VINCE STAPLES // Summertime ’06

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Em 2011, uma não-creditada Now Again fabricou um CD de circulação limitada, promocional, que nem sequer teve distribuição convencional nas lojas. MRR-ADM-Archive reunia 12 faixas – “1ne”, “2wo”, “3hree” e por aí adiante – de funk descarnado, laboratorial, instrumental e futurista. Apesar da data desse CD plantar essa música já nesta década, na verdade as produções da dupla formada por Michael Raymond Russell (MRR) e Adam Douglas Manella (ADM) datam da segunda metade da década anterior e parte delas já tinham surgido num 10 polegadas de circulação igualmente microscópica com data de 2008. O que é que tudo isto tem que ver com Summertime ’06, estreia de Vince Staples na Def Jam? Bem, a faixa “Birds & Bees”, com beat assinado por DJ Dahi – tipo que já produziu para gente tão distinta quanto Kendrick Lamar, Freddie Gibbs, Schoolboy Q ou… Madonna – é basicamente um loop levantado de “5ive”, faixa originalmente incluída no tal CD dos MRR-ADM e que até incluía uma participação de Gonjasufi. Este facto é relevante para se perceber que coordenadas animam quem tem por responsabilidade erguer as bases sonoras por onde evoluem alguns dos mais destacados MCs da actualidade.

DJ Dahi foi, juntamente com Clams Casino, recrutado pelo produtor No I.D. para desenhar o cenário sónico por onde evoluem as rimas de Vince Staples. E para um rapper que parece projectar as suas palavras com régua e esquadro só mesmo beats que soam como se fossem cozinhados em laboratório poderiam fazer sentido. As produções de No I.D. – como as de Dahi ou Casino – são esquálidas, funcionais, abstractas e repletas de espaço. Tal como o funk de laboratório que os MRR-ADM imaginaram poder disparar para o futuro há cerca de uma década. No I.D., que guiou Kanye West e tem ajudado a manter a Def Jam de pés bem fincados no presente, entende que um novo tipo de rapper exige um novo tipo de produção, mas o pensamento de subtracção e colagem que sempre sustentou a produção hip hop continua a fazer sentido. Nem tudo tem que ser gerado por synths virtuais no Live e o sampling continua a fazer pleno sentido (e não há-de tardar muito para ouvir beats desenhados para a principal liga americana a partir de samples retirados de algumas das muitas reedições de library italiana que por aí andam e que são igualmente fontes inesgotáveis de futurismo esparso e electrónico…).

 


 


Vince Staples: e então? Se Kendrick Lamar observa o mundo ao nível da rua, se Drake se isola do mundo na penthouse, se Earl Sweatshirt – camarada de Vince – reimagina o mundo dentro da sua própria cabeça, então o homem de Summertime ’06 prefere retratar o mundo como quem olha pelo viewfinder de uma câmara: sem filtros, sem metáforas, sem floreados. Por isso mesmo a sua perspectiva é singular e tão fria e desprovida de bagagem emocional como os beats parecem indiciar: “I tell the truth no lies“, diz ele em “C.N.B.”. Tal como uma câmara, portanto: a verdade sem mentiras. Sem disfarces. Sem filtros. “The sheets and crosses turned to suits and ties / In Black America can you survive?“, questiona, ainda no mesmo tema. Em “Lift Me Up”, Vince continua a sua análise fria da realidade: “Hey I’m just a nigga until i fill my pockets / And then I’m Mr Nigga, they follow me while shopping / I feel like Mick and Richards, they feel like Muddy Waters / So tell me what’s the difference?“.

 


 


Esta frieza de Vince Staples terá tudo a ver com o seu crescimento em Ramona Park: filho de um Crip preso quando ainda era pré-adolescente, o rapper tem razão quando garante que nunca o ensinaram a ser um homem. Ou a ter emoções. A sua visão é por isso tão clínica quanto a fórmula desenvolvida pelos MRR-ADM ou os beats agora cozinhados por No I.D., DJ Dahi e Clams Casino: só arestas aguçadas, superficies lisas, mensagens directas, flows que parecem desprovidos de humanidade. Mas Vince Staples não é nenhum robot. Apenas rima o que vê sem sentir qualquer espécie de distanciamento moral quando fala de dinheiro, de drogas ou de crime. Porque a vida pode ser assim mesmo, tal como aparece no viewfinder da câmara. Mas há um momento diferente: o tema “Summertime” que dá título ao seu álbum e onde Vince se permite um momento de desarme e canta, “This could be forever baby” e depois explica de onde vem todo o seu desencanto: “Me teachers told me we was slaves / My mama told me we was kings / I don’t know who to listen to / I guess we somewhere in between / My feelings told me love is real / But feelings known to get you killed“. Afinal de contas, o amargo na voz de Staples é apenas o remédio que se toma para se sobreviver. Porque a vida lá fora pode mesmo ser como a câmara mostra: sem filtros, sem sonhos e sem moralismos. Algures no meio disso tudo.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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