Depois de, há dias, termos aqui dado conta dos nossos trabalhos favoritos da esfera nacional colhidos ao longo de 2025, voltamos a olhar no retrovisor para listar o melhor que a readcção do Rimas e Batidas importou lá de fora.
Foi um ano louco marcado por regressos apoteóticos e uma recusa em seguir padrões, obrigando a grandes revoluções estéticas por parte de alguns artistas que já acompanhávamos de perto. O resultado mescla as diferentes linguagens musicais que tocam na alma da nossa equipa: muito hip hop, que vai da sua forma clássica à mais inventiva, mas também pop aliciada pelo risco, R&B em receitas dignas dos melhores livros de alquimia, electrónica que comunica directamente com sistema nervoso e até mesmo algum do rock mais original que a história já conheceu. São 10 álbuns cuidadosamente seleccionados e ordenados mais 20 menções honrosas num novo balanço promovido pela equipa do ReB.
[Clipse] Let God Sort Em Out
Os sinais indicavam que o Clipse tinha encerrado suas atividades. Depois de Til the Casket Drops (2009), Malice e Pusha T seguiram por caminhos distintos. O mais velho se converteu ao cristianismo e enveredou pelo rap cristão, mudando a alcunha para No Malice; o caçula seguiu nos holofotes com trabalhos consistentes (e desavenças com Drake). Passados 15 anos, eles decidem se juntar novamente. O resultado foi um dos álbuns mais consistentes do rap de 2025, Let God Sort Em Out. Ambos estão na melhor fase: um mais agressivo, e o outro, para balancear, mais pé no chão e tentando lidar com seus demônios. Fora a desenvoltura dos dois, Pharrell Williams dá um brilho com sua produção impecável, que é complementada pela presença de medalhões da música pop. Irrepreensível, do início ao fim.
— Adailton Moura
[Bad Bunny] DeBÍ TiRAR MáS FOToS
Ao sexto álbum de originais, ouvimos Benito Ocasio maduro, ponderado e mais profundo do que nunca. Isso não quer dizer que a música de Bad Bunny tenha deixado de ser convidativa, calorenta e colorida, quer dizer que ganha agora uma nova roupagem, auxiliada por peças que já fizeram furor em passerelles do passado. O projecto é uma ode a géneros musicais intemporais da sua terra natal de Porto Rico, como plena, bomba ou salsa, sendo que Ocasio consegue conjugar eficazmente a sua marca sonora com a daqueles que o antecederam, como demonstram canções como a proficiente “PIToRRO DE COCO”, a apelativa “NUEVAYoL” ou a emotiva balada de coração partido “BAILE INoLVIDABLE”. No entanto, continua a sua tradição de bangers suados e dançáveis através de temas como “VeLDÁ”, “EoO” ou “VOY A LLeVARTE PA PR”. Em DeBÍ TiRAR MáS FOToS, Bad Bunny assume-se como o embaixador de Porto Rico para o mundo. Ainda não sabemos como vai correr esta nova aventura, mas podemos garantir que terá uma banda sonora de luxo.
— Miguel Santos
[Little Simz] Lotus
Disco marcado pela ruptura com o seu amigo de infância e principal colaborador criativo, o produtor Inflo — com quem acabou numa inesperada batalha judicial —, em que Little Simz admitiu mesmo que ponderou desistir da música. Em vez disso, e felizmente para todos nós, a rapper britânica colou os cacos desta situação devastadora ao rodear-se de músicos talentosos para erguer Lotus — uma flor que desabrocha em águas lamacentas, um símbolo de resiliência e superação num período turbulento. Música catártica e confessional, em que a voz surge envolvida por nuances jazz, rock ou afrobeat, expandindo o imaginário musical e artístico de uma das melhores rappers da sua geração. Obongjayar, Sampha, Yussef Dayes, Michael Kiwanuka, Moses Sumney, Lydia Kitto, Yukimi, Miraa May e Wretch 32 são alguns dos que contribuíram valiosamente para este projecto.
— Ricardo Farinha
[Freddie Gibbs & The Alchemist] Alfredo 2
Se tivessemos que personificar este Alfredo, provavelmente seria o tipo mais porreiro da sua zona. Sempre que aparece está impecável, é culto, versátil e toda a gente o respeita pelo que vai fazendo. Personificações à parte, a história de Freddie Gibbs e The Alchemist ganhou sequela em 2025 com o segundo volume de Alfredo, depois do enorme sucesso do primeiro em 2020. Depois de uma barrigada de fettucine há 5 anos, estava na hora de nos saciarmos em terras nipónicas, desta vez com ramen. É mesmo para aí que nos leva o imaginário da dupla e isso assenta-lhe na perfeição, face à densidade culinária da iguaria que a capa nos apresenta e da variedade musical de Alfredo 2. O fettucine do primeiro volume ajustava-se à unidimensionalidade e coesão sonora do disco, mas desta vez é algo bem mais condimentado sonicamente, até porque temos um Alchemist bastante ousado nas produções, a correr mais riscos e a roçar a excelência — “Ensalada” é um dos melhores exemplos dessa irreverência. Está na hora destas delícias de Alfredo receberem uma estrela Michelin, pois são de comer e chorar por mais.
— Carlos Almeida
[Earl Sweatshirt] Live Laugh Love
Sem surpresa, Earl Sweatshirt acaba convocado à lista de autores dos melhores discos do último ano para esta (e tantas outras…) redacção. Mas Live Laugh Love é realmente um disco surpreendente, mesmo da parte de quem até certo ponto se tem pautado por uma fascinante previsibilidade. A começar por “TOURMALINE”, single único na antecipação da estreia do seu quinto álbum de estúdio a solo, que nos puxa desde logo o tapete pelas barbas. A partir daí, LLL revelou-se um luminoso lado B de Some Rap Songs, que encapsula a melhor versão de Thebe Neruda Kgositsile tanto a nível artístico quanto pessoal, muito por culpa da fase de vida em que o rapper se encontra: dar de caras com a sua cara-metade e constituir família acabou por ser, irónica e surpreendentemente, o desfecho ideal para a sua música. Agora parece estar finalmente a aproveitar a turbulenta viagem que o trouxe até aqui.
— Paulo Pena
[YHWH Nailgun] 45 Pounds
No ritual xamânico dos YHWH Nailgun, tudo é curto e denso. Ao primeiro álbum, a banda de Filadélfia provocou-nos uma daquelas trips que fazem perder a noção do tempo. São 21 minutos que, na nossa cabeça, mais parecem três horas, tal é a quantidade de informação contida no decorrer das 10 faixas que compõem o alinhamento. É cacofonia elevada a beleza rara, numa intensa disputa entre melodias viscerais de guitarras e sintetizadores, ritmos selváticos que fogem às normas e uma voz que adopta um estilo tão expressivo quanto indecifrável. No estranho, mas maravilhoso mundo que os YHWH Nailgun alicerçaram em 45 Pounds, o caos vira combustível para a dança e a sensação que se tem ao final da sessão é a de purga total. Rock experimental disfarçado de free jazz apunkalhado que veio para mudar as regras do jogo.
— Gonçalo Oliveira
[Dijon] Baby
R&B nunca é demais, mas o que não tem faltado são artistas emergentes a repetir fórmulas, a combinar elementos nostálgicos com uma produção moderna, num género que facilmente soa bem mas onde dificilmente se constrói uma identidade singular. Ora, Dijon é a excepção que confirma a regra. Autor de um R&B verdadeiramente inventivo, agradável mas desconcertante, com paisagens sónicas abrasivas de laivos hyperpop, produção lo-fi e carácter exploratório, conseguiu marcar o ano de 2025 com o seu Baby — um disco emocional inspirado na paternidade, no amor, na intimidade. É um álbum que desperta o paradoxo em torno da ideia de caos: se o caótico e a desordem conseguem soar tão harmoniosamente bem, será mesmo caos que estamos a ouvir? Que Dijon nos continue a desnortear desta forma — de preferência, com amor.
— Ricardo Farinha
[Tyler, The Creator] DON’T TAP THE GLASS
DON’T TAP THE GLASS é o registo discográfico mais dançável de sempre de Tyler, The Creator e a prova de que criar um trabalho com uma missão muito específica em mente pode dar bons resultados. Farto de ver audiências à sua frente de pescoços dobrados a olhar para os telemóveis, o rapper e produtor não aguentou ficar mais tempo calado e nem deixou o anterior CHROMAKOPIA completar uma volta em torno do Sol para nos dar uma sucessão que procura solucionar esse problema com que muitas vezes se depara em cima do palco. O resultado foi imediato: as 10 faixas de elevado índice de engajamento, onde grooves de club se cruzam com nuances soulful, abraçaram o mundo inteiro numa dança que fez DON’T TAP THE GLASS disparar até ao topo das tabelas de vendas e a ser nomeado para vários prémios, incluindo o de “Best Alternative Music Album” para a edição de 2026 dos Grammys. Seja qual for a vossa cultura ou o idioma que falam, temas como “Stop Playing With Me” ou “Big Poe” comunicam numa língua universal que não deixa ninguém indiferente.
— Gonçalo Oliveira
[ROSALÍA] LUX
Depois de El Mal Querer, enganou-se quem achou que ROSALÍA ficaria congelada naquela interpretação singular do flamenco. Depois de MOTOMAMI, desiludiu-se quem acreditou que a cantora se demoraria naquela interseção entre a Catalunha, Porto Rico, Los Angels e a República Dominicana. LUX, o seu mais recente álbum, é um gesto tão ou mais surpreende que os anteriores — e talvez ainda mais radicalmente livre. É ROSALÍA à procura de um ponto de rutura entre o erudito e o popular, arriscando uma ideia de orquestração não como complemento da canção pop, mas como inscrição da sua própria forma. Nas suas mãos, essa forma torna-se multiforme, abrindo espaço a uma viagem entre personagens, ideias e referentes de tempos e lugares distintos, justapostos pela música. Sente-se verdade na sua intenção, e talvez por isso consiga, num mesmo gesto, ser tão espiritual quanto carnal, divina quanto profana, virtuosa quanto perversa. É a rave e a orquestra, a clausura e a fuga, a limpidez e o conflito. Em suma, um registo sensível dos paradoxos humanos, e da vontade de os enfrentar corajosamente.
— João Mineiro
[billy woods] GOLLIWOG
billy woods é uma verdadeira força da natureza, igualmente à vontade a trocar barras com os mais avançados MCs do planeta underground, de Pink Siifu a Aesop Rock, ou a disparar rajadas de lucidez em trabalhos de navegantes das margens como Lonnie Holley, Moor Mother ou ØKSE. Em GOLLIWOG, essa expansiva capacidade criativa é levada ao extremo, com woods a cuspir densas e negras verdades sobre o estranhíssimo mundo que o rodeia em cima de nocturnas fantasias sónicas — com assinatura de pesos-pesados como The Alchemist, DJ Haram, Shabaka Hutchings ou El-P — dignas do mais obscuro e sangrento slasher italiano dos anos 70.
— Rui Miguel Abreu
[Mac Miller] Balloonerism
[JID] God Does Like Ugly
[Loyle Carner] hopefully !
[Mobb Deep] Infinite
[Oneohtrix Point Never] Tranquilizer
[Panda Bear] Sinister Grift
[Turnstile] NEVER ENOUGH
[Dave] The Boy Who Played the Harp
[Los Thuthanaka] Los Thuthanaka
[Oklou] choke enough
[Water From Your Eyes] It’s a Beautiful Place
[MIKE] Showbiz!
[DJ Haram] Beside Myself
[FKA twigs] EUSEXUA
[Kassa Overall] CREAM
[Saya Gray] SAYA
[Navy Blue] The Sword & The Soaring
[Makaya McCraven] Off The Record
[Pink Siifu] BLACK’!ANTIQUE; ONYX’!
[BaianaSystem] O Mundo Dá Voltas