Pedrinho ao vivo no Musicbox: o baile funaná chegou ao centro

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Ana Viotti

Findo o concerto de Telectu no Teatro Maria Matos, o teletransporte Uber colocou-nos rapidamente no centro da animada pista do Musicbox que, mesmo a meio gás no que a lotação dizia respeito, estava completamente efervescente perante a apresentação de Pedrinho, uma daquelas glórias secretas de Cabo Verde que em finais dos anos 70 se estreou com Aleluia, obscuro clássico que recentemente ganhou nova vida ao estrear o catálogo da Mar & Sol Records, precisamente a entidade que orquestrou este regresso ao presente do homem de “Ainda Lhe Espero” ou “Nanda”.

Acompanhado por um trio de feras que respondem ao primeiro nome — “Edu no baixo, Vítor na bateria e Carlos na guitarra” –, Pedrinho sacudiu o pó aos velhos Roland e Yamaha que hão-de ter abalado muitos bailes da periferia nos anos 80 e reencontrou-se com o presente. Após ter visto pérolas do seu reportório incluídas em duas importantes compilações internacionais que oportunamente souberam explorar o balanço futurista de Cabo Verde — “Ódio Sem Valor” integra o alinhamento de Space Echo lançada pela Analog Africa e “Nanda” e “Chema” são dois dos momentos altos de Synthesize The Soul, proposta antológica da Ostinato Records –, Pedro Xalé viu também Aleluia ser recuperado através de um novo selo criado pelo mesmo DJ De Los Miedos que fez do catálogo da Ostra Discos um distinto depósito de pérolas dançantes.

 



O regresso faz pleno sentido: se há DJs — de Rocky Marsiano e Celeste Mariposa a De Los Miedos, Selecta Orka, Alex Figueira ou Samy Ben Redjeb — que têm pontuado os seus sets com bombas funaná minuciosamente recuperadas através de uma investigação arqueológica do passado impresso em vinil e se esse contexto até inspira a criação de novas bandas — veja-se o sintomático caso Fogo Fogo –, então os mestres do passado têm toda a legitimidade para voltarem a ligar teclados e baterias, baixos e guitarras a uma corrente que é inegável e imparável.

E Pedrinho parece estar em topo de forma: entre o funaná e uma espécie de kizomba-reggae de balanço mais arrastado, o quarteto evoluiu com segurança pelas malhas de um reportório tropical que foi originalmente cozinhado na Lisboa povoada pela primeira geração de imigrantes vindos das ex-colónias logo após o 25 de Abril. Tal como os portugueses em Paris matavam saudades da sua terra fazendo festas em centros recreativos com ranchos folclóricos (cada um com a sua sina cultural…), também pelos bairros periféricos de Lisboa se foram fazendo bailes que eram vigorosas mostras da cultura de uma diáspora que também se alargou a Roterdão ou Boston. O que Pedrinho fez ontem no Musicbox não é distinto do que teria feito há 30 anos na Pontinha ou na Cova da Piedade. O que mudou foi a plateia para que toca.

O arco íris de europeus e africanos de todas as cores que compunha o baile é sinal de uma nova realidade social, mas também de um novo alcance desta música que já não é “apenas” sustento de uma identidade particular, mas banda sonora de quem a quiser abraçar, de quem se quiser entregar ao seu balanço. E ontem, no Musicbox, ninguém se escusou à dança. Até porque, nos sinuosos e acelerados grooves do funaná existe um imperativo a que não é fácil resistir. Mais de década e meia após ter pisado palcos pela última vez e sem que outra coisa fosse possível, esta Nova Lisboa rendeu-se a Pedrinho. Aleluia!

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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