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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 04/06/2026

50 horas de música sem direito a intervalos.

Serralves em Festa’26: 20 anos de fartura sonora

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 04/06/2026

O Serralves em Festa celebrou a vigésima edição no último fim de semana. Aí vão vinte anos a oferecer aquela overdose de música, teatro, artes plásticas, cinema, dança, circo e faltará, certamente, enumerar alguma coisa entre a explosão de eventos. Essa é, aliás, uma ideia que fica: vir à festa em Serralves ajuda-nos a perceber que a nossa atenção não chega a tudo o que acontece. É disputada ferozmente ao longo de cinquenta horas — non stop, como dizem no cartaz. O Rimas e Batidas percorreu os jardins de Serralves no primeiro dia, sexta-feira, e seguimos o caminho da música. 

Chegámos ao final da tarde e o recinto estava bastante calmo. Havia sol e ainda eram mais as flores do que as pessoas a colorir os jardins. Aproveitámos a sombra das árvores, os silêncios. Inalámos os perfumes primaveris, nos recantos mais resguardados. Seguimos o caminho da mata para o encontro marcado com a composição conceptual de Stephen O’Malley, criada em colaboração com Balthasar Streiff para o conjunto suíço de cornes alpinos Alponom. Trata-se de um instrumento alpino, encontrado na Suíça, mas também na Áustria e no sul da Alemanha. É de sopro e em madeira, longo e reto e tem aproximadamente 3 ou 4 metros de comprimento. Não possui válvulas nem chaves e as notas são produzidas apenas pela vibração dos lábios do músico. Usavam-nos pastores para comunicar entre vales e montanhas.

Cinco pares de músicos, vestidos com capas impermeáveis verdes e iguais, pularam a cerca e espalharam-se sobre a erva do terreno. Com o público debruçado na cerca de madeira, cronometraram e coordenaram-se à distância para criar um campo sonoro ressonante e vibrante. Eram os últimos minutos do dia e a lua começava a fazer-se notar no céu. Os dez cornes alpinos tocaram notas circulares longas e cíclicas, baseadas na série de harmónicos naturais. Formou-se uma ligação intensa entre a paisagem, alguns ruídos, mudanças de luz e clima. Promoveram uma escuta colectiva e atenta à cidade, ou melhor, ao campo na cidade. Ligação emocional, prazer, introspeção e reflexão. Um ritual que nos despedia do dia e nos iniciava na noite. Enquanto a afinação dos cornes, a vibração do ar, pareciam desenhar montanhas no horizonte.  

Seguimos para o palco Ténis e deixámo-nos surpreender pela a actuação do projeto RUMI&SHAMS de Mostafa Taleb (kamancheh e voz), Milad Mohammadi (tar e voz) e Rouzbeh Sayadii (tar). O líder do trio, Mostafa Taleb, é um músico, compositor e improvisador iraniano da região de Lorestan, no oeste do Irão, que vive atualmente em Bruxelas. A sua música mistura à tradição persa influências europeias, barrocas e contemporâneas. Dialoga com outras culturas no tempo, vinca uma herança poética e espiritual. O timbre mais vocal, do kamancheh, soa a canto e lamento e propõe uma escuta profunda. 

A noite encheu os jardins de pessoas.  Eram quase 22 horas e centenas afluíam ao prado. Estava na hora dos Mão Morta. Famílias, estudantes, crianças, velhos e novos de muitas nacionalidades. Por entre a folhagem, escutávamos o inglês, o espanhol, o francês, o alemão, até o polaco, enfim, um público cosmopolita, diverso e de origem vária. 

Os Mão Morta agarraram a noite com “Tiago Capitão” — primeiro tema. Fizeram-nos respirar o ar soturno do luar. As projeções de Mariana Vilanova imprimiam cores e formas que se ligavam intimamente à essência da banda e às palavras de Adolfo Luxúria Canibal. O público, foi chegando, era imenso. Junto ao palco, os mais fieis traçaram um diálogo entusiástico e intenso com o icónico vocalista de Braga, aparentemente inspirado pelas musas habituais. Na entrevista, aqui para o Rimas e Batidas na antecipação do concerto, revelou que o alinhamento percorreria temas menos usuais. Mais antigos e pensados para o local e o convidado — assim foi. O acordeão de João Barradas apareceu com espaço e aumentou a paleta de cor dos Mão Morta. Emprestou-lhe novas sonoridades, novas camadas. Nos temas “Facas em Sangue”, “Arrastando Seu Cadáver”, “Chabala” e “Tu Disseste”, Barradas encontrou momentos para a improvisação, realçando e redescobrindo melodias peculiares. Em “Pássaros a Esvoaçar”, por exemplo, integrou-se organicamente na massa sonora da banda, como se ali estivesse desde sempre. Os momentos mais brilhantes aconteceram talvez em “Sitiados” — surgindo por entre o caos como uma nova ilha — e em “Berlim” — inventando outras dimensões e acrescentando leituras. Coube-lhe fechar o tema, num final extraordinário. Belo concerto, grande encontro. Estão em grande forma os Mão Morta. 

Enquanto se preparava o palco do Prado para as lendas da música electrónica, aproveitámos para regressar ao Ténis e espreitar. Estava lotadíssimo. O concerto já ia a meio e transbordava energia. A dupla da indonésia fazia as suas percussões ancestrais e vozes animalescas ecoar na noite, atravessando os arbustos. Tesla Manaf e Rio Abror, enquanto KUNTARI, pela primeira vez em Portugal, produzem sons animalescos de acasalamento, misturados com uma variação tonal de ritmos tribais indonésios, num género musical que os próprios apelidam de primal-core. Da bateria, do baixo e da mesa equilibrava-se uma dinâmica intensa de ritmos antigos, percussões primitivas que encantavam a plateia e as árvores. 

Voltámos ao prado para ver um dos grupos mais importantes da história da música eletrónica. Os Cybotron surgiram em Detroit no início dos anos 80, fundados por Juan Atkins e Richard “3070” Davis e são uma das causas originais do Detroit techno. O concerto começou com uma imagem familiar para quem atravessou os anos 90 diante de um computador: palavras brancas sobre fundo negro. Um MS-DOS arcaico e digital. Entre o mar de palavras, fixámos Berlim e Detroit — cidades gémeas na imaginação electrónica do século XX — desenharam uma ponte improvável com o concerto dos Mão Morta. Da ruína industrial europeia e do colapso e reinvenção da cidade americana nasceu uma parte significativa da música que moldou o presente.  

Com uma imagética apurada e um espectro temático em torno dos conceitos de Tempo, Espaço e Terra, os Cybotron levaram-nos pelos caminhos distópicos do anos 90, recém-desenhados pela introdução digital. Sonhámos cidades enormes, noturnas e eléctricas. Revisitamos insónias. Escutámos caixas de ritmos. Sentimos ambientes metálicos e efeitos maquinais e industriais. Vimos viagens estelares. Suámos a febre do século. Surgiu a lua, os motores, a velocidade. Nomes em catadupa no ecrã. Retivemos alguns: Jeff Mills, Kraftwerk, Submerge, The Frontier entre centenas de outros. Operadores fabris repetitivos. Videojogos em loop. Cassetes de fita resgatadas à arqueologia digital. Terminaram com o incontornável “Clear” que continua a ressoar além do presente. Serralves levou-nos de um mundo a outro pelo trilho da música. Fomos do dia à madrugada num ápice.


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