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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 17/06/2026

Da Noruega, com muito groove.

20 anos de It’s a Feedelity Affair: como Lindstrøm ajudou a mudar a face do disco contemporâneo

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 17/06/2026

Começar uma resposta com a frase “Jon Lord era o meu mentor” só será estranho se quem faz perguntas estiver a tentar encaixar o resultado dessa conversa numa secção de nome “Dance Dance Dance”. Mas é exactamente dessa forma que o norueguês Hans-Peter Lindstrøm, o responsável pelo belíssimo álbum It’s a Feedelity Affair, nos esclarece em relação a um ponto da sua biografia que indica que passou boa parte do seu período formativo a tocar numa banda de covers dos Deep Purple: “É verdade. Infelizmente não consegui descobrir uma das fotos que me mostram atrás de um enorme Hammond. Mas elas existem. Tanto eu como os meus amigos adorávamos os Deep Purple, Whitesnake, Rainbow e cenas assim…” Quem assim fala é hoje visto como um dos gurus máximos do renascimento do disco sound.

No panorama actual de música de dança, mais do que uma corrente dominante há uma série infindável de nichos que se estruturam de acordo com a sua relação com o passado. Mais ou menos Detroit, mais ou menos Chicago, mais ou menos electrónicas, todas estas linguagens se codificam em contextos específicos. No caso de Lindstrøm, a linguagem-chave é o disco, revolução musical e de costumes que desde meados dos anos 90 tem vindo a ser reinventada por uma série de inteligentes produtores. Das orquestrações económicas dos Faze Action (que estão de volta) à vénia sentida às tonalidades italo na obra da dupla Metro Area passando pela recente tendência de síntese de linguagens tão diversas como a dos singer-songwriters da década de 70, dos ecos baleáricos de 80 e do rock espacial que se adivinha na estética particular de nomes como DJ Harvey, Rub n’ Tug, Rádio Slave ou Quiet Village a linha condutora é o disco sound. E de certa forma, a obra de Hans-Peter Lindstrøm abraça todas estas sensibilidades, talvez por causa do percurso particular que o conduziu até ao presente. “Cresci com a pop que se tocava na rádio norueguesa entre 82 e 84. Música pop com muitos elementos pós-disco e algum hip hop do início. Depois comecei a tocar piano clássico, nomeadamente na igreja, a acompanhar os coros. Depois da minha fase heavy metal dediquei-me à fusão à la Dave Grusin e Lee Ritenour. E depois veio a minha paixão pelo country e pela folk de Hank Williams, Arlo Guthrie e Bob Dylan. Mas estes géneros não são os mais fáceis de criar quando se tem apenas um sampler,” explica Hans-Peter. “Por isso decidi tentar a electrónica.”

No caso das presentes mutações do disco, uma palavra parece descrever na perfeição a sonoridade de temas como os que Lindstrøm assina: “cosmic”. O facto de recentemente se ter descoberto o filão de experimentação conduzido por DJs italianos na transição da década de 70 para a de 80, animou muita da produção contemporânea e pioneiros da cena “cósmica” como Danielle Baldelli passaram a servir de inspiração a produtores como Lindstrøm: “Agrada-me que o rótulo ‘cósmico’ se possa aplicar a coisas tão diferentes como Nina Hagen ou Steve Reich. Admito que neste último ano fui muito influenciado pelas gravações dos sets dos djs italianos da era cósmica. Os ritmos lentos, a equalização de marca de Baldelli, a variedade de estilos…”

O percurso singular de Lindstrøm e a sua evolução como produtor encontra-se bem documentado no álbum It’s a Feedelity Affair, que reúne uma série de trabalhos que foram tendo circulação limitada em maxi nos últimos 3 anos. Como uma banda que abre os seus ensaios ao público, Lindstrøm foi permitindo que a comunidade internacional de DJs lhe seguisse os passos através da edição de maxis. Mas a reunião em CD de todos esses temas sublinha a extrema coerência do seu trabalho. E Lindstrøm acredita que a pista ideal para tocar a sua música é a da nossa própria cabeça: “Acho que a minha música soa melhor em auscultadores,” refere. “Mas também acho que se aguenta bem nos sistemas de som dos grandes clubes.” A presença regular de discos de Lindstrøm nas charts individuais de alguns dos mais importantes DJs contemporâneos diz-nos que esta última suposição está correcta. De facto, Lindstrøm parece ser um nome desejado por muitos círculos. O produtor norueguês confessa-nos mesmo que já recebeu alguns pedidos para “superstar remixes” — “que não me podiam importar menos”, admite — mas adianta que está completamente concentrado na sua própria música. Há um nome, porém, a que não resistiria se o convite surgisse: “Abba. Adorava pôr as mãos em qualquer bobine multi-pistas dos Abba.” Bem, a Suécia está aí perto…



*Este texto foi originalmente publicado no Blitz em 2006 e é hoje recuperado no âmbito do 20º aniversário de It’s a Feedelity Affair, que foi recentemente reeditado.

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