Kaitlyn Aurelia Smith: uma singular voz na electrónica

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Por muito estranho que à primeira vista (audição…) possa parecer é possível ler na presente e agitada cena de música para sintetizadores – um alargado espectro que se estende das excursões neo-new age de gente como Panabrite até à reinvenção dos sons de néon dos anos 80 em novos exercícios de culto como, por exemplo, a banda sonora da série Stranger Things – uma certa reacção contra a realidade diminuída da era digital. O novo fetichismo em torno dos sistemas modulares – que se sente de forma clara no filme I Dream of Wires, mas também na imposição de uma micro-indústria de novas marcas, como é o caso da aplaudida Addac Systems, portuguesa – pode ser encarado como o regresso a uma prática mais arcana, a uma realidade pré-aplicações, pré-smartphones, em que uma manipulação efectiva de cabos, teclas, mesas de mistura, processadores de efeitos e demais artefactos empresta à música uma dimensão mais humana.

 



Nesse contexto, Kaytlin Aurelia Smith é, claramente, um nome-chave: a artista norte-americana registou em 2016 duas importantes edições que se complementam e atestam o seu multi-facetado talento.

O mais recente é EARS, edição da mesma Western Vinyl com que lançou a sua estreia formal (após alguns trabalhos de circulação mais limitada ou em plataformas digitais), Euclid, em 2015. Há uma linha óbvia a ligar estes dois álbuns, uma consistência que aponta para uma nítida estratégia de desenvolvimento artístico.

Euclid surpreendeu por apresentar ao mundo uma artista plenamente formada, com ideias definidas, que claramente se integrava numa alargada synth scene, mas que, ao mesmo tempo, impunha de imediato uma agenda própria. Gravado com o Buchla Music Easel, Euclid procurava um lugar entre o abstraccionismo próprio desta linguagem e algo que se aproximava claramente de um terreno mais familiar e definido onde habita a ideia de canção, facto que talvez se compreenda quando se percebe que os primeiros passos de Kaitlyn foram, precisamente, nos domínios da folk ou que aponta o cantor D’Angelo como um dos seus artistas favoritos.

À Pitchfork, Aurelia Smith explicou o fascínio exercido pelo invento do recentemente desaparecido Donald Buchla: “Ele tentou criar algo que ajudasse a aceder à parte do cérebro que funciona de maneira distinta da que estamos habituados quando se usa um teclado. O Morton Subotnick, que encomendou o Buchla, queria um instrumento que oferecesse uma novidade à composição”, explicou Kaitlyn Aurelia Smith, reforçando as diferenças em relação às criações de Moog, com interfaces mais ligados à tradição e, portanto, ao pensamento formal.

Esse primeiro álbum de Kaitlyn inspirou ideias de leveza, de suspensão, de estados oníricos, algo que se pode ligar a uma infância passada em maior isolamento nas Ilhas San Juan, mais concretamente em Orcas, que se situam ao largo da costa do estado de Washington. Mas também a noção de que as propostas livres de Euclid não dispensam aproximações a esboços de estrutura que tornam algumas das peças verdadeiras tangentes à ideia de canção. Sinal do peso de uma educação hippie numa ilha isolada, em contacto próximo com a natureza, e com uma certa tradição musical.

 



 Essa é, nitidamente, uma direcção aprofundada em Ears. Desta vez, há um diálogo entre o Buchla Music Easel e o Synthi da EMS, entre o Arp 2600 e o Korg Mono/Poly, mas também, a flauta, os clarinetes (a cargo de Rob Frye) e os saxofones. E entre todos esses geradores de ruído e aquele que é talvez o mais versátil de todos os instrumentos – a voz humana, que Kaitlyn usa como mais uma fonte de texturas e cores para as suas vívidas pinturas sonoras.

“Envelop” é um belíssimo exemplo da direcção perseguida em Ears: sopros que surgem sequenciados como se fossem mais uma máquina, a voz que ambiciona a ser mellotron natural, e a electrónica que parece ar a circular entre as folhas de uma floresta. Kaitlyn Aurelia Smith funde tudo de forma perfeitamente natural, em aproximações cada vez mais claras à estrutura convencional das canções, com uma atenção extraordinária aos detalhes, às pequenas texturas que nos envolvem como um manto, e que efectiva e muito literalmente nos transportam para um outro lugar. Apesar de discreto, este trabalho é um dos pontos altos de 2016. Para além de tudo, Kaitlyn tem obviamente a jogar a seu favor o facto de não ser uma mera revisionista – nada na sua música nasce de desejo de mimetismo de experiências passadas – a electrónica aqui é um veículo para expressar ideias, não a própria estrada que se pretende percorrer.

 



Como se explicou anteriormente, Ears é já o segundo registo de Kaitlyn Aurelia Smith em 2016. Sunergy, edição da incrível RVNG Intl. na sua série FRKWYS (que promove entusiasmantes encontros entre criadores, como aconteceu anteriormente com Robert Aiki Aubrey Lowe e Ariel Kalma, por exemplo), é o documento de um diálgo de Aurelia Smith com a veterana Suzanne Ciani que se viu relançada no presente após o seu material de arquivo ter sido alvo de oportuna atenção da Finders Keepers de Andy Votel.

Sunergy é, claramente, um outro tipo de registo. Kaitly Aurelia Smith reclama aí a sua posição numa longa e distinta linhagem de mulheres na electrónica, posicionando-se ao lado não apenas da veterana Ciani, mas de outras pioneiras como Laurie Spiegel. É o Music Easel da Buchla que une estas duas mulheres, que o usam para traduzir essa força primordial da natureza que escolhem para título do álbum.

Ciani é, pois claro, uma histórica executante desse instrumento, como muito bem o demonstra o recente e extraordinário álbum Buchla Concerts 1975 que Andy Votel lançou há alguns meses. “Reencarnei como uma pessoa Buchla”, explicou Ciani recentemente à Quietus, referindo-se ao facto de ter andado arredada da electrónica nos últimos anos, devotada à música clássica, até que Votel a “religou” a este universo (toda a entrevista é bastante reveladora do pensamento e método de trabalho da dupla e por isso totalmente merecedora da vossa atenção).

Juntas, Ciani e Aurelia Smith criam um mágico e intrigante trabalho, feito de camadas que se entrecruzam de uma forma realmente orgânica. Este é um diálogo de ruídos, de ideias, de sensibilidades e de gerações, mas também um claro gesto de partilha, de uma abordagem mais intuitiva – feminina, pois claro – a uma música que, paradoxalmente, foi no passado tantas vezes vista como fria e cerebral e declaradamente masculina. Talvez por se tratar do Music Easel e dos sistemas de Buchla, há muito menos de cerebral do que de emocional em jogo nesta música incrível e envolvente como um confortável manto. Cheio de luz, pois claro.

 



Kaitlyn Aurelia Smith já por várias vezes confessou gostar de trabalhar em colaboração e muito do seu percurso tem sido feito, como discutiu com a Pitchfork, com aprendizagem feita com tutores. Ou seja, Kaitlyn busca conscientemente luma ligação à história, procurando no diálogo com artistas com mais ampla bagagem do que a sua (conta apenas 29 anos, afinal de contas) uma forma de expandir as suas próprias ideias. Em Maio passado, assinou “Now.Now” em colaboração com Mark Pritchard, tema que saiu digitalmente na Warp e em que Kaitlyn voltou a usar a sua voz para oferecer à experiência um carácter distintivo, mas que resulta também já numa espécie de singular assinatura. Que tenha sido capaz, num campo tão difuso quanto este, de firmar uma marca em tão pouco tempo e com uma discografia ainda tão contida, é um sinal inequívoco das suas capacidades. Há aqui um futuro brilhante a desenrolar-se, certamente.

 


 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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