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Fotografia: Duarte Gameiro
Publicado a: 16/05/2026

"Música sem merdas".

Festival Profound Whatever’26 — dia 1: uma comunidade que resiste

Fotografia: Duarte Gameiro
Publicado a: 16/05/2026

Que som faz uma comunidade que se expressa nos seus próprios termos, alheia ao burburinho da “civilização”, distante dos mercados e das tendências, imune aos efeitos das culturas “de massas”? Fará muitos sons, certamente, dependendo do lugar que reclame como seu, mas aqui, no Fundão, no coração da Cova da Beira, esse som é o da surpresa, do espanto, o som que se adivinha nos intervalos do silêncio e que emana de uma genuína e invisível vibração colectiva e cooperativa. Umas vezes faz “zing”, outras “sshhhhuuum” outras ainda “beep” ou “cabum”, mas, o que importa é que, depois de tudo somado, esse som é o de uma ideia de sintonia que prova que ainda é possível resistir à sedução do abismo.

A quinta edição do festival promovido pela Associação Profound Whatever arrancou na noite de quinta-feira com quatro muito distintas apresentações noutros tantos espaços d’A Moagem, Cidade do Engenho e das Artes. Acontece que estes espectáculos tiveram lugar já depois de jantar, ou seja, logo no arranque, o programa da Profound Whatever impõe um desafio sério, independentemente do avançado da hora. Exige estamina e atenção total, mas recompensa-nos com o inesperado, com invenção instantânea e manifestações sucessivas de liberdade criativa absoluta. E com algum humor de pendor surreal e absurdo que é afinal de contas uma forma de comunicar com este presente estranho que atravessamos. Rir também é bom e a vida não se leva apenas franzindo o sobrolho.

Logo no foyer do espaço que recebe esta qualquer coisa profunda há uma primeira surpresa: uma banca de discos, com CDs, vinil e cassetes em segunda mão onde, sem que nada o fizesse prever, nos aguarda uma cuidada selecção de folk, com uma série de registos de Martin Carthy, Planxty, Steeleye Spain, Richard Thompson e umas apetitosas compilações da Topic. Quando o universo nos dá limões é sempre boa ideia cortar um bocadinho de casca para aromatizar a bebida fresca que temos na mão, certo?

Há um nítido ambiente familiar neste evento e uma entreajuda permanente entre todos os membros do colectivo Profound Whatever: quem não está no palco a tocar, está na mesa de som a garantir que todos os níveis estão equilibrados (ou desequilibrados se for essa a ideia), e quem não faz nenhuma dessas coisas tem tempo para preparar a sala onde todos comem do mesmo tacho. O burburinho da democracia em movimento é coisa bonita de se escutar.



Já depois do jantar, foi ao Colectivo Profound Whatever que competiu a abertura do festival com a apresentação no auditório d’A Moagem de “Doze Formas de Cair”, uma espécie de banda sonora para a pintura Doze Provérbios do mestre flamengo Pieter Bruegel. A apresentação do grupo a cargo de Jesuíno Simões merece uma nota: é sua a voz que se escuta antes de cada performance ter início, ocasião em que um desprendido humor se cruza sem pedir licença com a nomeação dos músicos em palco e restantes informações únicas. Como por exemplo uma leitura dos estatutos firmados em acta no fomento formativo da Associação sem fins lucrativos que agora carrega nos ombros o peso da Profound Whatever. Este festival de “música sem merdas” não se leva demasiado a sério e isso é coisa saudável, obviamente.

Com cada um dos provérbios a ser projectado na tela gigante que servia de fundo de palco, os músicos — Catarina Silva na trompa, Gabriel Neves na guitarra oitava, Gonçalo Alves na bateria, Nuno Jesus na guitarra (inteira…?), Nuno Santos Dias no piano e o próprio Jesuíno Simões na voz e alguma electrónica — tocaram de costas voltadas para o público, não como gesto de distanciamento performativo, mas como posicionamento ideal para deixarem que cada uma das imagens do mestre pintor lhes inspirasse os passos musicais que depois foram sendo orientados por Gonçalo Baptista, o maestro de serviço. A música soou altamente abstracta, mas também tinha densidade narrativa, parecendo traduzir ditames como “Encher o poço depois do bezerro se afogar”, uma espécie de versão flamenga do nosso “meter trancas na porta depois de casa roubada”. Nesse caso, no acto V, a música de repente resolveu-se em vincada síncope, com groove fluído e piano tão oblíquo como as estratégias de Brian Eno. Mais tarde, para o acto IX, a banda propôs algo semelhante a um dub cubista, com a tarola encharcada de efeitos capazes de reequacionar o tempo e o espaço. Coisa linda de se ouvir que espero eu que venha a ser editada já que aparentemente todos os concertos são gravados.



Seguiu-se o trio AVC do trompetista João Almeida, do vibrafonista Duarte Ventura e do baterista António Carvalho. Tanto Almeida como Ventura carregaram na electrónica como forma de moldarem e transformarem a personalidade dos seus respectivos instrumentos, com o trompetista a socorrer-se de técnicas estendidas para – lá está… – estender as suas capacidades expressivas. A abstracção foi permanente, bem como a recusa de cedência a um pulso rítmico óbvio, com cada um dos músicos a revelar total empenho na fuga a qualquer fraseado de idioma mais reconhecível. Um concerto deveras intrigante, porque faz pensar a que lugar chegaria este Trio AVC se a performance durasse mais uma hora pelo menos. A conferir em ocasiões futuras.

No espaço museológico d’A Moagem, que mantém viva uma memória industrial que assume uma  presença física imponente, no meio de máquinas de moer grão e juízos de outros tempos o Quarteto Nó de Catarina Silva (uma vez mais em trompa), Manuel Guimarães (em teclado electrónico que foi piano e outras coisas), Mário Rua (bateria) e Paulo Chagas (em flauta, partes de flauta e saxofone soprano). Uma espécie de ensemble de câmara em absoluto regime free. Um espanto, na verdade: quatro músicos de excelência totalmente concentrados na exploração do desconhecido, expedição em que embarcaram com a segurança de quem domina na perfeição os respectivos instrumentos e, em simultâneo tem uma muito generosa capacidade de escuta do outro, com cada frase a comentar ou complementar o que os restantes músicos fazem. E, por vezes, alguns deles optaram pelo silêncio, opção que permitiu a Chagas, por exemplo, alguns dos mais profundos e belos momentos da apresentação, sobretudo aquele em que Guimarães transformou o seu teclado num gerador de um pulsar grave que funcionou como moldura para o vívido retrato melódico que a flauta desenhou. Espantoso pensar que este foi só o terceiro concerto deste ensemble que nasceu ainda trio – sem Catarina Silva ao início – no âmbito do MIA, o encontro de música improvisada de Atouguia da Baleia. Mais uma vez, esperemos que rapidamente haja uma edição da música que instantaneamente inventaram juntos. Dedos cruzados.



A noite terminou numa nota muito distinta com a apresentação no pátio exterior d’A Moagem de Leiria Existe, Mas Só Um Bocadinho, espectáculo em que os textos do satírico e surreal Mário Henrique Leiria, autor de Contos do Gin Tonic, foram interpretados – e essa é a palavra certa – por João Figueira e Pedro Santos, no que foram acompanhados por João Clemente à guitarra. Calhou que esta performance tivesse lugar neste festival, mas caberia igualmente num qualquer festival de teatro. Humor, dicção perfeita, domínio total da subtil arte do timing para fazer rir, capacidade de trazer os textos para o presente – falou-se muito de fascismo e nazismo durante a performance – e um encaixe total com a expressiva guitarra de Clemente. Deu até para uma breve interrupção da actuação para se cantar os parabéns a Pedro Santos que ontem completou 46 anos. O festival que arrancou em família, terminou em convívio igualmente familiar com calor humano suficiente para nos fazer esquecer que a Primavera no Fundão traz cerejas, mas nem por isso chega logo envolta em temperaturas amenas. A aguardente de alfarroba também ajudou quem a quis beber.


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