LP / Cassete / Digital

Freddie Gibbs & The Alchemist

Alfredo

ESGN / ALC / EMPIRE

Texto de Paulo Pena

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Nas últimas semanas, a reserva para o jantar passou sempre pelo Alfredo, não só pelo sabor da pasta confeccionada por Alchemist, mas também pelas histórias do gangster Freddie Gibbs ao balcão. Alfredo, título que resulta da junção dos nomes dos dois sócios, invadiu as ruas precisamente numa altura em que estas passaram de vazias a sobrelotadas. Entre uma pandemia crónica (por enquanto) e uma revolução em ebulição, fruto dos vícios estruturais dos Estados Unidos da América, o estabelecimento abriu portas na melhor altura possível, ao contrário do que seria de esperar. Vejamos, então, os ingredientes desta receita de sucesso. 

Naquele que é capaz de ser um dos melhores anos da carreira de Alchemist (a nível profissional, pois claro), o produtor da Califórnia juntou-se, mais uma vez (recorde-se Fetti com Curren$y à mistura), a Freddie Gibbs, e junta a The Price Of Tea In China LULU mais um candidato a álbum do ano. Alc é o denominador comum nestes três discos e em Alfredo, além de estar a testemunhar uma aceitação consideravelmente superior face aos outros dois trabalhos, deu espaço a Freddie Gibbs para este se afirmar (mais uma vez) como um rapper de topo, sem a sombra da Bandana desenhada por Madlib.

Assim, pouco depois do anúncio do álbum, tivemos o single de aperitivo por volta de “1985”, com direito a planos cinematográficos, e os dois protagonistas no centro do cenário desértico a cultivar a estética subtil do “gangster americano”, já que o conceito do disco gira à volta do universo da máfia, como nos salta à vista na capa, que espelha uma inspiração/homenagem ao cartaz de The Godfather. Ao seu jeito tão característico, o chef do Alfredo conquista de imediato quem vem à prova cega deste menu. E “1985”, aliado a samples, arranca com a guitarra que indicia uma revolução. O single prometeu o êxito do disco. E cumpriu. 

A 29 de Maio deste quase-apocalíptico ano, e sem grandes cerimónias, deu-se a inauguração deste restaurante, com uma lista de participações intrigante e entusiasmante. Dois terços de Griselda (Benny The Butcher e Conway the Machine) juntaram-se a esta Cosa Nostra, além de Rick Ross e o tão cobiçado Tyler, The Creator. Não há empregados nesta casa, mas sim mestres de sala. E a viagem pelos dois sentidos – paladar e audição – adivinhava-se surpreendente e requintada. 

Depois da já mencionada “1985”, abrir o apetite, Freddie começa a largar barras, rimando ao seu estilo. Como peixe a nadar nos sete mares, Kane entrega versos como um estafeta entrega pizzas: em quantidade e com qualidade (como acontece quando sabemos onde encomendá-las). E mais do que as próprias linhas de Gibbs, o que realmente nos surpreende é a facilidade com que parece concebê-las e, consequentemente, exibi-las, sem qualquer ponta de esforço aparente, projecto atrás de projecto. Também são esses pormenores que caracterizam um MC de topo, e Freddie Gibbs não acusa fadiga nessa escalada. 



Por esta altura já “Scottie Beam” toca, a faixa que catapultou o LP para a boca do povo, nas palavras de um dos mantras dos protestos, “my execution might be televised”, que ainda hoje ecoa pelas avenidas norte-americanas, na voz de quem não baixa os braços a esta luta sem fim à vista. E conta ainda com a prestação de Rick Ross a deixar a fasquia bem alta para os restantes participantes a convite.  

Nesta deixa, assinale-se as participações dos dois reis magos de Nova Iorque, não esquecendo o terceiro, Westside Gunn, cujo último álbum contou também com a participação de Freddie Gibbs. Benny The Butcher, em “Frank Lucas”, e Conway the Machine, em “Babies & Fools”, para variar, tomaram as suas faixas de assalto para “matarem” o anfitrião, num cruzamento (desta vez, amistoso) entre famílias que tratam o crime por “tu”. Afinal, tanto Freddie Gibbs como os membros de Griselda apontam a mira das suas canetas ao negócio da droga. Nada de novo, portanto, e ficam mais dois bricks na fortaleza que esta tríade vem a construir ao longo dos últimos anos no hip hop. Para se ser o melhor há que estar rodeado dos melhores. E é o esse caminho pelo qual o rapper que recentemente assinou pela Warner Music envereda ao trazer à baila Tyler, The Creator, como o próprio atira – “Freddie sent me this shit”. E há mensagens que merecem sempre resposta.

Também Tyler tem tido um ano interessante no que a participações diz respeito, dando a título de exemplo, a sua quota contributiva a Pray For Paris, tanto nas rimas como nas batidas. Assim, à semelhança de “327” com Joey Bada$$Westside Gunn, o fundador dos Odd Future termina “Something To Rap About” numa linha sonora paralela à da referida faixa, assumindo, em ambas, um conjunto de versos desleixados, no bom sentido, e, por isso mesmo, deslumbrantes, sobretudo para quem acompanhou os primeiros passos do golf boy no rap. 

De resto, podemos contar com o mesmo Freddie Gibbs de sempre, mas cada vez mais à vontade, dominante e confiante na arte de rimar, com um armazém de versos ilimitado, e totalmente apto a explorar os cantos à casa como bem entender. Quanto a Alchemist, o veterano sempre foi conhecido por criar as atmosferas ideais para cada rapper respirar devidamente na cabine de gravação (mesmo numa altura em que a própria respiração não é um dado adquirido). Neste, explorou sonoridades inesperadas, revelando uma epifania – para os mais imaginativos – de como seria o incessantemente aguardado álbum de Kendrick Lamar, caso se confirmem os rumores de que a produção do mesmo vá de encontro à música rock. 

Por conseguinte, as aclamações deste disco como candidatado principal a melhor do ano vêm embaladas na força que o mesmo ganhou precisamente pelo contexto em que foi divulgado. Mas não deixa por isso de ser um trabalho marcante, independentemente da altura em que surge, não fossem Freddie Gibbs e Alchemist duas das figuras, nas respectivas funções, com maior destaque no actual circuito de rap “elitista”, permitam-nos denominá-lo dessa forma. Não há surpresas quando se sabe com o que se conta. Ainda assim, quando a comida é boa, não há como não repetir. E o Alfredo será sempre uma opção a ter em conta, vezes sem conta. Mais do mesmo? Sim, mas sabe tão bem…


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