Ghost Wavvves // Internet Club

[TEXTO] Francisco Couto 

É inegável que o surgimento da World Wide Web transformou por completo o mundo. O acesso à informação tornou-se mais simples, e conseguimos através de um simples clique saber o que se passa no outro canto do planeta. Conseguimos conviver diariamente com pessoas de quem gostamos e que estão longe de nós, e criar laços com outras de terras distantes que nunca vimos. A monopolização das indústrias artísticas dissipou-se para abrir portas a milhares de músicos, ilustradores, designers, escritores e demais criadores que podem expor as suas obras a uma audiência quase infinita sem nunca saírem dos seus quartos. As compras online tornaram-se frequentes, seja em lojas situadas no outro lado do globo, seja a pessoas que se querem ver livres de coisas que nós (julgamos que) queremos. É impossível imaginar como seria o mundo sem Internet para as gerações que já nasceram rodeadas por este mundo virtual que nos engole e nos faz passar três horas a ver vídeos no YouTube sobre o Steve-O — só de pensar no fim desta realidade alternativa causa-nos suores e calafrios. São também inumeráveis os aspectos negativos que a Internet nos trouxe, desde a dissociação do mundo real, à intensificação das dinâmicas sociais que nos pressionam constantemente a mostrar o quão perfeita é a nossa vida e nos obrigam a criar máscaras sob as quais nos escondemos, passando ainda por todo o universo deep web que, sinceramente, é melhor nem começar a explorar.

Na música, a Internet teve um enorme impacto no início da segunda década do século XXI, quando artistas como Black Banshee, James Ferraro, Vektroid e Oneohtrix Point Never começaram a explorar a estética virtual, de forma tanto visual como sonora, criando assim géneros como vaporwave e o hypnagogic pop, que juntam musicas dos anos 80 pitched down com sons super sintetizados e batidas 808 que criam uma sensação tão nostálgica quanto futurista. Se isto parece aleatório, a estética visual não lhe fica atrás: glitch art, estátuas romanas, palmeiras, cyberpunk, anime, efeitos VHS, tudo misturado por vezes numa só imagem, que por si só define bem o quão longe se consegue ir, navegando entre géneros que se colam agressivamente uns nos outros, criando assim algo novo.

É nesta realidade que aparece Ghost Wavvves. O músico português acaba de lançar o seu primeiro álbum, Internet Club, após várias experiências em formato EP que exploram estilos como o ambient e o trap, sempre a roçar o cyberpunk, e editados, grande parte das vezes, pela editora Monster Jinx. Neste projecto, o músico explora as várias facetas da Internet, incorporando-as na própria estética sonora das faixas, com passagem pelos videojogos e os memes (também eles um fenómeno que, apesar do conceito provir do livro Selfish Gene de Richard Dawkins, atingiu outros níveis de propagação com a Internet), no qual cada um dos oito temas que compõem o álbum exploram um conceito específico que incorpora o mundo virtual.

Assim que fazemos “Login” no álbum, é possível perceber o caminho que vai tomar. Sintetizadores que flutuam entre o (quase) 8 bit com melodias de videojogos e o smooth jazz, acompanhados por uma batida 808 que oferece mais intensidade às faixas e contrastam com a sonoridade etérea das componentes melódicas. “Cybersex” aumenta a velocidade e introduz-nos progressões mais uplifting, e “Softwaregore” relembra-nos, em certos aspectos, os primórdios de Aphex Twin e Orbital, que se fundem com a batida trap que percorre o álbum. De seguida surge “Good Doggo”, a banda sonora perfeita para explorar o universo dos wholesome memes. “Computer Dreams” repesca sonoridades synthwave e hibridiza-as com malhas que parecem saídas dos primeiros jogos de Pokémon ao dobro da velocidade, seguindo uma “Spambots” que introduz pequenos toques g-funk à sonoridade. O álbum ganha voz na penúltima faixa, “Internet Connection”, através de Mike El Nite, um dos rappers portugueses que mais representa a cultura Internet, mas que ficou um pouco aquém, deixando a sensação que a sua contribuição não ofereceu tanto como aquilo a que nos tem habituado. Porém, ainda nos remete para um callback a “Mambo Nº1″ com “Eu sou o Mike El Nite, boy, you know what I mean”, mas atira-nos logo para o aqui e agora: “E ‘tou com o monstro roxo na piscina de lean”. Podendo-se afirmar que não é o seu verso mais brilhante, não deixa de cumprir a sua missão.

A sonoridade mais sombria chega-nos na última música, “Darknet”, que conclui o álbum com uma energia negativa que nos remete rapidamente para os mistérios da deep web, e que ao mesmo tempo cria uma divisão com a parte superficial da Internet que foi retratada nas restantes faixas.

Internet Club é um disco coeso, com uma produção exímia e uma atenção notável aos pequenos detalhes que preenchem os beats e os explora de formas variadas sem parar, transitando de ideia para ideia numa fracção de segundos. Peca talvez pela falta de pausas e de momentos mais calmos para o ouvinte poder respirar, o que, no entanto, não é necessariamente mau, dado que o conceito do álbum é abordar uma realidade que não nos dá descanso e nos deixa exaustos física e emocionalmente, fluindo numa velocidade estonteante. Portanto, o que se perde na experiência auditiva acaba por ter benefícios a nível conceptual: desde a primeira música que mergulhamos no universo virtual de Ghost Wavvves, e este mantém-nos imersos nele até ao fim, sem nos dar hipóteses de respirar. E não há nada que crie essa sensação tão bem como a Internet.


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