Festival do Nunca

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [ILUSTRAÇÕES] Abel Justo

A mudança de paradigma(s) obriga a uma constante reflexão e um update regular do nosso olhar perante o mundo. A informação chega-nos em camiões vindos de todo o lado e o filtro tem que estar bem aguçado para não nos perdermos. Alguns exemplos de acontecimentos (mais ou menos relevantes, your call) que nos levam a reflectir: Bots a escrever hard news nos Estados Unidos da América; presidentes com um percurso duvidoso a usarem e abusarem do seu poder; streaming a mudar radicalmente a forma como se ouve música; e, a base para este artigo, a subida ao topo do rap e r&b, géneros musicais que, em conjunto, destronaram o domínio de décadas do rock’n’roll.

Recorrendo exclusivamente ao hip hop, a passagem de artistas importantes (e no seu auge) por Portugal fez-se em dois momentos: em 2011, Kanye West trouxe ao Sudoeste TMN o álbum My Beautiful Dark Twisted Fantasy, trabalho seminal que faz parte dos 500 melhores de sempre segundo a Rolling Stone. Cinco anos depois, Kendrick Lamar também passou por Portugal, mais concretamente pelo Super Bock Super Rock, assinando o que foi unanimemente considerado o melhor concerto de 2016, uma oportunidade única de testemunhar a força de um artista em topo de forma e que trouxe consigo um dos mais aplaudidos álbuns desta década, To Pimp a Butterfly.

O agendamento de concertos não é tarefa fácil: o dinheiro envolvido, as tours europeias e o afastamento de Portugal do centro do continente europeu são alguns dos factores atribuídos à falta de nomes como Eminem, Frank Ocean — que esteve muito perto de actuar em Barcelona no ano passado… — ou Drake, mas os valores, segundo publicações como a NME ou a Consequence of Sound, não estarão assim tão longe de bandas como Foo Fighters, Arcade Fire ou Black Keys, nomes que o público português já conseguiu aplaudir em várias ocasiões.

Nos últimos anos, os festivais portugueses abriram algum espaço para alterações — The Weeknd, Future, Pusha T, Kendrick Lamar, Kelela –, mas, no fundo, só o Super Bock Super Rock ousou compactuar com o que se faz lá fora — menção especial para o Vodafone Paredes de Coura e o Sumol Summer Fest. O cenário para 2018 não é de mudança: Jack White, Queens of the Stone Age, Pearl Jam, Yo La Tengo, Franz Ferdinand, Muse e The Killers são nomes confirmados para actuações em festivais durante este ano. Para já, o equilíbrio é feito por artistas como Skepta (VPC’18) e Joey Bada$$ (SSF’18). E, apesar dos maiores festivais portugueses não acompanharem os grandes lá de fora — o Coachella abraçou o hip hop e o r&b –, a esperança ainda não morreu: o SBSR está longe de fechar o cartaz e o NOS Primavera Sound ainda não tem alinhamento. Dedos cruzados.

Reflectir, repensar e revolucionar. Pôr em perspectiva e mudar. Uma ideia, uma chamada de atenção, um projecto, um exercício imaginativo. (Ainda) não é um festival Rimas e Batidas. Na verdade, é mais um delírio febril. Senhoras e senhores: o Festival do Nunca.

 


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No cartaz que podem conferir em cima, os artistas representam vários ideais, mas partilham algo bastante importante: nunca pisaram solo português para actuações a solo. Nas e Jay-Z são excepções: o primeiro esteve com Damien Marley no Pavilhão Atlântico e o segundo deu um ar da sua graça num espectáculo de Beyoncé no mesmo local.

O Festival do Nunca acontece em Portugal. Onde? Exacto. Quantos dias? Dois. Quando? Exacto. O fundamental aqui é não deixarmos o chão. O primeiro palco é o G.O.A.T. (Greatest Of All Time) e conta com Eminem, Outkast, MF Doom, Nas, Jay-Z e Common, nomes incontornáveis que continuam a influenciar os novos “jogadores”. Marshall Mathers LP, Aquemini, Madvillainy, Illmatic, The Blueprint ou Like Water for Chocolate são pedaços de história.

Olhamos para o lado direito e encontramos os G.O.O.T (Greatest Of Our Time). Irreverentes e trendsetters, o espectro é maior no alinhamento deste palco. Tyler, The Creator e Earl Sweatshirt são “pais” dos Brockhampton, e Drake, A$AP Rocky e J. Cole são, de formas diferentes, artistas que conseguiram criar o seu som enquanto subiam as tabelas. Flower Boy, I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside, a trilogia Saturation, Nothing Was The SameLONG.LIVE.A$AP e 2014 Forest Hills Drive não são, para já, clássicos — só o tempo o dirá –, mas ocupam um espaço especial no que de melhor se fez nos últimos cinco anos.

Not Famous Enough? Poderá ser discutível. Vince Staples, Danny Brown, Rapsody, Jonwayne e Westside Gunn & Conway estão num nível altíssimo e estariam no palco G.O.O.T. se tivessem o apelo pop e a base de fãs dos nomes referenciados no parágrafo acima. Summertime ’06, Atrocity Exhibition, Laila’s Wisdom, Rap Album Two, Flygod e G.O.A.T. são trabalhos para rodar em loop — não são de fácil digestão, mas as pérolas estão lá.

Não saíram dum concurso de televisão manhoso, mas são estrelas com um percurso criado a pulso. Stormzy, Loyle Carner, Wiley, Jorja Smith e Little Simz representam o melhor da música saída do Reino Unidos nos últimos anos. Gang Signs & Prayer, Yesterday’s Gone, Playtime Is Over, Project 11 e Stilness In Wonderland são os projectos em que os protagonistas britânicos mostram do que são feitos.

Lovers And Friends é dedicado ao amor. Smino, Bryson Tiller, Frank Ocean, D’Angelo e Childish Gambino foram (ou vão ser) a banda sonora para momentos apaixonados. É uma certeza. blkswn, Trapsoul, Channel Orange, Voodoo e “Awaken, My Love! podem causar um novo baby boom. Mantenham-nos afastados, se fizerem favor.

Do amor para o caos e a virilidade. Trapper’s Delight com Travis Scott, Young Thug, Migos, Gucci Mane e 2 Chainz e está garantido o famoso turnt up. Birds In The Trap Sing McKnight, Jeffery, Culture, Everybody Looking e Pretty Girls Like Trap Music contêm aquele banger incontornável que vos vai obrigar a perder o controlo. Foram avisados…

Fechamos o cartaz com um plano relaxado que convive com Lovers & Friends. Daniel Caesar, 6Lack, Kaytranada, SZA e The Internet completam o alinhamento de Netflix and Chill. Freudian, Free 6Lack, 99,9%, Ctrl e Ego Death em modo random e a melhor festa do ano está dada.

Em suma: muitos dos artistas mais fascinantes do momento ainda não pisaram território nacional. Promotores, agentes e divulgadores: o Festival do Nunca também é vosso. A primeira fica por conta da casa.