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Fotografia: André Maia
Publicado a: 05/06/2026

Um disco de rap com sabor a jazz de uma referência coimbrense.

Gonçalo Guiné: “Este álbum sou muito eu. Mas a complexidade das músicas mudou completamente com a banda”

Fotografia: André Maia
Publicado a: 05/06/2026

Figura central do hip hop de Coimbra, rapper, produtor e dinamizador local, Gonçalo Guiné prometia há vários anos estrear-se com um primeiro álbum. Pertenceu aos colectivos A Resistência e Velha Capital, lançou o EP Arquivos de um Confinamento em 2021 e no passado mês de Maio apresentou Vida Num Loop, o seu primeiro longa duração, hip hop com sabor a jazz, construído com uma banda composta pelo seu primo Paulo Silva e os músicos Filipe Furtado e Filipe Fidalgo.

Um trabalho já escrito e composto, de hip hop convencional, foi transformado num álbum com uma instrumentação completamente distinta, com inúmeras outras texturas e camadas, a partir do momento em que os instrumentistas adaptaram os beats de Gonçalo Guiné e ergueram uma paisagem sonora mais complexa.

As letras reflectem a vida deste MC e produtor nascido em 1988, das inquietações interiores às suas observações sobre a sociedade e o mundo que nos rodeia. Ao vivo, a performance dá ainda outra dimensão à dezena de canções de Vida Num Loop, sendo que três delas agora com uma roupagem diferente, lá está já constavam do EP de 2021. Em entrevista ao Rimas e Batidas, Gonçalo Guiné reflecte sobre o seu primeiro álbum, e Filipe Fidalgo ainda acrescenta umas palavras sobre os concertos e o processo de estúdio.



Este disco foi iniciado há bastante tempo e acabou por sofrer uma grande mutação ao longo dos anos. Queres explicar como tudo começou e a origem de algumas destas faixas? 

[Gonçalo Guiné] Não numa galáxia muito distante, mas já há muito tempo atrás, eu tinha um grupo chamado A Resistência. Os meus primeiros passos foram com vizinhos meus, uma malta que ouvia hip hop comigo nos meus 12 ou 13 anos, e, a dada altura, quando fui para o secundário aos 15, juntei-me a essa malta e começámos a escrever os nossos primeiros sons. Foi na mesma altura que comecei a conhecer o Ruze. Depois esse grupo acabou, um colega meu foi para França e eu comecei a fazer outro trabalho com um bacano que é o Eterno. Criámos o projecto A Resistência, lançámos uma mixtape e o som mais antigo que tenho vem daí, que é o “Vinnie”. É um som sobre um vizinho meu que era maluco, literalmente, e é sobre o bom exemplo que é um mau exemplo. Esse é o mais antigo, de resto foram escritos desde 2014, 2015, 2016… até à pandemia. Tenho três que já foram escritos durante a pandemia. Mas foi em 2017 que meti na cabeça: eu quero fazer um álbum a solo. 

E já estavas a guardar algumas destas faixas para o disco?

[Gonçalo Guiné] Comecei a escrever mais com o intuito de fazer um álbum meu, para começar a angariar sons a solo. Na altura, o projecto em que eu estava a trabalhar ia ter muitas mais faixas, umas 17, com bastantes participações. Só que, entretanto, não estava a gostar do caminho que o álbum estava a tomar. Queria mais, queria algo melhor, e como era todo produzido por mim… Pronto, eu ainda não era como sou hoje a nível de produção. Não quer dizer que seja top, mas hoje em dia gosto bastante do que faço, tenho um estilo e sei o que quero. Na altura, ainda não tinha as ferramentas todas minimamente aprumadas. 

Mas tinhas consciência de que querias mais do que aquilo que tinhas.

[Gonçalo Guiné] Sim. Então comecei a trabalhar a solo, saí dos projectos onde estava para me dedicar mais à minha cena, porque também andava a produzir para outra malta. Comecei a trabalhar mais sozinho, veio a pandemia, fiz um EP, vai não vai inscrevi-me no MIC – Música Independente de Coimbra, fui aceite, telefonei ao Paulito porque ele conhecia a malta toda desse circuito. Telefonei-lhe: “olha, vai ver o primo, que eu vou apresentar uma cena no MIC”. E ele disse que não, que queria vir comigo. A partir daí ficámos os dois. E logo a seguir arranjámos o [Gonçalo] Parreirão, que era para não darmos um concerto só de bateria e samples. Demos o primeiro concerto, gravámos o álbum, que esteve ali bastante tempo a marinar, porque fui eu que estive a editar as primeiras versões, e eu estava habituado a ter três tracks para uma bateria, e do nada tenho 12. Ou seja, também foi a primeira vez que tive a editar um projecto com bastante conteúdo, a nível de informação musical por cada faixa, então também foi um challenge interessante. 

Mas, a partir do momento em que te juntas com o Paulo, percebeste logo que era esse o caminho do álbum, que faria sentido incorporar a banda no disco? 

[Gonçalo Guiné] Na altura nem sequer estava propriamente com a ideia de pegar no álbum. Foi mais: olha, vamos tocar uns sons ao vivo. Ele já desde miúdo me dizia que um dia íamos tocar juntos, nunca se proporcionava, mas proporcionou-se nesse momento, e nós ao segundo ensaio já estávamos a olhar uns para os outros a pensar que dava para fazer um projecto fixe. Daí começámos a pensar em mais do que uns concertos e entretanto gravámos o álbum. Eu também já conhecia o Filipe Furtado. Ele já tocava com o Paulo e com o Fidalgo, depois conheci o Fidalgo, também muito à pala da Blue House, e ele atirou-se de cabeça. O Furtado foi o que entrou mais tarde, mas já me tinha dito há bastante tempo que queria entrar no projecto. Quando tivemos a disponibilidade para nos juntarmos, começámos a trabalhar isto como banda e foi até hoje. 

E como é que foi esse processo de pegar nos teus instrumentais, que já existiam, e transpô-los para a banda? Porque ganharam certamente uma série de coisas que não tinham antes, e outras alteraram-se, e outras eventualmente até se perderam.

[Gonçalo Guiné] Foi fixe, porque os meus sons… Eu não sou um baterista, faço os meus loops, faço as minhas drums, dou-lhe o meu groove, mas um baterista tem sempre um registo rítmico muito mais rico. Vou fazendo as melodias, vou colocando coisinhas, toco a minha guitarra, sei dar uns acordes mas não sou um guitarrista, e à medida que vais apresentando o que tens e as tuas ideias, os músicos vão agarrando naquilo, percebem e desenvolvem tecnicamente a tua ideia… Foi muito assim que aconteceu. Eu apresentar-lhes o esqueleto, eles perceberem qual é o ponto de partida e irem-me apresentando ideias. Há sons em que só com um instrumental eu não me iria sentir tão agradado, mas com banda há sempre espaço para os músicos… Há momentos em que o rapper não é o mais essencial, e quando os músicos adicionaram coisas, tornaram-me muito melhores.

E ao longo do teu percurso alguma vez tinhas imaginado fazer um disco mais orgânico neste sentido, com banda, com instrumentos, com músicos, ou foi uma descoberta também para ti ao longo do processo?

[Gonçalo Guiné] Não, sonhar eu já tinha sonhado, até bastante, mas…

Tinhas referências internacionais daqueles discos mais de jazz rap?

[Gonçalo Guiné] Sim, tipo os Jazzmatazz. Quando era puto, os meus primeiros contactos, sem saber o que era hip hop, foi à pala de um primo mais velho, e foi Cypress Hill, Rage Against The Machine, depois na minha pré-adolescência apareceu a geração dos Linkin Park, dos Limp Bizkit, mesmo Da Weasel… Sempre gostei muito da ideia de banda, mas até conhecer as pessoas, não imaginava que iria realmente ter um projecto com banda. Muito mais facilmente iria lançar algo clássico de hip hop, com samples, mas tive esta oportunidade e foi incrível.

O processo levou o seu tempo, mas imagino que para ti faça sentido teres lançado este disco com esta abordagem mais fresca, não é? É um disco que se distingue muito por isso, por ter um registo diferente de som.

[Gonçalo Guiné] Ya, claramente. Eu vou ouvir os takes que tinha, as minhas demos a solo, os instrumentais, e há certas coisas que ouves e claramente soa diferente. Por exemplo, as batidas nas minhas versões são muito mais hip hop, tens o kick mais na cara, a tarola mais estridente, com a bateria é tudo muito mais neutro. Tanto a textura como a complexidade das músicas mudou completamente. 

E sentes que a tua própria entrega vocal, o teu flow, também se alterou com esta instrumentação diferente?

[Gonçalo Guiné] Principalmente ao vivo, porque o processo de gravação foi muito experimental, foi despir os instrumentais até ter só os samples, depois foi adicionar as baterias e eu começar a gravar as vozes por cima do sample e da bateria. Eventualmente, depois adicionámos os baixos, as guitarras, no final os saxofones, e tu notas em certos sons que a minha entrega, sabendo que foi gravado por processos e que a voz não foi a última coisa a encaixar na música, se calhar podia estar um bocadinho mais arrojada… Ficas a pensar: se calhar devia ter entregue esta parte mais agressivamente, houve um som que até regravei por causa dessa intensidade. Mas no live já consigo fazer essa adaptação, é um álbum que ao vivo tem uma energia gigante, acho que está muito bem conseguido.

Falando mais do conteúdo em si, porque tu estiveste muito tempo a preparar este trabalho e também certamente a pensar muito sobre que faixas é que fazia sentido incluir, que temas querias abordar… Há aqui faixas que têm muitos anos que já tinhas a certeza de que tinham de entrar no disco, ou houve também muitos momentos de dúvida? Sabias que querias abordar certo tema, mas pensavas se deverias escrever novas faixas, por exemplo? Como é que foi esse processo em relação às letras e aos temas que querias abordar? Até porque é um álbum de estreia, é um marco, embora já tenhas muitos anos de rap.

[Gonçalo Guiné] Exactamente. E, como álbum de estreia, há três ou quatro anos que tinha na cabeça que são estes sons, não vou escrever mais nada para o álbum. Até porque tinha algumas faixas que eu gostava mesmo de pôr e sabia que, se fosse reescrever, mesmo que pudesse melhorar bastante os sons, não iria querer fazer esse trajecto, porque era literalmente voltar ao processo de escrita, o que por vezes pode ser pesado, a nível de dedicação, então queria mesmo deixar uma marca temporal, tu ouvires de um som para o outro as mudanças e a evolução. Os sons mais novos a nível de escrita foram os que lancei no EP, e que depois juntei aqui ao álbum. Mas foi todo um processo em que também senti que estava contra o tempo. Quanto mais tempo demorasse a lançar este, mais arrastava o processo de criação para um segundo álbum, por exemplo, em que já vou querer ter coisas completamente criadas agora.

Mas dirias que é um álbum muito pensado nesse sentido, em que querias ter uma faixa que falasse disto, outra que falasse daquilo, ou ao longo do tempo foste criando, foste escrevendo e acabou por fazer sentido?

[Gonçalo Guiné] Hoje em dia olho para o álbum e conta a minha história, era um bocado isso que queria e que a história parasse de ser contada no momento em que já tenho, basicamente, o core do álbum fechado. Daí não ter posto faixas mais modernas, é um capítulo da minha vida de dez, doze anos, andei também um bocadinho a patinar na maionese, no vai não vai, será que está fixe, será que não está, será que devo mudar mais alguma coisa? Ou seja, o processo de pós-produção demorou aquele tempinho.

E escreveste as letras todas para beats que acabaram por ser transformados pela banda?

[Gonçalo Guiné] Sim, praticamente todas, tirando o “Vinnie”, que não estava naquele beat. Era para outro que era bastante diferente do que era o esqueleto. O “Força de Vontade” também não foi escrito no esqueleto do beat original, mas foi um beat que eu fiz já com o intuito de colocar aquela letra lá. O que não é um processo que eu costume fazer, normalmente crio a minha ideia, ela dá-me a vibe e eu vou com esse tema. Foi um desses sons com que eu andei durante uns aninhos até achar o tom certo do beat que queria para a letra.



E imagino que este processo todo de construir o disco, de trabalhar com os músicos, também te tenha transformado enquanto artista. 

[Gonçalo Guiné] Sem dúvida, não que já não tivesse essa noção, mas até começar a trabalhar com a banda eu era uma pessoa que fazia um beat… Tens a intro, começa a rimar, rima o refrão, primeira parte, refrão, segunda parte, refrão, fecha o som. E não que isto se espelhe totalmente neste álbum, porque, lá está, foi uma adaptação dos meus sons a uma banda, mas o objectivo a longo prazo é literalmente ter a ideia de que a minha música não precisa de ser só eu. Quero ter espaços de melodia, quero ter espaços de solo para os artistas. Quero ter importância no conteúdo da minha mensagem, mas ao mesmo tempo ter espaço para a música em si contar a minha história ou contar a história daquela música sem ser 100% para a letra. 

Abriu-te o leque de portas criativas, de possibilidades.

[Gonçalo Guiné] Claro. Uma das coisas que sinto que agora perdeu um bocadinho a magia é que, se for dar um concerto só eu e levar os meus beats para carregar no play e rimar, já não tem tanta piada. Agora estou habituado com banda, já não quero outra coisa. 

Claro, a performance torna-se muito diferente. E também imagino, tendo em conta os anos que levas disto, nos vários projectos que foste tendo, mas também enquanto dinamizador do hip hop em Coimbra, e mesmo que bastante gente esteja a par desse historial, que já devias sentir falta de ter este álbum cá fora. 

[Gonçalo Guiné] Ah, completamente. Sentia que já tinha feito bastantes coisas cá em Coimbra, tinha colaborado com vários artistas, tive entre vários projectos e, por não ter o meu, sentia que precisava de dar provas de mim mesmo… Já devia ter saído há um bom tempo, mas tirou-me agora essa pressão toda de cima.

Agora deves-te sentir mais livre para criar, não é? Vês-te a explorar cada vez mais, no futuro, esta relação entre rap e banda?

[Gonçalo Guiné] Sim, ou seja, não vou deixar de produzir, não vou deixar de trabalhar com outra malta, mas os trabalhos de produção exclusivamente meus… Não vou fazer discos a solo com eles. Vou fazer colaborações, vou entregar a outra malta para os projectos deles e todos os projectos que quero fazer a título pessoal vão ser com banda.

O título do álbum, Vida Num Loop, também remete obviamente para essa base sonora do hip hop que é o sampling. Era um nome já decidido há muito tempo, para ti?

[Gonçalo Guiné] Sim, quando comecei a trabalhar com banda até pensei seriamente se não mudava o nome do álbum. Porque inicialmente ele foi criado para ser lançado só com instrumentais meus, que era tudo à base do loop, era muito por aí que eu ia pegar. A partir do momento em que pus a banda, pensei em mudar o nome, mas acabei por manter. E como isto também acaba por ser um bocado híbrido, porque continuamos a ter um ou dois samples e todo o trabalho que foi desenvolvido pelos músicos teve como ponto de partida os loops, achei que fazia sentido manter o nome do projecto. 

Claro, e também é um título que além da música acaba por ser conceptual, não é? Porque as nossas vidas muitas vezes também são loops, têm padrões, ciclos, coisas que se repetem no dia-a-dia.

[Gonçalo Guiné] Sim, e foi muito por aí que eu também escolhi esse nome. Porque, lá está, às vezes o ser humano vive em ciclos viciosos e a conceptualização deste álbum também foi um bocado uma luta para quebrar um ciclo vicioso como artista, não é? Todas as pessoas têm as suas dúvidas e incertezas sobre se estão no caminho certo. Eu durante dois anos senti que estava a ir, sem saber bem para onde é que ia, e era muito por aí que eu estava a pegar no core deste projecto. 

E sentes que há alguma faixa específica em que tenhas ido um bocadinho mais para fora de pé do teu registo habitual, daquilo que as pessoas já conhecem ou conheciam de ti?

[Gonçalo Guiné] Acho que não. Para quem já conhecia mais ou menos o meu registo, acho que consegue ouvir esse registo no álbum. Pelo menos a nível temático, acho que não há som nenhum que saia assim mais fora da caixa. Tenho um bom número de sons que falam sobre a minha maneira de ver a sociedade ou o mundo. Há sons em que sou mais brincalhão. Outros que falam sobre, lá está, as minhas dúvidas, os meus problemas, as fases da vida menos fixes que temos. Tenho o caso da “Preguiça”, que explica muito um ou dois pontos meus que sempre me deixaram um bocadinho para trás a nível pessoal, de me fazer à vida e à estrada. Este álbum sou muito eu, exprimo-me muito neste álbum.

E por isso é que também imagino que tenha feito sentido, desde cedo, perceber que estas faixas como um conjunto faziam sentido, porque eram diferentes entre si e acabavam por se complementar. 

[Gonçalo Guiné] Sim. Foi um projecto em que, a dada altura, adicionei músicas que inicialmente não estava a contar, que foram as do EP. Eu não ia meter essas três faixas, mas quando começámos a ensaiá-las com banda para o live, senti claramente que eram faixas que tinham um peso gigante ao vivo, então vamos adicioná-las ao projecto. Claramente percebes que são as mesmas músicas, não só pela letra, mas com uma roupagem muito mais consolidada. 

Depois das primeiras datas de apresentação, já têm outros concertos marcados?

[Gonçalo Guiné] Essa parte deixo com o Filipe. 

[Filipe Fidalgo] Eu assumo o papel de agente muito negligente. Ainda não consegui arranjar mais datas, mas gostávamos muito de ir tocar ao Porto e a Lisboa, pelo menos estas duas cidades eram importantes para nós. Também pela ligação do Guiné com as rodas [de improviso de rap], que em Coimbra, em particular, são muito agregadoras da cultura do Norte e da cultura de Lisboa, e mesmo do Sul. Sabemos que há gente lá que gostaria de ver isto ao vivo e que por um motivo ou outro não pôde estar no [concerto de apresentação no] Salão Brazil. Além disto, o Jazz ao Centro, que tem sido uma ajuda enorme nestes últimos seis meses, aproximou-se de nós com a proposta de um projecto de serviço educativo que se chama Às Voltas no Loop e que teve a sua antestreia no dia 7 de Maio, no Amadora Jazz, na Secundária Seomara da Costa Primo. É um conceito diferente do concerto do disco, mas que tem músicas do disco e outras mais antigas que a gente tem preparadas para tocar ao vivo.

Então é um concerto que irão repetir, eventualmente? 

[Filipe Fidalgo] Sim, ou seja, foi a antestreia agora no Amadora Jazz, temos outra data para perto de Coimbra, ainda não sabemos exactamente onde, por volta de Outubro, inserida na programação paralela dos Encontros Internacionais de Jazz, o Festival Jazz ao Centro. E o plano a longo prazo, a partir de 2027, é circular com este projecto. O nosso plano é articular… Imagina, irmos a Vila Real, a Bragança, a Ourém, mesmo Lisboa e Porto, fazer serviço educativo durante a parte da manhã e aproveitar que já lá estamos e encadear com concertos para graúdos à noite. Até porque estamos a fazer isto com teatros municipais e, portanto, não nos chateia nada a ideia de podermos tocar também nesse tipo de espaços, em auditórios, em teatros. Acho que é um concerto que funciona bem numa casa, como funciona num auditório, como funciona num festival de verão. E estamos a usar isso a nosso favor. 

E, já agora, Filipe, queres dar a tua perspectiva de como é que foi pegar nestes instrumentais hip hop e transformá-los com os teus colegas de banda naquilo que podemos ouvir no disco? 

[Filipe Fidalgo] Sim, eu sou uma adição tardia, numa altura em que o Guiné, o Paulo e o Parreirão já tinham andado a fazer alguma estrada com o projecto e, a certa altura, o Parreirão, por questões da vida, saiu de Coimbra e deixou de estar tão disponível. Então, eu apareci em cena para estar a planar por cima das músicas, a fazer texturas, a dar uns acrescentos melódicos. E as coisas foram-se desenvolvendo a um ponto em que também fazia falta ter uma base harmónica em palco. Porque era um bocado estranho ser bateria verdadeira e ter umas texturas por cima, também verdadeiras, e depois toda a base harmónica ser samplada. Então, em Março tivemos um processo de residência mais a fundo, de pegar nas backing tracks e em nós, músicos, e perceber o que é que fica, o que é que vai embora e ganhar espaço, para toda a gente poder ter um bocadinho do seu cunho pessoal nas músicas, mas também para nunca se perder aquilo que é o mais importante para nós, que é a palavra do Guiné. Apesar de tudo foi orgânico, ou seja, o Guiné roubou, e muito bem, a banda ao Furtado. Portanto, a banda já estava oleada, conhecemos as nossas dinâmicas, já sabemos os nossos sinais invisíveis. E, enfim, nós todos ouvimos coisas que mesmo quando não são hip hop vão lá beber, ou são coisas às quais o hip hop foi beber, o jazz, o funk, o R&B… E o Guiné também, claro. Aliás, nós na carrinha, a ir para concertos, raramente ouvimos hip hop. E acho que acaba por fluir tudo muito bem. Nem estamos a tentar replicar os samples, nem estamos à procura de protagonismo, acho que há uma consciência colectiva de servir a música e, acima de tudo, a palavra.

E há aí um equilíbrio que é importante, não é? As nuances entre acrescentar, mas ao mesmo tempo continuar a servir a palavra e não a retirar do plano principal de destaque.

[Filipe Fidalgo] Claro, é crescermos juntos, e não por cima dele. Acho que é um bocadinho a mentalidade que adoptámos. Mas é como te digo, foi muito orgânico e toda a gente está na boa a refazer, a mudar, a experimentar coisas diferentes. Acho que isso facilitou imenso o processo todo.


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