pub

Fotografia: Rhuana Pimentel
Publicado a: 04/06/2026

Um resumo da terceira edição do evento que tem edificado pontes pela lusofonia.

Coala Festival Portugal’26: o certame de música mais lisboeta que Lisboa ainda não viu

Fotografia: Rhuana Pimentel
Publicado a: 04/06/2026

“A música brasileira é foda”, lê-se num boné. Confirma-se. No lado esquerdo do bar, duas bombeiras não se contêm a sorrir e a cantar as músicas da Marina Sena, ainda que estejam de serviço. Pelo recinto do Coala Festival Portugal fora, bandeiras brasileiras espalhadas. Há até quem as vista em formatos vários pela roupa. Muitas pessoas estilosas. Casais apaixonados aos molhos. Muito sotaque brasileiro. Parece que para se chegar ao Brasil, em vez de apanhar um voo e gastar umas quantas poupanças, basta apanhar o comboio no Cais do Sodré e sair na estação de Cascais. 

A febre do Coala só parece aumentar a cada ano que passa. Fundado em 2014 em São Paulo com o propósito de promover artistas emergentes da nova cena da música brasileira, o festival viajou para Cascais com algumas mutações. E parece que a cada ano também se tem transformado na sua nova morada. A terceira edição contou com um maior domínio da música brasileira, mais especificamente no segundo dia, com um cartaz principal que contou com a presença de Zé Ibarra, Ana Frango Elétrico, Marina Sena, João Gomes e Lulu Santos. A energia era quente e melosa, mesmo para quem estava no final do recinto principal. “Quem sabe, canta, e quem não sabe, aprende”, disse Ana Frango Elétrico, no seu concerto. Assim foi. 

Ainda que a génese do Coala esteja na música brasileira, na sua viagem a meros quilómetros de Lisboa, o seu ímpeto só poderia ser o de celebrar a lusofonia. Pelas palavras do co-curador do Festival, Kalaf Epalanga, o Coala “trouxe muito mais do que um alinhamento de artistas de peso. Trouxe uma proposta clara: a de reimaginar o mapa da música feita na língua de Elza Soares e Sara Tavares. E fá-lo num momento em que Portugal se encontra numa encruzilhada criativa e cultural, com uma diáspora brasileira vibrante e interventiva. Os blocos de carnaval, os fluxos do baile funk e a apropriação do espaço público urbano são apenas alguns exemplos dessa energia transformadora. (…) O Coala é mais do que um palco. É um espaço de encontros improváveis, mas necessários, uma oportunidade rara de provocar escuta mútua entre artistas e públicos que, apesar de partilharem uma língua, muitas vezes circulam em universos paralelos. Universos próximos geográfica ou emocionalmente, mas ainda distantes em termos de circulação e reconhecimento. A música portuguesa vive hoje um momento vibrante de reinvenção. Uma nova geração de artistas está a desconstruir velhos paradigmas, abrindo espaço para sonoridades que refletem um Portugal mais plural, mais africano, mais sul-americano. O Coala, neste contexto, surge como um dos catalisadores desse movimento, um amplificador de vozes que não pedem apenas representação, mas exigem protagonismo.”

E o cartaz de peso do primeiro dia, que contou com a presença de Zeca Veloso, Branko com os Tuyo, Bonga, Slow J e Caetano Veloso, cumpriu precisamente esse desígnio. A começar pela voz quase angelical e melódica do Zeca Veloso, o tarraxo com tantas bonitas melodias de Branko com Tuyo, a festa pujante do grande Bonga (que para os seus 83 anos é ainda um jovem), o power do Slow J, que ainda nos abençoou com músicas inéditas, e claro, um a alegria e beleza do um dos grandes da música brasileira Caetano Veloso. 

O motivo que nos faz estar juntos começou numa relação desigual durante séculos, marcada pela dominação, o imperialismo, o tráfico transatlântico, a escravatura e a imposição religiosa e linguística. Todas essas feridas e tensões sentem-se ainda hoje nas fraturas internas de cada um dos países atravessados por esta história. Seja através dos debates sobre a imigração, da forma como vemos o colonialismo, das desigualdades sociais que hoje persistem, ou do quão recente é a independência dos países africanos e a reconstrução identitária e política desses países. Aquilo que nos “une” — a língua portuguesa — é fruto de uma expansão imperial que resultou na imposição de uma língua e que, em muitos casos, levou ao apagamento e à marginalização de línguas locais. E importa lembrar que, para além do português, há muitas outras línguas faladas neste espaço. O próprio crioulo cabo-verdiano, amplamente escutado na Área Metropolitana de Lisboa e presente nalguns dos maiores êxitos musicais em Portugal, continua a trilhar o seu caminho para se tornar uma língua oficial no seu país de origem.

Mais do que uma comunidade partilhada de falantes de língua portuguesa, a lusofonia é um campo de tensões onde coexistem heranças coloniais e projetos contemporâneos de cooperação. E cuja hierarquia de relação é muitas vezes desigual. A começar pelos processos de “autoestima nacional” construídos em cima de mitos desatualizados no tempo — a forma como os “descobrimentos” ainda estão tão selados num sentimento de orgulho nacional em Portugal, ou a ideia muitas vezes mitificada dos países africanos relativamente ao antigo colonizador — ,havendo uma ignorância e um não olhar de Portugal para os restantes, e um eurocentrismo de Portugal para consigo mesmo.

E é por isso que não deixa de ser paradoxal a celebração desta comunidade. E, se é verdade que o próprio uso desta língua é uma marca que resulta de feridas que ainda têm de ser saradas, não deixa de haver algo de belo na possibilidade de uso desta ferramenta de comunicação. É ela que também nos pode permitir reverter o processo de chacina, violência e apagamento do qual o colonialismo foi feito. E que forma mais bonita de fazê-lo senão através da música. 

Para além do cartaz principal, passaram vários DJs que fizeram a ponte entre os vários concertos: a curadoria do Coala com Kalaf Epalanga, Mdm, Mulaca, Caan Dun e Giu Nunez no primeiro dia; e no segundo dia, de novo a curadoria do festival com Gabriel Andrade, M3DUSA, Blaya (com uns grandes moves), Helena Camarereo e CIGARRA. A festa nunca parou.

Mas o grande achado do Coala foi, sem dúvida alguma, o palco Super Bock Club, por onde passaram Indi Mateta, S4DO, FVBRICIA, Gayance, SoundPreta e DjDanifox no primeiro dia; e Idiesa, BANU, Rita Maia, bieu s2, MARIBELL e Chima Isaaro no segundo. Talvez tenha passado despercebido por muitos, mas não foi indiferente a quem por lá passou. É pena que o corre-corre, e a complementaridade de horários com o palco principal fizesse muitas vezes com que a dinâmica deste palco estivesse sujeita às manadas que vinham e voltavam quando um dos concertos acabava. E certamente que não é fácil competir com a Marina Sena, o Slow J, o Caetano Veloso e outros. Ou encontrar tempo para comprar comida, e entre concertos, conseguir disfrutar dos dois lados sem uma FOMO gritante. 

E por falar em comida, os preços do Coala não são, infelizmente, muito diferentes do que se vê noutros festivais, o que deixa muito a desejar. A cerveja que custa cinco euros e meio (mais o copo que custa dois), um cachorro que valeria dois euros numa situação de normalidade, mas que custam sete, ou os hambúrgueres a roçar os quinze euros. Tendo em conta o preço de um passe para os dois dias (85 euros na última fase de vendas) e o consumo que se faz dentro do recinto, esta ida até Cascais não fica nada convidativa para o comum dos residentes em Portugal.

Este festival tem um potencial enorme para crescer — que o diga a bilheteira deste ano, superior à das edições anteriores — e, quiçá, para ser deslocado para um espaço com maior capacidade e melhores acessos de transporte. É, sem dúvida, o festival de música mais lisboeta que Lisboa ainda não viu. E que falta fazem iniciativas como esta, que comunguem do espírito de partilha, escuta e troca, tão necessárias para desierarquizar esta grande comunidade a que chamamos lusofonia. Mesmo que a música, por si só, não mude nada em concreto, já representa um passo nessa construção. E há um enorme simbolismo na possibilidade de conhecer artistas como João Gomes ou Lulu Santos, que para muitos portugueses podem ser absolutos desconhecidos, mas que são verdadeiros gigantes no Brasil. E é impossível não dar conta disso quando se vêem milhares de vozes a cantar em uníssono as suas letras e a forma como essa energia se fez ecoar por todo o recinto. É um privilégio poder sentir este cheiro de Brasil pelas ruas de Cascais, e uma pérola que faltava também para a própria comunidade brasileira, cuja presença em massa torna todo o festival ainda mais belo.

“Podemos voltar atrás para o ano que quisermos, e não há nenhum ano em Portugal onde a vida era melhor sem os imigrantes, e sem os filhos de imigrantes.” Palavras de Slow J no seu concerto que ecoam como síntese do muito que ali se viveu. É isto.


pub

Últimos da categoria: Reportagem

RBTV

Últimos artigos