Conway The Machine & The Alchemist // LULU

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Não é difícil compreender a aura que rodeia Conway The Machine, o seu irmão Westside Gunn, o companheiro de armas na Griselda Benny The Butcher e outras figuras dos subterrâneos da cultura como Roc Marciano: numa era de realidades virtuais, em que muito do rap ganhou uma dimensão quase sobre-humana, coloridamente digital, com cada super-estrela capaz de acumular números astronómicos nas plataformas de streaming a surgir como um personagem de um avançado jogo de computador ou de uma fantasiosa série animada do Cartoon Network, o que estas sombrias figuras propõem é um vigoroso antídoto de realidade para o simulacro em que todos parecemos viver mergulhados.

E Conway é, pois claro, o real deal: um claro produto de uma certa América, o último capítulo numa longa história que desemboca no complicado presente que todos conhecemos – foi encarcerado, baleado na parte de trás da cabeça ficando a sua parcial paralisia facial como aguda lembrança de uma vida de crime, de tráfico de drogas no bairro, um habitat natural de que só escapa quem prova ter a força necessária para sobreviver. E Conway é, sem dúvida, um sobrevivente que se reinventou como um rapper que não teme expor as mágoas em público e que tem Jay-Z ao lado para o ajudar a secar as lágrimas… Este respeito que este carismático rapper recebe de destacadas figuras da cultura – e Eminem é outro exemplo possível, um atento gigante que cedo tratou de segurar por contrato o óbvio talento abrigado na Griselda – traduz afinal de contas o reconhecimento do percurso trilhado. 



Nesta América em que o sistema prisional é uma indústria como outra qualquer, desenhada para apresentar lucros, só o entretenimento e o desporto parecem oferecer vias de escape para uma vida longe das ruas. Conway, como os restantes companheiros da Griselda, parece ter encontrado um caminho, mas LULU, o seu mais recente trabalho, realizado em estreia colaboração com o produtor Alchemist, deixa claro que não esqueceu ainda onde tudo começou. “I came a long way from Doat Street/ When it’s time to shoot, I don’t get cold feet/ This the life that we chose, get the white, hit the road/ Get it right through the toll, right? (Yeah)”, rima Conway em “14 KI’s”, o primeiro tema do EP que se segue a uma intro em que surge um primeiro excerto de um diálogo do filme Paid in Full, história situada no Harlem da década de 1980, quando a cocaína chegou às ruas e agitou a economia paralela. Nesse filme (datado de 2002 e com Jay-Z e Damon Dash a terem lugar na equipa de produção), Esai Morales é o actor que dá corpo a Lulu, o traficante que orienta Ace (Wood Harris) no mundo do pó branco. É ele que inspira o título do EP que assim se agarra a uma tradição funda do hip hop que há muito olha para a cinematografia de gangsters como fonte de inspiração para as metáforas usadas para descreverem a vida ingrata dos projects: de Jay-Z e Biggie Smalls a Scarface, Ghostface Killah ou, mais recentemente, Freddie Gibbs e Roc Marci, muitos são os rappers que viram nas histórias destes trágicos anti-heróis de celulóide uma certeira equivalência para as suas próprias sagas.

Conway rima como quem respira, como quem conta uma história directamente para a página, como a voz-off de um filme negro, como o espírito que assombra as consciências, como uma difusa figura que se recusa a abandonar os pesadelos, como a silhueta que no beco escuro segura a arma que vai selar a sentença. Fala de corpos amontoados, de marcas de luxo, de bricks e de armas, de matar e sobreviver, de heróis do desporto, da sina que pesa, fala do que existe, mas que poucos relatam, do que acontece, mas tantos fingem não ver. É uma crónica feia, amoral, suja e densa de um mundo tão distante quanto dramaticamente concreto, o mundo que vemos exposto em séries como The Wire. Com a diferença de que a voz de Conway carrega uma dura autenticidade que nos faz acreditar em cada palavra, em cada sílaba. Mais do que isso, até: Conway tem uma aura tão séria e tão grave que até nos seus silêncios somos forçados a crer.

E a suportá-lo há uma sinfonia assinada por The Alchemist, uma fantástica banda sonora construída com loops nocturnos e solenes, com cordas que parecem ser feitas de lágrimas e sangue, que avança em cadência fúnebre ditada por baterias pesadas como o destino final e que desenrola texturas sépia que parecem subtraídas directamente ao cinema que nos anos 70 e 80 documentava as mean streets onde a lei da bala era a única e não havia heróis porque não havia inocentes. Alchemist encontra-se hoje na mesma dimensão de Madlib, de DJ Muggs, e afirma-se como mais um daqueles mestres que condensou o lado mais cinemático da soul orquestral e daí extraiu apenas a matéria necessária para carregar os negros relatos dos rappers que existem envoltos numa sombra permanente. Quando se escuta um tema como “Calvin”, todo nervo e tensão, feito de texturas tão pesadas como a terra que se deposita num caixão, até custa a perceber como é que não assina bandas sonoras para as mais sombrias produções da Netflix, para as longas metragens que traduzem o terror que nos arrefece a espinha. Seria perfeito, certamente.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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