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Kaps

Kambo

Mad Spit Records / 2020

Texto de Paulo Pena

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No início de 2020, enquanto um vírus se desenvolvia silenciosamente, também Kaps se metamorfoseava, mudando de forma em pleno Inverno e assumindo-se em definitivo como o “Sapo Macaco” que anunciou ser em 2018. O resultado dessa transformação foi um veneno apuradíssimo de título Kambo, expelido por esta espécie em vias de extinção, também conhecida como phyllomedusa bicolor, em que o efeito é tão simples como potente: é vê-lo a saltar de nenúfar em nenúfar – de faixa em faixa – sem predadores por perto para se confirmarem as potencialidades.

Em consonância com o timbre do rapper (a fazer lembrar a voz de Vilão nos tempos da ASTROrecords), os graves vão-se fazendo sentir ao longo da mixtape. Na linha singular de Holly Hood (com quem colaborou recentemente em “Olhos de Bruxo”, dividindo os versos com No Money, sob a produção d’O Dread Que Matou GoliasHere’s Johnny), Kaps reluz novas cores, fruto da sua metamorfose e, com as pernas mais musculadas, balança agora entre rimas em cadeia e batidas aceleradas. Munido de versos de algibeira, o MC colecciona barras em cada tema como quem preenche cadernetas, com vários cromos no bolso para troca. E nesse bolso “uma XS veio meter a pata”. 

Paço de Arcos, a zona representada, é mais um local da Linha de Cascais a ver o seu nome ser orgulhosamente mencionado, desta vez em várias faixas de Kambo. Assim, da sua casa para as nossas, o membro da Mad Spit Records atravessa a sua segunda mixtape com punchlines e egotrip, mas também storytelling, confissões e homenagens. Com uma voz identitária, mas versátil, o rapper de P.A. subiu de classe numa escola cada vez mais elitista em que se exige, por um lado, uma escrita imaculada e, por outro, sonoridades frescas e evoluídas. 

Com o devido distanciamento, dado que as comparações entre artistas se revelam sempre injustas, Kambo de Kaps cheira a Mixtakes de ProfJam (que inaugurou a Think Music, já que falámos da ASTROrecords), não só pelo que ficou evidenciado a nível lírico, mas também pela margem de progressão que parece existir. É certo que são casos significativamente diferentes, e o percurso do rapper de Telheiras tem sido um caso ímpar no panorama nacional, porém, à sua escala, e relembrando que estamos (ainda) perante uma segunda mixtapeKambo é um projecto que tem tanto de consistência própria como de futurismo especulativo. Se o disco já vale por si mesmo, o que mais faz transparecer é uma certeza de que doravante teremos um Kaps a saltar degraus acima, de dois em dois, a subir as escadas o mais depressa possível. E a Superbad pode ajudar nesse assalto aos lugares cimeiros.

Quanto ao futuro, nada podemos assegurar. No entanto, há discos que têm o poder de abrir brechas na linha do tempo, desvendando vislumbres do que poderá vir por aí. Por isso, para já, é aproveitar Kambo enquanto o veneno faz efeito. Quem sabe quando será a próxima metamorfose. Por enquanto, o “Sapo Macaco” não é uma espécie ameaçada e deixa prever mais umas quantas mudanças de pele durante esta vida no hip hop que se espera longa e próspera. Esse é o sabor do Kambo: “Frames” de quem tem “Planos” para “Chegar a Sítios”.


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