E ao segundo dia fez-se luz. E sombra. E clamor. E ressonância. E harmonia e dissonância. E ruído e nada. O Profound Whatever (PW) é um festival como poucos. Feito por e para músicos, em primeiro lugar (talvez…). Feito também para todas as pessoas que não temam o desconhecido, para aqueles e aquelas cuja curiosidade supere o medo do quarto escuro, para quem já sabe que vai gostar do que nunca ouviu (e que talvez nunca mais volte a escutar) e ainda para quem não sente o ímpeto de partilhar nas redes aquilo que, no momento, pede atenção máxima — coisa incompatível com o manuseamento de um smartphone. Não são muitas, essas pessoas dispostas a esta entrega, mas os festivais, como os homens e as mulheres, não se medem aos palmos. Nem sequer às palmas: há momentos em palco que geram mais estupefacção, espanto e incredulidade do que aplausos. E está tudo bem. Aqui entre nós — que ninguém nos ouve… — esses são, aliás, os melhores momentos.
O programa da passada sexta-feira prometia (e cumpriu…) mais quatro concertos: o primeiro e o último com generosos ensembles; os dois do meio, de escala humana mais reduzida, mas igualmente expansivos nas ideias, na intensidade e na capacidade de maravilhamento. A verdade é que a fasquia musical esteve invariavelmente alta, e essa é outra marca distintiva deste festival.
Em primeiro lugar, na noite de sexta, subiram ao palco do auditório d’A Moagem os extraordinários Made of Bones: Duarte Fonseca (bateria), João Clemente (guitarra) e Nuno Santos Dias (teclado Waldorf), que nesta ocasião se fizeram acompanhar pelos igualmente incríveis Luís Vicente (trompete) e José Lencastre (saxofone alto). Em Dezembro do ano passado, o Bandcamp da PW disponibilizou Jardim Botânico, álbum colaborativo com José Lencastre; e já este ano, em Janeiro, confirmou-se o extremo carácter prolífico da editora com o lançamento do reverso dessa medalha, Jardim Vertical, registo em que os Made of Bones contam com os préstimos de Luís Vicente. Ou seja, estes músicos não caíram ali de pára-quedas, como se costuma dizer: ambos têm no seu vasto currículo a experiência de tocar com os Made of Bones. Mas, lá está, de certo modo até caíram, porque ainda não tinham feito o que ali fizeram no arranque da noite da passada sexta-feira.
Há muita música que nos oferece respostas para muita coisa, mas a música dos Made of Bones parece antes confrontar-nos com perguntas: é mais inquisitiva do que afirmativa, e isso torna-a deveras interessante. Neste concerto, os dois solistas convidados revelaram sintonia absoluta, embora seja impossível dizer se isso assentou em preparação prévia (quase de certeza que não…) ou se foi simplesmente resultado do animado jantar anterior (quase de certeza que sim…).
A dada altura, o som do trio reduziu-se a uma espécie de pontilhismo aural e ensaiou-se uma passagem feita apenas de microsons, soando os Made of Bones como geradores de uma transmissão de dados para algum lugar distante do cosmos. Se a ciência tem banda sonora, será algo deste género, com certeza. Os solos de Nuno Santos Dias no Waldorf foram igualmente extraordinários: este instrumento tem uma personalidade tímbrica muito particular, e Santos Dias sabe usar essa característica a seu favor, com um toque delicado e muito cerebral. E Luís Vicente, quando recorre à surdina, consegue fazer com que o seu trompete soe como se estivesse a ser tocado numa dimensão paralela; quando abdica dela e usa a mão para efeito semelhante, a música parece saída de uma gravação dos anos 30. Mas para os Made of Bones é facílimo passar desse registo para a Nova Iorque de 1983, com um momento de angularidade pós-punk a fazer lembrar o que bandas como os DNA de Arto Lindsay ou os Material de Bill Laswell por lá fizeram. Um primor que rendeu um dos melhores concertos de todo o festival, mantendo a fasquia sempre muito elevada.


O concerto seguinte, no espaço do museu, foi igualmente especial. Matthieu Ehrlacher apresentou o apropriadamente intitulado Blow My Mind Until The Light Becomes Sound, um solo absoluto em que usou saxofone barítono, efeitos e a própria voz para nos enredar numa ambiência espiritual e profunda. Talvez por sugestão do espaço — o museu preserva maquinaria da antiga fábrica de moagem de cereais que ali existiu —, o tom profundo do barítono pareceu evocar o ruído surdo da indústria pesada de outros tempos. Usando loops como base para a sua progressiva escultura sonora, Matthieu Ehrlacher ergueu ali uma densa nuvem harmónica que fez todos os presentes levitarem um bocadinho. Já perto do final, mantendo na base alguns sons de espessura ambiental, usou um microfone e a própria garganta para emitir sons de respiração profunda, que processou em tempo real. A isso voltou a adicionar o saxofone e, de repente, o exíguo espaço do museu transformou-se numa ampla catedral. Magia, certamente.


O terceiro concerto da noite pertenceu ao duo Água em Estado Sólido, mas o que ali se escutou, no foyer d’A Moagem, foi menos gelo do que fogo, mais líquido do que sólido. João Lucas usou um antigo gravador de fita reel-to-reel para dar vida a loops analógicos que foi processando em tempo real. Usou igualmente um gravador de cassetes e múltiplos efeitos cuidadosamente interligados. Aliás, a “mesa de trabalho”, onde também se encontrava a parafernália electrónica de Jesuíno Simões — modular, efeitos, um pedaço de carril ferroviário que foi sendo percutido e processado — apresentava um caótico emaranhado de fios multicolores e, aos olhos de qualquer leigo, poderia parecer que tal confusão jamais daria resultados musicais. Só que deu. E foram tão surpreendentes quanto interessantes. A dada altura, um beat de hip hop obscuro despontou do meio da bruma harmónica, dando ao duo um bem-vindo toque de illbient. Impossível não pensar também nos decaying loops de William Basinski. O concerto terminou de forma simbólica, quando Lucas pegou numa tesoura e cortou a fita que rodava com o último loop da noite. Nada que um bocadinho de fita-cola não resolva, não se preocupem. Na natureza electrónica nada se perde…


A segunda jornada terminou onde começou, no auditório, com a apresentação dos incríveis Gold Mother, que têm na declamadora Margarida Azevedo a sua figura central e incluem ainda Luís Guerreiro (trompete e electrónica), Jorge Nuno (guitarra eléctrica), Hernâni Faustino (contrabaixo) e Flak (bateria). Uma mulher em frente de quatro homens: a força de tal imagem é muito clara. Que qualidades tem um walking bass que o tornam a base perfeita para suportar uma voz declamada? Não fazemos ideia, mas que resulta, isso é óbvio. Um som que nos remete imediatamente para um qualquer filme de detectives. Só que não há mistério para resolver aqui, a não ser aquele que, diante dos nossos olhos, parece conduzir ao fim da civilização. Os textos falatam da condição feminina, da violência imposta aos corpos, do apocalipse das cidades submetidas às bombas da gentrificação. E a tudo isso a música respondeu e reagiu com caos inteligente, gritos de dor e liberdade, numa teia de texturas, ritmos, melodias e atonalidades que nos empolgou a todos. No final, os aplausos efusivos foram justificados. Uma forma de catarse colectiva perante o que ali se testemunhou. A salvação, parece assegurar esta mãe dourada, ainda é possível. Há que acreditar.

