Earl Sweatshirt // Some Rap Songs

[TEXTO] Miguel Alexandre

Ninguém conta histórias como Earl Sweatshirt. Da sua mágoa, melancolia e frustração, ele consegue retirar, sem o mínimo esforço, algo belo: algo que aparenta ter vindo de uma pura catarse, de alguém a quem não lhe foi dada devida atenção no rompimento do hip pop desta nova década, e que agora não está interessado em ser um dos grandes. A verdade é que ao terceiro disco, Earl desembaraça-se dos fios que o prendiam ao passado e o colocavam frente a frente com os seus colegas do colectivo Odd Future: agora tem espaço suficiente para criar a arte que sempre quis, não seguindo uma certa norma específica nem deixando qualquer produtor ou colaborador antecipar cada passo dado. Em Some Rap Songs, o foco é puramente pessoal e pretende relatar uma batalha antiga que Earl tem lutado há mais de duas décadas: a batalha contra si mesmo.

Para um álbum deste género musical, a aparência é tão simples quanto o título: as faixas são curtas, raramente ultrapassando a marca dos dois minutos; as colaborações são reduzidas, e uma delas inclui os próprios pais do rapper; no entanto, a produção é dura, baseada em ritmos granulados e fortemente influenciados por samples – tal e qual como se um dos Medicine Shows do Madlib regressasse de 2010 em formato de rádio pirata procurando uma frequência do passado. Pedaços de soul, funk e disco são o fio-condutor de um trabalho que rapidamente resulta em temas assertivos e desacerbados – como a pungência de “Cold Summers” ou o frenesim de “The Bends” –, como também em momentos frágeis e esbranquiçados – “The Mint” ou “Shattered Dreams” vêm facilmente à memória. Há ainda a influência notável de J Dilla, que se verifica na maneira como Earl conduz o baixo para além dos samples e o larga quando quer dar um novo rumo às canções.

Toda esta esquematização musical advém de uma mente por si só é complexa. Diz-se que os grandes músicos são aqueles que criam através da sua dor; pois Earl já ultrapassou tal mentalidade e centra-se em fazer somente o necessário para sobreviver mais um dia. “Bad acid did damage to my mental”, canta em “December 24”, das muitas diarísticas músicas quem compõem Some Rap Songs. Temas como a depressão e a ansiedade sempre foram abordados sem qualquer preconceito ou medo e neste trabalho Earl está farto de se esconder da tenebrosidade da sua própria vida. “Peanut”, a penúltima faixa deste disco, anuncia que estes pensamentos sombrios são recorrentes e funcionam como um modo de contenção. A música por si é claustrofóbica, combinando um synth pesado com um piano fora de tom e fora de ritmo – talvez seja uma exímia representação do que se passa dentro da cabeça do artista, ou então talvez nos queira fazer passar, pelo menos uma vez na vida, por uma experiência tão sincera como horripilante. De qualquer maneira, nunca um som tão absurdo e ensurdecedor fez tanto sentido.

 



É verdade que Sweatshirt não elide que está zangado, mas em vez de disrupções enfurecidas, mais direccionadas ao nível das vocalizações, existe um sentido mais estoicista dos tempos e do ambiente a adoptar. O interessante é a postura com que assume todo este discurso de auto-negação – em comparação, de resto, extensível ao rap que se assume, genericamente, como cru ou agressivo – de uma maneira tão orgânica e desprendida de qualquer verdade superficialmente concebida ou de fácil digestão.

Mas, para além da luta contra ele mesmo, Earl luta também contra o mundo que o rodeia. Em “Azucar”, claramente das canções mais melódicas e envolventes, é-nos apresentado um cenário de “nós contra eles”: uma dualidade entre o mundo que o deixou no berço do seu desespero e um sentimento de confraternidade para os que continuam nesta guerra com ele: na incerteza, recorre a todas as mulheres afro-americanas que o construíram – “my cushion was a bosom on bay days/ There’s not a black woman I can’t thank”; na dúvida, refugia-se na família que pretende homenagear ao longo das 15 músicas. Estamos falar da mãe defensora de direitos cívicos, do pai que faleceu há pouco tempo e da lenda do jazz africano que foi o tio: todas estas figuras são cruciais no seu crescimento enquanto músico, como também enquanto ser humano. Some Rap Songs não tem a ver com singles, não tem a ver com desempenho comercial de modo a satisfazer uma gravadora faminta por dinheiro e reconhecimento – é um relato honesto que Earl fez para ele mesmo e pela primeira vez colocou-se no centro da sua narrativa.

E assim deve ser escutado, não como faixas individuais, mas como um corpo holístico, como uma pequena conversa que o rapper pede para mantermos em segredo. Este é um disco inventivo de alguém na plena das suas faculdades criativas, que continua exigente consigo mesmo, mas não se eximindo demais à auto-análise e nesse preciso instante desafiando-nos a cada gesto. No final do álbum, as guitarras entupidas ficam em segunda mão até eventualmente caírem no silêncio. O pai e o tio podem ter ido embora, mas Earl continua firme e a construir o seu caminho – e, com a ajuda dos seus colaboradores, o seu legado artístico também.

 


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