Kassa Overall não se apresenta como figura de síntese ou sequer como um mediador entre campos. Nada disso. Não há qualquer réstia de compromisso na sua música que, ao invés, parte de um reconhecimento que se foi tornando inevitável ao longo do tempo e da prática: jazz e hip hop pertencem à mesma continuidade, mesmo quando a história os organizou em compartimentos distintos. Quando o afirmou ao Rimas e Batidas no hoje já muito distante e estranho ano de 2020, não o fez como quem propõe uma tese rebuscada, mas com a clarividência de quem chega finalmente a uma conclusão: “é tudo a mesma coisa, o jazz e o hip hop. E demorei quase a minha vida toda a perceber isso”. Na mesma conversa, deixava ainda uma chave de leitura para o seu trabalho: “pode-se simplesmente abraçar tudo sem fazer distinções”.
Essa recusa de fronteiras está enraizada numa biografia concreta, tão complexa e tão singular como qualquer outra. Nascido em Seattle, em 1982, Kassa Purush Overall cresceu num ambiente onde o jazz ainda era prática viva e não apenas património cultural mais ou menos passado. A passagem pela Garfield High School inscreve-o directamente numa linhagem histórica, mas foi no Oberlin Conservatory que a tensão fundadora da sua música começou a ganhar forma. A tradição jazzística, com a sua exigência de técnica e disciplina e o seu peso histórico e cultural, cruzava-se ali com a descoberta do hip hop enquanto linguagem e ética de produção, de corte e de reorganização do som. Ao mesmo tempo, a sua experiência pessoal tornava-se mais complexa, com episódios de doença mental que marcariam profundamente a sua vida e, mais tarde, a sua obra.
Nova Iorque surge como extensão natural desse percurso. Durante anos, Overall constrói uma reputação sólida como baterista, tocando com gigantes como Christian McBride, Ravi Coltrane ou Geri Allen. Essa experiência permitiu-lhe habitar o jazz a partir de dentro, beber com músicos que aprenderam com gerações mais remotas, compreender os seus mecanismos, mas também lhe deu ferramentas para perceber como esses mecanismos podem ser deslocados, aplicados de diferentes maneiras. Há nele uma escuta constante do passado, mas isso não significa necessariamente uma reverência cega e acrítica. Essa deslocação tornou-se bem mais evidente quando começou a exercitar o seu músculo autoral. Go Get Ice Cream and Listen to Jazz, editado em 2019, apresentava já um músico que pensava como produtor, que organizava o som como matéria editável, equilibrando assim os espíritos e papéis distintos de Miles Davis ou Teo Macero. I Think I’m Good, no ano seguinte, aprofundou essa dimensão e introduziu uma camada autobiográfica mais explícita. O título funcionava como tentativa de equilíbrio, como frase dita a si próprio: “não preciso de mais nada, penso que estou bem”. A música fruto de cuidado planeamento acompanhava essa instabilidade, alternando entre momentos de clareza e zonas mais fragmentadas ou exploratórias.
As mixtapes Shades of Flu prolongaram esse trabalho num plano ainda mais livre e experimental, funcionando como espaço de montagem e de reescrita. É aí que se percebe com maior nitidez a importância do estúdio como instrumento, uma ideia que o aproxima tanto da tradição laboratorial e solitária do hip hop como da linhagem de produtores e editores do jazz eléctrico que o mundo abraçou pós Bitches Brew. Em Animals, álbum editado em 2023, esse pensamento atingiu um novo grau de complexidade. O disco reuniu um conjunto alargado de colaboradores e construiu-se como uma rede de vozes que são constantemente reorganizadas. Na coluna Notas Azuis, propôs-se uma imagem particularmente precisa desse processo, ao sugerir que a forma como Overall trabalha essas colaborações “deve ser entendida da mesma maneira que se encara o panorâmico ouvido de Teo Macero”, ou seja, como um gesto de montagem que só se concretiza plenamente no estúdio, um acto de reflexão sobre o resultado da sessão que deixa de ser ponto de chegada e passa a ser encarado como mais um ponto intermédio num processo criativo bem mais complexo. Essa ideia de montagem é central. Em “Clock Ticking”, por exemplo, a presença de Danny Brown e Wiki é reorganizada num “fantástico pedaço de hip hop desalinhado”, que ao mesmo tempo se mantém fiel a uma ética exploratória herdada do jazz. O que está em jogo não é apenas a soma de linguagens, mas a construção de um espaço onde essas linguagens deixam de ser distinguíveis. Marcus J. Moore, escrevendo no New York Times a propósito de Animals, sublinhava precisamente essa dimensão de pressão e de experiência, sugerindo que Overall trabalha sobre um campo onde os artistas vivem sob tensão constante e onde a música funciona como forma de processar essa condição. Essa leitura é importante porque desloca a discussão do plano estilístico para o plano existencial. A biografia familiar particular torna-se, nportanto, um eixo tão importante quanto o percurso académico.
No ensaio publicado na conta Substack Active Listening, Moore avança ainda mais nessa direcção ao analisar o mais recente trabalho de Kassa Overall, CREAM, descrevendo o projecto como uma forma de transformar o rap em repertório, em “jazz standards” contemporâneos, e sublinhando o modo como Overall “torna o familiar estranho e refrescante” através da improvisação e da reorganização melódica. Essa ideia de estranhamento é fundamental para compreender o disco. CREAM, editado já em 2025, não é um simples exercício de estilo e muito menos um qualquer alinhamento nostálgico com uma qualquer era dourada. Parte de um gesto simples, mas carregado de implicações: tratar clássicos do hip hop dos anos 90 – a sua era formativa – como standards no sentido jazz do termo. Ou seja, peças transversais, que toda a gente reconhece e que podem ser entendidas como terreno comum: Wu-Tang Clan, Notorious B.I.G., A Tribe Called Quest ou Dr. Dre surgem como matéria viva, passível de transformação, como património identitário. Não se trata tanto de uma vénia quanto de uma declaração: “eu sou isto”.
Aqui mesmo, nas “páginas” do Rimas e Batidas, sublinhou-se precisamente a forma como Overall evita soluções previsiveis: “Aqui, Overall faz aquilo que Coltrane fizera décadas antes: escolhe um repertório amplamente reconhecido de clássicos do hip hop dos anos 90 e trata-o como se fosse um songbook moderno. Não há ironia, nem vontade de “jazzificar” o rap como exercício académico. Há, isso sim, a decisão de assumir estas canções como standards contemporâneos, material suficientemente forte para aguentar a exposição, o despojamento e o risco da interpretação ao vivo. Realmente, o que impressiona em CREAM é a recusa sistemática do truque fácil. Em vez de reconstruir beats com fidelidade museológica, Overall aposta numa abordagem orgânica, de banda, onde o groove é sugerido mais do que imposto, e onde o reconhecimento surge muitas vezes como um eco, não como uma citação literal”. Essa recusa traduz-se numa abordagem orgânica, onde a banda trabalha o material em tempo real, abrindo espaço à improvisação e deixando que o reconhecimento surja apenas como uma réplica mais tardia.
Há aqui uma inversão histórica que importa notar. Durante décadas, o hip hop construiu-se a partir de fragmentos do jazz, apropriando-se de grooves e timbres. CREAM propõe um movimento inverso, mas não simétrico. Não se trata de devolver ao jazz aquilo que lhe foi retirado, mas de reconhecer que o hip hop já produziu um repertório com densidade suficiente para ser trabalhado como tal. Essa ideia ganha ainda mais peso quando se considera o contexto mais amplo em que Overall se inscreve. O seu nome surge frequentemente associado a uma geração de bateristas que reformulou a relação com o tempo sob a influência de J Dilla. Esse “tempo” particular, que recusa a exactidão matemática da “quantização” mecânica, essa ligeira deslocação do pulso, tornou-se uma ferramenta expressiva que aproxima a máquina do corpo e o corpo da máquina. No caso de Overall, essa aprendizagem é integrada de forma natural, sem nunca se tornar efeito.
Em palco, tudo isto se torna ainda mais evidente. A apresentação de CREAM em Portugal não deverá ser entendida como tradução de estúdio para concerto, mas como prolongamento de um processo. A banda funciona como organismo, cada músico contribuindo para expandir e transformar o material. Com Overall sentado à bateria, essa invenção tão americana como o próprio jazz, em palco estarão ainda o pianista Matthew Wong e o baixista Giulio Xavier Cetto, dois músicos com quem o autor de I Think I’m Good tem já um longo relacionamento e experiência, tendo assim desenvolvido uma comunicação quase telepática, condição necessária para a invenção instantânea. No fundo, o que Kassa Overall propõe é uma forma de continuidade que dispensa explicações excessivas. A distinção entre jazz e hip hop revela-se menos relevante quando se percebe que ambos respondem à mesma necessidade de organizar experiência através do som. A sua música não resolve essa tensão. Habita-a com clareza e com uma inteligência rara, mostrando que aquilo que parecia separado sempre esteve, afinal, a mover-se no mesmo pulso. Para confirmar, esta sexta-feira, dia 8 de Maio, na Casa da Criatividade em São João da Madeira, e no dia seguinte, sábado dia 9, no Cine Teatro da Nazaré, num concerto integrado Festival de Jazz do Valado.