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Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 23/02/2026

Um músico com a bússola alinhada no risco.

Bruno Pernadas na Culturgest: a tradição de olhar em frente

Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 23/02/2026

As melhores tradições são as que nos fazem ansiar pelo futuro, não as que só provocam suspiros pelo passado. E Bruno Pernadas, pode dizer-se, tem vindo a criar a sua própria tradição: novo disco lançado implica sempre uma cuidada apresentação ao vivo. E foi essa a tradição iniciada em 2015 no Teatro Maria Matos com concertos de lançamento de How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge? (2014) e Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them / Worst Summer Ever (ambos de 2016), que se cumpriu na passada quinta-feira na Culturgest, na primeira de duas noites que levou a essa nobre sala da capital gente suficiente para esgotar a sua generosa lotação. Se tudo correr bem, o sucessor do novíssimo unlikely, maybe não demorará tanto tempo a ser editado quanto o que mediou entre Private Reasons (2021) e esse mais recente título na imaculada discografia do guitarrista, compositor e produtor e, portanto, podemos começar já a sonhar colectivamente com a próxima apresentação ao vivo do ensemble de Bruno Pernadas ali para os lados do Arco do Cego.

Em palco, Pernadas foi ladeado por José Diogo Martins nos teclados, António Quintino no baixo, João Correia na bateria, Jéssica Pina no trompete e voz, Maria João Leite no saxofone e voz, Teresa Costa na flauta, Afonso Cabral na guitarra e voz e, em três distintos momentos, Leonor Arnaut, igualmente na voz. Um renovado ensemble para uma tradição que não se quer estática é, obviamente, uma bela ideia, já que promete e (retrospectivamente, pode garantir-se) cumpre o objectivo de insuflar novidade num percurso musical singular, mas que ao mesmo tempo é já dotado de uma clara assinatura autoral: a música de Bruno Pernadas é instantaneamente reconhecível. Mesmo aquela que acaba de sair e que ainda pode carecer da familiaridade que resulta de atentas e sucessivas audições. E este concerto, com excepção do momento final de encore, fez-se apenas do material acabado de apresentar em unlikely, maybe. Pernadas, claramente, ainda não está na fase de tocar os greatest hits. Óptimo.

Com as duas noites da Culturgest esgotadas — e a do Auditório da Academia de Espinho com a sala igualmente repleta —, Bruno Pernadas sabia que a sua aposta estava ganha à partida. E é, nos tempos que correm, uma aposta arriscada: levar para um grande palco música instrumental completamente desconhecida — não é exactamente o tipo de reportório que encima as playlists das principais rádios… — tocada irrepreensivelmente por um ensemble dilatado é, em si mesmo, um ousado acto de liberdade artística, uma recusa em alinhar com o que quer que prove ser capaz de surfar a espuma dos dias. E isso é uma garantia que Bruno Pernadas tem dado a quem o segue desde o momento em que lançou o seu primeiro álbum de originais, já lá vão 12 anos.

No concerto, apresentou-se a totalidade do reportório de unlikely, maybe, embora num alinhamento diferente, não se fosse correr o risco de pensar que alguém tinha simplesmente metido o CD a tocar já que o som estava apuradíssimo. A banda soou coesa, bem rodada, como se este não fosse ainda e apenas o primeiro concerto com este material. Talvez o líder fosse a figura mais nervosa em palco, tendo a dada altura até derrubado o suporte de partituras que, ao cair sobre o teclado de José Diogo Martins, gerou a única nota dissonante de todo o concerto. Tudo o resto que se escutou estava perfeitamente enquadrado nos ricos arranjos gizados por Pernadas.

Arranjos que são, convém sublinhar, intrincadas tapeçarias sonoras em que cada instrumento e cada voz funcionam como fios de distinta coloração, contribuindo para a composição de vívidos murais. Sob os comandos precisos de Pernadas, a arquitectura musical apresenta-se simultaneamente imponente e delicada: há grandeza na escala e minúcia no detalhe, mas todas as peças encaixam com naturalidade orgânica. Escutaram-se ecos de Brasil e Beatles, de dub e R&B, de jazz — claro… — e até um inesperado assomo vocal que fez lembrar o solo vocal de Clare Torry em “The Great Gig in the Sky” dos Pink Floyd, essa forma de transcendência em espiral que transforma a voz em instrumento absoluto. O que já não se pressente, pelo menos de forma evidente, são as piscadelas de olho ao universo mais angular dos Stereolab que, em momentos anteriores da discografia, surgiam como discretas coordenadas estéticas. unlikely, maybe parece mais interessado na fluidez do que na aresta.

Maria João Leite revelou-se uma das surpresas maiores da noite. No saxofone alto, desenhou linhas que tanto podiam acariciar como rasgar a superfície harmónica; na voz, acrescentou uma dimensão etérea, quase espectral, que ampliou o alcance emocional das composições. Teresa Costa, por seu turno, assinou um par de belíssimos solos de flauta, límpidos, cheios de intenção melódica, e protagonizou uníssonos de grande efeito com a guitarra de Pernadas, momentos em que a escrita se tornava gesto partilhado e respiração comum.

Entre os vários pontos altos, “Steady Grace” destacou-se pela forma como a sua cadência dub/reggae foi puxando, sem esforço aparente, pelo balanço colectivo. O final, épico e esparso, transformou-se num autêntico hino à dança em ambiente tropical: por instantes, a Culturgest deixou de ser Lisboa para se metamorfosear numa sala do estúdio Compass Point nas Bahamas, com a música a posicionar-se algures entre a eficácia rítmica de Dennis Bovell e a elegância textural de Wally Badarou, como se fossem Sly & Robbie a imporem o pulso invisível. Foi um daqueles momentos em que a sofisticação formal sublinhou de forma clara o génio (há que não temer o peso destas palavras) de Pernadas.

Também “Leo Minor” merece menção especial pela sua dimensão coral. Aqui, o ensemble expandiu-se para uma espécie de pequena comunidade vocal em palco, com Leonor Arnaut a brilhar com intensidade particular, conduzindo a composição para um território de absoluto maravilhamento. A escrita de Pernadas revela-se, nestes momentos, profundamente cinematográfica: há planos, contra-planos, aproximações e aberturas, como se cada secção instrumental fosse uma câmara a revelar novos ângulos de uma mesma narrativa. E depois, como que a lembrar que tradição também pode ser memória afectiva, o concerto fechou com “Love Vs Love”, de Worst Summer Ever. Foi o único olhar assumido para trás numa noite firmemente ancorada no presente e talvez por isso tenha soado ainda mais triunfal. Não como celebração nostálgica, mas como confirmação de percurso: do primeiro gesto discográfico até este novo capítulo, Bruno Pernadas tem vindo a construir uma obra coerente, exigente e generosa.

Se a tradição é repetir um ritual que nos projecta para diante, então esta está mais do que consolidada. E, depois do que se viu e ouviu na Culturgest, resta-nos fazer o que o próprio músico parece sugerir com cada novo disco: esperar o próximo passo com a certeza de que o risco continuará a ser a sua mais fiel bússola.


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