Chama-se Traficante de Arte e é uma nova plataforma criativa fundada por dois pesos pesados do circuito do rap crioulo (e não só) em Portugal: Katana e Tukaz (do clã Más Ki Ás). Uniram esforços e uma vasta bagagem de experiência na música, produção, gestão artística e desenvolvimento de talentos para um canal no qual já estrearam duas rubricas, Tráfico e Preto e Branco.
“Isto é uma cena que tanto um como o outro já estávamos a pensar há muito tempo, até que às tantas decidimos juntar-nos para criar mesmo um projecto”, explica o produtor Katana ao Rimas e Batidas. “O meu sócio teve a ideia para os nomes, Tráfico e Traficante de Arte, e começámos a juntar as pessoas para realizar este projecto. Depois a ideia foi-se construindo em cima de si mesmo, cada dia acrescentamos um ponto.”
Cada episódio de Tráfico junta múltiplos convidados e tem o nome de uma planta. “O conceito assenta na utilização de plantas, flores e elementos da natureza como ponto de partida para a criação artística. Cada episódio recebe o nome de uma planta e desenvolve uma narrativa própria, permitindo diferentes interpretações, emoções, histórias e mensagens”, acrescenta Katana. “Não existem limites temáticos. Cada obra pode representar uma pessoa, um sentimento, uma vivência, uma realidade social, uma fase da vida ou qualquer conceito que inspire os artistas envolvidos.”
“Kataleya”, o primeiro avanço, divulgado em Outubro, juntou Vado Mas Ki Ás, Elji Beatzkilla, Pempas, Lil Star, Denny, Sassa e Gang MKA sobre um beat de Mister Z que levou ainda contributos dos próprios Katana, Tukaz e Vado. Já o videoclipe foi dirigido por Marcos Semedo e Orlando Podence.
O segundo episódio, “Dama da Noite”, acabado de estrear, reúne Landim, Vado Más Ki Ás, Deezy, Missy Bity, Stevão NDM, Valter Ls, Myriiam e Dsb1224, com um instrumental produzido pelos mesmos responsáveis e o vídeo a cargo do histórico realizador e videógrafo Yannick Monteiro.
Já o formato Preto e Branco, cuja estreia aconteceu em Santo António dos Cavaleiros com Stevão NDM e PMBRUTOZ, dedica-se a um registo mais cru de rap street, que se reflecte tanto na música como na estética visual — neste caso, o videoclipe foi realizado por Dejavú.
[A trajectória de Katana, um produtor-chave dos últimos 15 anos]
Mais do que um compositor e produtor com uma assinatura sonora altamente distintiva, Katana é um dinamizador e agitador cultural que faz acontecer. Mesmo que durante muito tempo fosse uma figura das sombras, longe dos holofotes e da exposição, o seu nome tornou-se uma marca reconhecível, sobretudo no circuito do rap crioulo da Grande Lisboa. Neste artigo do Rimas e Batidas contamos a sua história, publicada pela primeira vez online, numa versão adaptada do texto que figura do livro Hip Hop Tuga – Quatro Décadas de Rap em Portugal (2023).
Igor Santos nasceu em 1984 e cresceu em Santo António dos Cavaleiros, onde ainda vive, filho de pai português e mãe moçambicana. Começou a rimar por volta dos 16 ou 17 anos. Chegou a gravar algumas coisas — fazia freestyles por cima dos instrumentais dos discos de vinil que tinha em casa. De alguma forma sem rumo na vida, a mãe incentivou-o a que fosse tirar um curso de som e música — a única área de que realmente gostava. Depois de juntar algum dinheiro, foi exactamente o que fez. Porém, na escola técnica onde estudou, sentia-se o elo mais fraco. Era aquele que menos noções musicais tinha, uma vez que tinha colegas que sabiam tocar instrumentos ou possuíam conhecimentos mais aprofundados de teoria musical. Alguns, por exemplo, tinham estudado em conservatórios. Sentiu-se aquém e acabou por desistir a meio do curso.
Em casa, já tinha acumulado algum material de estúdio. Gravou um tema do músico de reggae Kalonga, que foi quem o baptizou de Katana. Depois, Igor Santos conheceu Michael Kazadi. Era um artista congolês, especializado em géneros tradicionais como o soukous ou o coupé decalé, que trabalhava com diversos músicos. Katana passou a gravar os instrumentos e as vozes enquanto ia adquirindo conhecimento e começava a mexer nos instrumentais em pós-produção. Em simultâneo, desejava comprar mais material de estúdio para se profissionalizar. Definiu um objectivo de juntar três mil euros para adquirir os equipamentos de que precisava. Nessa altura trabalhava numa pastelaria e arranjou uma pequena caixa onde pedia às pessoas que contribuíssem com aquilo que podiam para o ajudarem a seguir o seu sonho. Conseguiu angariar 500 euros.
Michael Kazadi acabou por se mudar para França, deixando Katana algo desamparado. Nessa altura, sem nada a perder e sem trabalho entre mãos, decide juntar-se aos amigos rappers de Santo António dos Cavaleiros para começar a gravar e a produzir os seus temas no seu estúdio caseiro. Afinal, sempre gostara de rap. Tumy e Phat Nigga são alguns dos nomes com quem mais colaborou nesta altura. Nesta fase, entre 2010 e 2011, o YouTube estava a tornar-se uma plataforma ultrapopular de vídeos — mas também para consumir música. Katana percebeu isso e sabia que os videoclipes, mesmo que amadores, conseguiriam potenciar as faixas que estava a lançar no seu canal. Chegaram a trabalhar com um videógrafo, mas era difícil conciliar agendas e o preço era elevado para as condições da época.
Entretanto, um primo de Katana apresentou-o a um MC que procurava um estúdio para trabalhar: o seu nome era Loreta. O rapper de Mira-Sintra tinha acabado de conquistar protagonismo com o tema “Bu Atitudi Muda”. Com Katana, Loreta juntou-se aos companheiros do grupo KBA — Oscar e Zizisso — e aliou-se a K One e Dubyfox de Santo António dos Cavaleiros. O resultado foi “Loucamenti Lucido”, lançado em 2011, com um vídeo gravado no telemóvel pelo próprio Katana, e que apesar de tudo chegou bastante longe.
Depois, Katana orquestrou “Sobrevivência”, uma colaboração entre rappers como Landim, Sanryse, Dani G, Dubyfox ou Tumy, entre outros. “Perdi Respeto” e “400 Anos”, dos KBA, também tiveram impacto. O seu nome começou a tornar-se sonante na comunidade ligada ao rap crioulo — e o telefone passou a tocar mais vezes. Colaborou com Jair & Jamba OPP e com Babydog. “Respeito”, dos Tropas di Xoke com os Wesh Wesh Family, foi um estrondoso êxito. Tal como “Nha Identidade”, mais uma vez dos KBA. Katana gravava as vozes, produzia os instrumentais, misturava e masterizava os temas, gravava e editava os videoclipes. Era um one man show com uma notória capacidade de trabalho.
Em 2012, foi convidado pela Associação Cultural Moinho da Juventude, sediada na Cova da Moura, para dar formação aos jovens que frequentavam aquele espaço. Mais do que aprender a teoria, desejavam pôr as mãos na massa — ou a boca em frente ao microfone. Em vez de fazer workshops convencionais de produção musical, Katana começou a produzir beats para estes rappers que estavam a dar os primeiros passos. Um instrumental produzido num único dia acaba por originar os versos de quatro rappers: Puto G, Nico OG, Ridell e Dani. No dia seguinte, numa altura em que Katana já tinha uma câmara de filmar, gravam e editam o videoclip. Passam a noite no estúdio, a dormir no chão enquanto o computador de Katana processa o vídeo e finalmente o podem carregar online. O que aconteceria a seguir nunca o poderiam prever. “Fronta”, assim se chamava o tema, torna-se num verdadeiro hit. Ultrapassa as paredes da Kova M e chega a toda a região de Lisboa (e não só). O facto de mostrar imagens gravadas no interior da Cova da Moura, o que não era assim tão habitual para a altura — já que falamos do início da democratização dos videoclipes —, também poderá ter contribuído para o fenómeno. Mas acima de tudo havia um claro interesse em ouvir rap de rua feito num gueto. Segundo Katana, foi das primeiras músicas portuguesas a atingir um milhão de visualizações no YouTube, o que é arrebatador a diferentes níveis.
A partir daí, Katana continuou a trabalhar com diversos artistas, sobretudo rappers que rimam em crioulo, mas não só — fazendo crescer a sua reputação. Após contribuir decisivamente para a ascensão de Loreta, do projecto Kova M ou de Babydog, Katana acompanha todo o crescimento de Vado Más Ki Ás. Durante a segunda metade da década, o rapper do bairro 6 de Maio tornar-se-ia num dos mais populares do seu circuito. Katana produz a grande maioria do álbum Vitórias & Privilégios, lançado em 2019, que acaba por ser o culminar da trajectória de sucesso de Vado. Além disso, ao longo dos últimos anos trabalhou com nomes como Plutonio, Tchapo, King Bigs, Lalas49, G Fema ou Kussondulola, além de produzir e gravar artistas de zouk, kuduro ou música tradicional africana. Katana também faz workshops de mistura e masterização e dá formação nas áreas em que trabalha. De todos aqueles que andaram consigo no curso, é dos poucos que continuam a trabalhar na música.