O festival Causa|Efeito, que surgiu em 2023, ano de celebração dos 50 da Universidade Nova de Lisboa, implantava-se como uma afirmação da linguagem musical de vanguarda e inovação, linhas compartilhadas de actuação dessa mesma academia, como apontava o slogan — “O novo jazz na Nova”. Passaram três anos e a iniciativa manteve-se. Mesmo com o programador Pedro Costa, desde o primeiro ano em empenho, tomando cada edição como se fosse a última. Elsa Peralta, antropóloga da casa e actual pró-reitora para a Cultura, Impacto Social e Comunidades, reafirma a satisfação da universidade em ver enraizado o festival. Assume até uma vontade de o ver acontecer noutros espaços — fora do Campus de Campolide onde tem tido lugar desde a sua criação. Nas primeiras edições, aconteceu no Auditório da Reitoria — espaço onde aconteceram marcantes primeiros encontros musicais. A exemplo lembramos o da trompetista Susana Santos Silva e o contrabaixista Carlos Bica.
O jazz está e muito na vanguarda dos tempos, quando, e precisamente num contexto académico, se presta a recombinar quem toca com quem. Músicos e músicas em permutações frequentes e constantes a ensinar que a norma social de relacionamento preferencial em grupos fechados muito ganha em ser desafiada. Chamemos-lhe uma expressão cultural em exogamia. Contrapondo-se, em inequívoca evidência, à endogamia ainda sistematizada no meio académico. O Causa|Efeito tem proporcionado esse primeiro palco e lugar de encontro inaugural de cruzamento de linguagens, quer entre músicos, assim como nos instrumentos. Trazendo propostas em programas que estimulam a nova escuta e o pensamento daí resultante. Um confronto no salutar de vozes e ideias e que encontram pela primeira vez — numa vontade desde a primeira hora do programador — a Sala de Esgrima do Colégio Almada Negreiros (CAN). Um espaço comum, de partilha, como referido pela pró-reitora. Na vez dos espadachins agora surgem “duelos”, em duos instrumentais.
Razão maior para, e na abertura do alinhamento dos concertos, seja dado lugar para a música de enorme profundidade e ancestralidade vinda do duo Nils Økland e Sigbjørn Apeland. Da longínqua atmosfera escandinava, esta combinatória liga os violinos de Økland ao harmónio de Apeland. A conjugação de sonoridades que arrastam ou trazem dentro paisagens e estados de alma por imediato. Ficámos a saber que neste harmónio — instrumento de teclado, como um órgão e que a propulsão ressoante das lâminas é feita com um fole — as pernas são tão ou mais importantes que as mãos. Um instrumento que tem estado ao serviço da ópera — veio por empréstimo temporário do Teatro Nacional de São Carlos. Apeland elogia a sua superior sonoridade em redobrada satisfação. Quando se escuta em amparo de harmonias junto ao violino de Hardanger de Økland, a serenidade e lonjura dos tempos instala-se e contamina a plateia na Sala de Esgrima. Momentos sublimes de rara beleza sonora povoam o lugar. É como se fossemos enviados para um espaço de cantigas de inocência e experiência, como na melhor ideia de William Blake. Já havíamos escutado uns laivos destas (im)possibilides conjugadas quando Calcutá (em harmónio de chão) se fez acompanhar da campânula de Catarina Marques em seu dia, e noutro contexto. Tanto essa campânula como o violino de Hardanger trazem um mistério no som, como cordofones da família da viola d’amore e da viola da gamba. Økland presta-se a explicar que há mais de uma vintena de formas de afinação, algumas usa-as no decurso do concerto. Mas o fascinante aqui (como nessa campânula) são as suas cordas simpatéticas — que vibram por simpatia ressoante. Um concerto de registos vários, com peças distintas (tonalidades sonoras): umas dançantes, outras pairantes, mas todas deslumbrantes. Escutaram-se de perto fiordes noruegueses ou as pinturas de Lars Hertervig. Num registo em arco temporal, indo das peças transcritas de música antiga ao livre improviso, mas onde subjaz uma ideia de serena e inabalável beleza. Quisemos trazer, para voltar a escutar, o registo que gravaram e editaram em Glimmer (2023) — uma obra sublime. Melhor começo? — dissemos “impossível” em uníssono.


De volta à Sala de Esgrima — apenas beliscada na sonoridade (vivida em plena acústica natural) pelas vozes incautas que se aproximavam à chegada da escadaria do átrio de acesso, para uma estreia mundial. A premiere do contrabaixista Wilbert de Joode e o trombonista Steve Swell. Na apresentação, Costa fez questão de relembrar Swell como um dos músico que a então recém-criada editora Clean Feed gravara e editara com The Implicate Order at Seixal (2001), encontro do trio de Swell, o baixista Ken Filiano e o baterista Lou Grassi, com os músicos portugueses Rodrigo Amado e Paulo Curado. Era o início de uma prodigiosa aventura. Assim como começam as belas e improváveis estórias à partida. Há sempre uma centelha, uma ideia, uma tentativa. Aqui surge uma mais, vinda da mente curadora de músicos que é Pedro Costa. Entre o som conjugado de Joode e Swell cabe um oceano em perspectiva. Notável como se encaixam de imediato, entre as cordas activadas em cerdas ou bordejadas do contrabaixo, e a propulsão circense das varas do trombone. Há ressaltos sonoros, pulsares fortes que amainam em seguida no discurso que chama a atenção — pela inventividade e pelo fascínio de onde surge o som. Swell tem recursos quase ilimitados, vemos isso a acontecer por diante, quando faz soar a campânula do trombone por arrasto no chão ou quando toca em escape directo prescindindo da passagem do ar com efeito campanulado — a meia vara. É caso para referir quando Swell poem a boca no trombone o mundo escuta em redor. de Joode mostra a sua robustez no ataque ao contrabaixo, indo das ilhargas às cordas em afirmações complementares do tempo e do ritmo que necessita esta música. Vão apresentando cada improvisação como novos temas. Na linha da ironia que lhe associamos de pronto com a nova música produzida. Podia ter sido um encontro de duas vozes tão vincadas no jazz de cada um. Só que não, houve um certo terceiro elemento a querer e a nascer de facto ali, num bom esgrimir do primeiro confronto.


Uma vez fora, e no pátio adoçado ao CAN, uma outra inovação das possibilidades neste Causa|Efeito’26. O palco demonstrou-se num tanto em desacerto para uma sonoridade em estreia nacional do encontro da baterista Tracy Lisk com Steve Swell. Voltamos a uma roupagem melodica que muito vive de momentos de sussurros ora da campanula — que volta a fazer-se ouvir em modo de arraste pelo chão — ora da palavra dita de Swell. Teriam beneficiado mais de uma presença no interior, na intimidade sonora da Sala de Esgrima. Tudo fica a dever-se à muito boa iniciativa que se aponta em interpretação no programa, em querer deslocar o jazz de um nicho e disposta a traze-lo para um lugar verdadeiramente aberto — os concertos da noite têm nesta edição acesso gratuito e fazem-se num ambiente como que de esplanada, entre bar em funcionamento e uma ideia muito de clube jazzístico, onde a harmonização da música se faz de copo na mão.
O registo de Lisk e Swell é luxuriante nos detalhes, entre o sopro inventivo e num registo mais melodioso do trombone e os fluxos rítmicos estruturados em tonalidades densas e tronantes das baquetas sobre os tímbalos. Lisk é parte integrante da quase infinda London Improvisers Orchestra, pela qual passaram quase meio mundo de músicos europeus da vanguarda do jazz. Swell é também um músico mais que prolífico, onde consta serem menos aqueles com quem lhe falta tocar que os restantes com quem terá tocado. Este duo é de rara aparição, ainda no passado recente, e antes do perecimento do saxofonista Gary Joseph Hassay, se encontraram em formato de trio. O palco é um lugar de escuta exclusiva para este diálogo a dois. Uma música servida de ecoares vindos da bateria para uma melhor descrita sonoridade poético-musicada. O trombone de Swell adquire um registo menos escutado em expressões que o aproximam da palavra confessada. Encontraram um tempo incomum e suspenso para o seu diálogo, numa prestação que foi demasiadas vezes acometida por outros falares em curso no pátio, nem sempre dispostos à melhor e devida escuta. Havemos de os saber ter de uma outra e mais acertada maneira — oxalá não tarde muito.


Para desfecho de dia, e em plena sintonia com o espaço envolvente, bem mais apropriado a um ambiente de clube, estava o trio de Brad Jones, formado para além do contrabaixista pelo saxofone alto de John O’Gallagher e a bateria de João Pereira. O dado relevante à partida é que é uma estreia mundial de algo que se tornou possível por Jones e John O’Gallagher serem dois expatriados do jazz nova-iorquino a residir em Portugal. Ambos americanos e dois académicos do jazz. Jones é professor na Universidade de Columbia (Nova Iorque) e O’Gallagher encontra-se a preparar um livro que resulta da sua dissertação de doutoramento “Analyzing Pitch Structure in Late-Period Recordings of John Coltrane: Interstellar Space and Stellar Regions”. Estamos perante conhecedores e transcritores da música enraizadada na tradição de vanguarda. E se assim adicionarem a veia coltraineana que invarávelmente Pereira tem em si — recordemos a magnânima evocação que fez com Toscano e Tristão de “A Love Supreme”—, parece ficar quase tudo entendido quanto à conjuração deste trio. Mas é a música escrita por Jones que se apresenta. Temas sucedidos pela coesão da linguagem do contrabaixo que se mostra em tantos momentos um instrumento solista, que convida ao sopro da voz de O’Gallagher — exuberante sem perda de elegância; e ao desprendimento envolvente das baquetas de Pereira que nos faz recordar Max Roach trazido à contemporaneidade. Quando Jones apresenta o tema “Camiflage” parece querer dizer muito do que lhe vai no estímulo — o encanto, a dedicação, e a roupagem através do que melhor veste o jazz de hoje trazido na herança da tradição. Uma evidência de como se pode cativar na modernidade sem romper com o passado, que também foi feito de vanguarda. Uma estreia que trouxe sinais claros de pertinência e que seguramente verá mais palcos por diante. Um ponto mais altos do novo jazz e do efeito (imediato) vindo desta causa — de fazer da prática cultural um novo agrupar fora do grupo social habitual, promovendo a diversidade dos sons e das ideias.

