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Texto: ReB Team
Fotografia: Adrian Nieto
Publicado a: 05/06/2026

A cura pela música.

Sexta-feira farta: novos trabalhos de Vince Staples, Navy Blue, Van Zee, Lizzo, Goose08 e Lakecia Benjamin

Texto: ReB Team
Fotografia: Adrian Nieto
Publicado a: 05/06/2026

Foi sempre assim ao longo da história. Períodos conturbados têm reflexo direto na arte que se cria nesses mesmos momentos, e a música não fugiu nunca à regra. Não será, por isso, estranho que, entre os destaques, haja um domínio das obras que mais refletem sobre o estado atual das coisas — seja através do olhar que capta o que se passa no exterior, mas também daquilo que se vê quando se olha para dentro, onde os dilemas, muitas das vezes, não são mais do que mera consequência daquilo que nos rodeia.

Com a mão no peito, escrevemos sobre seis discos que ajudam a refletir em tempos onde o perigo pode estar mesmo ali ao virar da esquina, e deixamos ainda a ressalva de que podem explorar muita outra música nova por parte de Kyan & Enzo From The Block (JOGA BONITO), Scarlxrd (All Fxr Nxthing), Suzanne Ciani (CIANI/ORKEST), DJ Seinfeld (If This Is It), Skrillex (SOMA), Jalen Ngonda (Doctrine of Love), Lee “Scratch” Perry & Mouse on Mars (Spatial, No Problem.), Machinedrum (BL00MS), Wax & DJ Hoppa (Highway Hotel), Vybz Kartel (God and Time), Laura Misch (Lithic), Tara Clerkin Trio (Somewhere Good), Charlie Hunter, Corey Fonville, Andrew Randazzo & DJ Harrison (Space Bomb), horsegiirL (NATURE IS HEALING), Jake Muir (Pareidolia), Luh Tyler (Destined For Greatness), Zoh Amba (Eyes Full), Massimiliano Pagliara (20 Years of Massimiliano Pagliara)e Jeff Goldblum & The Mildred Snitzer Orchestra (Night Blooms).


[Vince Staples] Cry Baby

Cry Baby é, por diferentes motivos, a obra mais corajosa da carreira de Vince Staples. Esta transformação libertou-o das amarras da sua antiga editora e permitiu-lhe não só criar um conjunto de temas politicamente carregados, mas também abandonar as batidas eletrónicas do passado para abraçar uma sonoridade crua e orgânica dominada por guitarras distorcidas, linhas de baixo pulsantes e uma energia que oscila entre o a urgência do punk, o suor do funk e a claustrofobia do rock. Mas mais do que uma mudança estética, esta nova roupagem serve como veículo para um mural feroz e exausto sobre o estado atual dos Estados Unidos (e até do mundo em geral), através de um olhar implacável sobre a violência sistémica, o racismo enraizado e a paranóia da vida contemporânea. São 10 faixas totalmente a solo e cheias de nervo, que podem muito bem vir a servir de banda sonora a uma qualquer revolução futura.


[Navy Blue] Sir Render

No lado oposto do espectro sonoro, Navy Blue continua a dar prioridade à introspecção lírica e a uma certa estética idílica ao nível das batidas. Sir Render consiste numa meditação de 45 minutos, em que os mantras são proferidos na forma de um rap confessional de elevado grau de pureza e sem quaisquer artimanhas. Só a sinceridade e o amor levam à cura e o rapper nova-iorquino abraça ambas as causas como ninguém, mostrando-se mais vulnerável que nunca para nos versar abertamente sobre temas como trauma geracional e a aceitação de um lado obscuro que vive dentro de si, edificando este Sir Render como um surrender na forma de música. As 15 canções aqui compiladas permitem-nos escutar um verso póstumo de Ka, influência maior na obra de Navy Blue, mas também palavras doadas por outros heróis do hip hop alternativo, como Earl Sweatshirt ou Armand Hammer.


[Van Zee] tá calor e a culpa é tua

Já lá vão dois anos e meio desde do.mar, o aclamado álbum de estreia de Van Zee. Ainda em “estágio” para desenvolver o seu sucessor, o artista madeirense aproveita cada treino para ir gerando algum output que mantenha a sua massa adepta animada e há um ano atrás já nos tinha dado ALTA COSTURA, projeto que esculpiu a meias com FRANKIEONTHEGUITAR. Desta vez vem a solo e com dedo em riste, mas com doçura: tá calor e a culpa é tua é música para fundir corpos e dançar pela noite fora com quem mais se gosta. Além de colaboradores habituais como Nort ou o já mencionado FRANKIEONTHEGUITAR, este projeto aproxima também Van Zee de outros nomes interessantes da produção, desde o português Holly (frequentemente ligado a artistas como Danny Brown, Slow J, Papillon) ao norte-americano Nico Baran (cujo nome tem surgido em créditos de músicas de Drake, Ice Spice, Bad Bunny ou Kanye West).


[Lizzo] BITCH

O título, por si só, deixa pouca margem para dúvidas. BITCH é o registo mais deliberadamente desconfortável da carreira de Lizzo, fruto de uma reconfiguração pessoal que troca o otimismo pós-pandémico de Special por uma massa sonora mais fragmentada e emocionalmente complexa. Concebido como um ato de reivindicação da palavra que dá nome ao disco, abraça uma estética mais sombria que cria o cenário ideal para as letras que oscilam entre mágoa contida e paranóia. A Lizzo inabalável de outrora vê-se agora a processar publicamente as cicatrizes de algumas das batalhas que travou e a lidar com pressão de uma imagem pública que acabou por se tornar numa “jaula”, com BITCH a figurar como que um diário da jornada de uma mulher que está só a tentar salvar-se a si mesma.


[Goose08] E as Flores Eu Deixo Com a Tia Lela

Entre o reconhecimento da herança familia e a sede de deixar a sua própria marca, Goose08 volta à carga com E as Flores Eu Deixo Com a Tia Lela, um EP cuidadosamente gizado que vem dar sucessão a um par de outros projetos de curta-duração com que o rapper nos acenou ao longo de 2025 — NVFDA e Take-Away (a meias com Orato). Sob a batuta de Tayob J, o produtor responsável por orquestrar a componente musical do disco, Goose08 entrega-se às suas raízes angolanas e moçambicanas para nos mostrar o lado mais cristalino da sua arte. Pry Antunes e Mirza Lauchand ampliam ainda mais a visão microscopicamente íntima que E as Flores Eu Deixo Com a Tia Lela procura assumir.


[Lakecia Benjamin] We Dream

Tal como já tinha acontecido com o seu anterior Phoenix (2023), We Dream volta a trazer um generoso número de estrelas musicais que se reunem com o propósito de servir as criações de Lakecia Benjamin, uma das mais celebradas saxofonistas do jazz da atualidade. Bilal, Terence Blanchard, Kassa Overall, Chris Potter e Christian Scott aTunde Adjuah ajudam a criadora de Nova Iorque a acender uma faísca de esperança num mundo cada vez com menos soluções à vista através da cooperação em prol do som. Se Phoenix foi um testemunho de sobrevivência pessoal, We Dream foca-se mais no movimento, na imaginação coletiva e no poder da música para iluminar a escuridão, recusando o escapismo fácil e abraçando uma resiliência feroz e com os pés bem assentes na realidade contemporânea.

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