Immunity: É impossível ignorar a magnum opus de Jon Hopkins

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Steve Gullick

O início dá-se com o barulho das chaves a abrir a porta do estúdio de Jonathan Hopkins em Londres. A porta bate e nós ficamos na expectativa: em 2013, quando clicámos pela primeira vez no play, não sabíamos que estávamos prestes a descobrir um dos melhores álbuns desse ano. A colheita desses 12 meses foi bastante proveitosa:

  • Yeezus – Kanye West
  • Doris – Earl Sweatshirt
  • The Golden Age – Woodkid
  • AM – Arctic Monkeys
  • Nothing Was The Same – Drake
  • Acid Rap – Chance The Rapper

No espectro da electrónica, muito prolífica nesse ano, Jonathan também encontrou acompanhamento nos seus pares:

  • Random Access Memories – Daft Punk
  • II – Moderat (junção entre Apparat e os Modeselektor)
  • Psychic – Darkside
  • Overgrown – James Blake
  • Settle – Disclosure
  • R Plus Seven – Oneohtrix Point Never
  • Tomorrow’s Harvest – Boards of Canada
  • Amok – Atoms For Peace, projecto mais experimental de Thom Yorke dos Radiohead.

Há uma grande variedade de propostas de trabalhos nesse ano dentro de um género que está desde o surgimento dos Kraftwerk com um pé no grande público e o outro nos nichos da indústria musical. Assim, encontramos explorações muito diferentes num campo da música que consegue, efectivamente, ser muito variado, tendo todas em comum a produção baseada no computador e nos sons sintetizados. Nesse terreno, temos, por um lado, música em que reinam os sintetizadores no contexto mais indie tanto da pop alternativa de James Blake como do experimentalismo de Thom Yorke, enquanto que noutro se adivinha a batida como foco principal, caso dos Disclosure, referência na música de dança que agradou — ou invadiu novamente — todas as rádios e pistas de clubes. Sem Daft Punk nunca chegaríamos a Settle; Random Acess Memories é a nostalgia da música disco e funk dos 70s/80s e vem com a abordagem mais analógica na produção do duo francês, sem esquecer a sua imagem de marca da utilização intensiva do vocoder, que pontua todos os seus registos fonográficos. Moderat têm uma abordagem mais melódica da techno de Berlim, também mais lenta – daí a presença de Apparat – que traz a voz para um conjunto de canções variadas, desde a melancolia suave da nostalgia à distorção pulsante da crítica social.

Num ano de produções tão afirmantes e frontais destaca-se a “crueza” de Earl e Drake (cada um à sua maneira, claro); o magnânimo estético de Woodkid e o magnânimo espiritual e egocêntrico de Kanye; a estética definida e marcante de Arctic Monkeys e Daft Punk; e ainda a sensibilidade e força de Blake e Moderat. Cinco anos depois do lançamento, onde é que colocamos Immunity?

 



[Música ambiente, minimalismo e Brian Eno]

Todos dirão que o momento-chave para o descolar da carreira de Jon Hopkins foi a relação com Brian Eno, pioneiro da música ambiente. E essa mudança dá-se tanto pela qualidade na sua produção como pelo resultado do seu trabalho na indústria, uma vez que co-produziu Viva La Vida or Death To All His Friends dos Coldplay com o seu mentor.

Vindo de álbuns como Contact Note e Opalescent, a música de Hopkins seria, em teoria, muito precisa e relacionada com a concepção original da música ambiente de Eno, como uma forma musical “tão ignorável como interessante”. A capacidade de ouvirmos e naturalmente não nos apegarmos ao que estamos a ouvir é normal. Já apontando a uma direcção do que o produtor quereria fazer, ainda havia muito por onde explorar.

Hopkins e Eno terão sempre tido entre eles um grande afastamento estilístico, apesar da importância óbvia do mentor. A música ambiente seria muito baseada na imprevisibilidade e no desenvolvimento estrutural mínimo. No ano passado, em entrevista com a Pitchfork, Eno definia a sua ideia do que pensa ser a música ambiente: “Em vez de uma imagem ser uma perspectiva estruturada, onde se espera que o teu olho vá em certas direcções, é um campo, e tu vagueias sonicamente por esse campo”. Hopkins retém um pouco disto, mas leva-nos por uma narrativa, ainda que abstracta por vezes. A existência de ritmo na sua música, ligando-se estilística e formalmente à música de dança – com incidência no house e no techno –, destoa daquilo que o Eno projecta conceptualmente para as suas criações. A música torna-se menos ignorável… o que é bom, porque não há nada para ignorar em Immunity.

 



[O álbum e a imunidade de Hopkins]

Onde Hopkins se diferenciou dos seus pares nesse ano, e não só, foi na criação dum som mais orgânico. A vida que há na sonoridade que orquestrou neste álbum é impressionante e demonstra bem o trabalho que coloca em cada timbre presente. A sensação e o trabalho dão-se também pelo uso de sons acústicos – menos convencionais – para a criação dos instrumentos. Compensa a demora e a insistência, porque a experiência de ouvir Immunity torna-se muito envolvente. Existe muito espaço dentro dos sons. É pensar este álbum como a expansão da ideia de Brian Eno da música ambiente ser um campo, mas imagina-lo como sendo as profundezas duma gruta infindável ou de um voo ao espaço. O jogo de timbres de “Open Eye Signal” é um bom exemplo e aí sentimos o espaço a ser alterado pela manioukação dos parâmetros do sintetizador principal ao longo duma peça estruturalmente muito progressiva.

O minimalismo da música de Hopkins está no desenvolvimento harmónico e na insistência com a repetição. É no repetir do bombo ou da linha melódica que a música se intensifica, que notamos os pormenores de cada acontecimento. Em Insides, estas ideias já estavam presentes, mas não tão bem concretizadas. É um excelente álbum, mas mais tenro, mais hiperactivo e sedento de finalidade.

Immunity vai beber muito a Untrue de Burial, e sentimo-lo em “Collider”, a faixa da saída à noite. A escuridão inerente nos dois álbuns tem pontos de contacto; Burial mantém-se nas profundezas, Hopkins eleva-se no ritmo pulsante da techno que marca este registo. É música para dançar num club com pouca luz, deixando-nos com espaço para reflectir sobre questões existenciais no after

Sendo o seu álbum mais club-friendly, o aprendiz de Eno nunca descura aí momentos mais puros, em que a transcendência não se dá na embriaguez da noite, mas na sobriedade de largar a tensão, de criar espaço para respirar. O contraste em Immunity acontece na passagem para o primeiro momento que não tem elemento rítmico, “Abandon Window”. A capacidade de criar um trabalho coeso neste jogo com a tensão também é o que diferencia Hopkins de outros produtores da mesma estirpe.

O desenvolvimento das músicas do produtor é, por norma, muito apelativo, tendo um “motivo” principal que empurra a música e camadas que se adicionam gradualmente. É a aumentar a dinâmica, a adicionar timbres, a encher o espectro (e a apagá-lo de seguida) que temos a narrativa de cada tema.

Se a música ambiente às vezes falha a segurar a atenção, a música do produtor britânico não nos deixa fugirmos para lado nenhum. Mais: obriga-nos a ficar colados, sempre à espera do próximo “susto”, qual filme de supense. A imunidade de Jon Hopkins estará sempre no etéreo, na beleza das suas composições, e na vontade de não criar música que nos deixe indiferente. “Immunity”, faixa que dá nome ao disco, é a junção destes elementos; mas é principalmente a prova de que Hopkins não merece ser ignorado.

 


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