Criolo, Amaro e Dino estrearam o novo disco no palco do Primavera Sound Porto. Este triângulo transatlântico, (re)desenhado sobre um oceano que se quer comum, celebra o amor e uma irmandade forjada por histórias atravessadas pela dor, pela resistência e pela experiência precoce da crueldade. O reconhecimento mútuo em histórias, línguas e geografias que alguém separou, é o ponto de partida de um percurso que encontra no tambor o centro. Ou o coração. É um super-poder capaz de “transformar em amor a maior tragédia da humanidade”, por força da vontade de viver e existir neste espaço reunido de Brasil, Portugal e Cabo Verde.
O encontro natural entre música, referências e as vidas que cada um carrega, abre novas rotas num mar que já não mais separa, mas que une finalmente. Ou melhor, reúne. Como resumiu Criolo, “a gente sempre teve junto, alguém é que separou”. Mais do que uma aproximação, este projecto sugere um reencontro. É, aliás, mais uma coordenada na direção que outros artistas deixaram nesta edição do Primavera Sound.
A estreia nos palcos preservou a essência e manteve intacta a verdade que deu origem às canções. A amizade, o respeito e a admiração, mas sobretudo o talento ressoavam entre a plateia. Amaro descreveu o processo como um acto de permissão, uma coragem que não obedece às lógicas do mercado e da indústria: “a gente só se permitiu”. Foi ainda com o suor desse primeiro concerto que o Rimas e Batidas confirmou, no backstage do Primavera Sound, a satisfação e o entusiasmo com o que acabavam de concretizar.
O disco nasceu de uma amizade, de uma necessidade de estarem juntos. Depois de meses a falarem desse encontro como um espaço de respiração e refúgio, o que muda quando essa intimidade é transportada para um palco como o Primavera Sound?
[Criolo] É uma celebração desses sentimentos, dessas emoções, porque hoje a gente concretiza, realiza uma ideia. Sabemos o quanto isso é raro, o quanto isso é difícil e quase impossível de acontecer, porque as coisas ficam sempre no campo das ideias, e elas se distanciam, porque a rotina nos leva e nos conduz para outras situações. Então hoje no palco, uma coisa é pensar, criar, trabalhar, outra coisa é a gente ver que foi real. E já estamos falando, o show acabou há 10 minutos e eu já estou falando do passado.
Numa altura em que se fala tanto de identidade e fronteiras, este disco propõe uma ideia de comunidade construída através da língua portuguesa, do crioulo e de uma certa herança transatlântica. O que vos interessa mais: criar novas ligações ou fazer emergir ligações que já existiam?
[Criolo] Eu acho que primeiro a gente se reconheceu. A gente se viu no outro por trajetória de vida, por ponto de partida. Nossas histórias são muito sofridas, são muito duras. Uma coisa é crescer no sofrimento, na dor, crescer nas dificuldades. Outra coisa é desde cedo entender o que é crueldade. Então esse ponto de partida, infelizmente, é um ponto de partida como uma caixa de sal em olhos de crianças. Mas é o nosso ponto de partida. Agora, quando você nos pergunta, a primeira coisa que me vem na mente é que a gente se reconhece e vê o valor no outro. Quando a gente chega para Dino: “Dino, tem que ter você, tem que ter tua alma, tem que ter teu povo, tem que ter Cabo Verde na tua mais pura essência, naquilo que tu acreditas, naquilo que teus bisavós, avós, mãe, mamãe e papai cantam dentro de casa.” E aí vieram dois temas incríveis, magníficos, onde ele traz uma beleza e uma força! No meio do trajeto do álbum, eu vou a Recife sem saber o que vai acontecer, mas eu vou lá encontrar o Amaro. Porquê? Porque é importante ver o Amaro, porque ele é importante. Porque quando faço uma coisa, deixei de fazer todas as outras. Então naqueles dias, todos os dias da minha vida eram pra ele. Aí nasceram outras canções que transformaram tudo. Por isso, antes de tudo, a gente se reconhece e essa travessia transatlântica é antes de tudo ancestral, porque a gente sempre teve junto, alguém é que separou. Então quando a gente se encontra, a gente celebra. Isso vem na música de um jeito que a gente também não sabe; eu não posso falar da referência, porque quando passa por corpos de pessoas tão geniais quanto Amaro Freitas e Dino d’ Santiago, a gente constrói a ancestralidade e há-de se entender que ela também é feita agora. A música também é feita agora. Não somos como cumbucas vazias, nós carregamos o nosso povo, nossa história, nossa espiritualidade. Mas esses dois gênios estão fazendo música agora. E a gente pôde presenciar isso num show de uma hora, num festival que é tão disputado, que as pessoas querem tanto estar, pessoas ao redor do mundo querem cantar no Primavera Sound. Nós fizemos um show de uma hora com músicas inéditas e 10, 20 mil pessoas se conectaram com a gente sem a gente precisar apelar para nada. Não tinha telão, não tinha fogos, não tinha nada. Espero que um dia a gente tenha condições para isso, mas só tinha nosso coração. E as pessoas do Porto, as pessoas do festival, as pessoas de outros países que vieram, foram muito gentis. Eu acho que tem um tanto disso, desses jovens incríveis, Dino d’Santiago, Amaro Freitas, com uma vontade de viver terrível! E acaba nisso.
Ao ouvirmos o disco, não parece que cada um tenha trazido simplesmente o seu background para a mesa. Em que momento perceberam que estavam a criar algo que já não pertencia inteiramente a cada um de vocês?
[Amaro Freitas] Acho que tem uma fala da amiga de Dino que foi bem importante ontem. Quando ela olha pro Criolo, quando ela olha pro Dino e olha pra mim, ela percebe três pessoas muito singulares. “Não consigo imaginar vocês parecido com alguém. Vocês são muito vocês, você é Dino, você é Criolo, você é Amaro.” E aí de uma forma muito natural, sem muita burocracia, sem muito engessamento, sem muito direcionamento, a gente só se permitiu. “Bora existir? Bora.” É como se tipo: “Vamos jogar uma bola, mano, bora?” Só vou jogar, mas ninguém ficou: “Tu vai pra esquerda, tu vai pra direita, tu faz o gol, tu é o zagueiro”. Não. A música foi acontecendo dessa forma, de uma existência. Hoje existir é uma coisa bem difícil no modelo de sociedade que a gente tem. Imagina que a gente vive tudo programado e isso vai avançar pra vários lugares da nossa vida, mas também pra o lugar da indústria musical. Onde é interessante fazer aquele featuring, porque isso é o que está na moda, é interessante se posicionar desse jeito, porque isso é o que dá certo, é interessante fazer música assim, porque isso é o que vende. Então acho que conseguir ter coragem de fugir disso e de fazer um trabalho que simplesmente nasce da existência, é a coisa mais bela da união desse grupo. As referências musicais vêm de uma forma natural. Porque antes de eu saber o que era frevo, eu ouvia frevo. Antes de Dino saber o que é morna, funaná, ele ouviu isso, ele viveu isso. É como quando alguém começa falando, depois vai escrever, vai aprender a fazer a letra A, a letra B. Quando o Criolo estava escutando os sambas na casa dele, ele primeiro ouviu isso. Isso já faz parte do nosso DNA. Sem falar de uma coisa bem interessante que o Criolo diz: “é o tambor como lugar no nosso centro.” De uma certa forma, isso também está no nosso DNA. Então, quando a gente coloca pra fora, o meu piano é um tambor, a voz do Dino é um tambor, a voz do Criolo é um tambor, tudo isso soa muito percussivo. É realmente impressionante.
Parecem chegar a um território que permite diversidade de estilos: morna, funaná, batuque, funk, samba, e o jazz. Como se chega aqui?
[Amaro Freitas] Acho que, para além do jazz, é entender o que a música precisa. Eu estou a serviço disso, de fazer a música que ela precisa. E tem jazz, mas tem um pouco de cada coisa. Acho que conseguimos representar bem isso de uma forma natural, sem forçar. “Agora tem que ser jazz, agora tem que parecer Brasil, agora tem que parecer…” A gente conseguiu fazer isso acontecer de uma forma natural. Mais importante que isso.
O vosso projecto parece habitar uma tensão complexa: por um lado, a memória de uma história colonial marcada pela violência; por outro, a existência de um espaço cultural e afectivo partilhado que permite encontros como este. Como é que se relacionam com essa herança contraditória? E como se transforma essa memória em encontro?
[Dino D’Santiago] Imagina, se da maior tragédia da história da humanidade nós conseguimos transformar em amor, que super poder é esse? Ou seja, nós já não estamos a perpetuar a tragédia, porque sabemos que ela existiu e nós fazemos questão de que se perceba que partimos daí, mas até onde a música nos leva, só o amor consegue fazer isso. O que nos uniu não foi a história triste, foi mesmo a vontade de vencer, a vontade de estar junto. A vontade de nos amarmos, a vontade de olhar pra vida e dizer: “Porra, ainda há tanto para fazer”. E nós fazemos bem aquilo que fazemos, porque estamos a contar a nossa história, não estamos a mentir a ninguém. Não precisamos de anular nada, nem esconder nada, é só ser. E a prova do que está a acontecer é isso, nós só somos e aquilo acontece.
[Criolo] Acho que nós não viramos as costas para história, porque somos fruto dela, todos nós, cada um com seu ponto de partida. Acho que esse é o grande trunfo de que não abrimos mão. E quando temos oportunidade, vamos investigar. Os nossos avós, nossos bisavós, não tiveram condição de pesquisar, de investigar, de se auto-perceber. Tentamos trilhar nossa própria história também, porque quando você se dá conta do que aconteceu antes, você ao menos, para os seus bisnetos, tenta construir um caminho para que eles não vivam isso, porque esse nosso contemporâneo ainda existe com uma série de inflamações.