente, estavam todos a cantar comigo. “Chora para quê?” É bonito quando isso acontece. Porque mostra que a música consegue ultrapassar a língua.

A música cabo-verdiana também mudou muito desde os tempos em que gravou os seus primeiros discos. Hoje existem artistas que levam essas sonoridades a públicos muito vastos. Como olha para essa evolução?

Acho uma coisa muito positiva. Durante muito tempo as pessoas não percebiam esta música. Era uma cultura diferente. Uma língua diferente. Uma maneira diferente de cantar. Nós cantávamos em crioulo e muita gente não compreendia. Hoje existe outra abertura. As pessoas estão mais disponíveis para ouvir.

Apesar disso, continua a sentir que há aspectos da música cabo-verdiana que nem sempre são compreendidos correctamente?

Sim. Por exemplo, vejo muita gente a tocar funaná. Mas muitas vezes aquilo já não tem a melódica do funaná. Tem a batida. Mas a maneira de cantar é outra. Eu costumo brincar com isso. Vejo gente a cantar: “Quero funaná, funaná…” Mas a batida está: “Pimba, pimba, pimba, pimba…” E eu penso: isto já é outra coisa. O funaná tem outra maneira de respirar. Outra maneira de acentuar. Outra maneira de bater. É como eu pegar num fado e cantá-lo com sotaque de funaná. Não fica igual. Há coisas que fazem parte da identidade da música.

Olhando para tudo o que viveu — a infância em Santiago, a chegada a Lisboa, os bailes, os discos, o silêncio de dezasseis anos e este inesperado regresso — ainda sente vontade de criar música nova?

Sinto. Neste momento tenho material preparado para dois álbuns. Tenho perto de trinta músicas. Sempre fiz as minhas próprias composições e continuo a fazê-las. Estou preparado. Agora vamos ver se acontece. O Luís [Masquete, manager] está a pensar nisso e eu espero que sim. Gostava muito de voltar a gravar.

Aos 71 anos, depois de tudo o que viveu, o que é que considera mais importante?

A saúde. Sem dúvida. Quando era mais novo tocava sexta-feira, sábado e domingo. Eram muitas horas. E havia também os excessos. Era o ambiente. A gente tocava e havia sempre alguém a oferecer um copo. Depois outro. Depois outro. Às tantas olhava para a mesa e estava cheia de copos de uísque. E a gente ficava ali. Hoje rio-me dessas coisas, mas também aprendi. Aprendi que o mais importante é ter saúde. Porque sem saúde não há música, não há família, não há nada.

Há uma última questão que me parece importante. Vive em Portugal há grande parte da sua vida, trabalhou aqui, criou os seus filhos aqui e acabou por adquirir nacionalidade portuguesa. Como olha para essa identidade que junta Cabo Verde e Portugal?

Sinto-me português porque sou português. É uma coisa simples. Quando saí da minha terra e vim para Portugal, vim como português. Depois veio a independência de Cabo Verde, mas eu já estava cá. Estava a trabalhar cá. Estava a viver cá. Estava inserido nesta sociedade. Lembro-me de ter ido uma vez à embaixada tratar de documentos e só me arranjarem problemas. Às tantas zanguei-me. Disseram-me que me podiam mandar prender. E eu respondi: “Mandem. Daqui a nada aparece a SIC aqui para falar com vocês.” Aquilo caiu mal. Mas serviu para eu perceber que tinha de resolver a situação de outra maneira.

E foi aí que decidiu tratar da nacionalidade.

Foi. Peguei numa folha de papel e escrevi uma carta. Expliquei uma coisa muito simples. Quando saí de Cabo Verde era português. Nunca tinha deixado de viver em Portugal. Trabalhava em Portugal. Pagava impostos em Portugal. Criava os meus filhos em Portugal. Estava completamente integrado nesta sociedade. Passado pouco tempo recebi uma resposta. Reconheceram-me a nacionalidade. E foi assim.

E olhando para todo o caminho percorrido, parece que a sua música acabou por fazer exactamente a mesma coisa: ligar diferentes gerações, diferentes geografias e diferentes histórias.

Talvez seja verdade. Eu nunca pensei muito nisso. Só queria fazer música. Mas hoje olho à minha volta e vejo gente nova a ouvir estas canções, gente de países diferentes, pessoas que nem sequer tinham nascido quando os discos foram gravados. E isso deixa-me feliz. Porque quer dizer que a música continua viva. E enquanto a música continuar viva, eu também quero continuar a tocar.


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