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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 25/05/2026

Entre Nova Iorque e a Amazónia.

Amaro Freitas no Campus Jazz’26: gravado na alma

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 25/05/2026

A Universidade de Aveiro recebeu o trio do músico brasileiro Amaro Freitas, durante dois dias, na edição do Campus Jazz 2026. Acompanhado pelo baterista Digão Braz e pelo contrabaixista Sidiel Vieira, protagonizaram uma masterclass, na quarta-feira — que contou também com a presença de Dino de Santiago — e, no dia seguinte, um concerto no auditório Renato Araújo.

O alinhamento passou pelos discos Sankofa, Sangue Negro e pelo mais recente Y’Y, tendo ainda contemplado uma recriação do tema “Vassourinhas” gravado em 1956, por Felinho. Nessa recriação, o ritmo frenético do samba, do carnaval nordestino, possuiu os corpos dos três músicos e interferiu diretamente com os da plateia — que abanavam cabeças, batiam os pés e desejavam levantar-se. Na verdade, todos os temas foram recriados, reinterpretados e reinventados enquanto vibravam ressonâncias da memória gravada nos discos.  

A música de Amaro Freitas costura-se de soslaio entre os cantos silenciosos de uma sala em Nova York, os suspiros barrocos de Viena e o som metafísico da floresta amazónica. Como se levasse o Village e a Terrena, às costas do seu piano, para a terra sagrada dos Sateré-Mawé no Amazonas. Ou então, talvez seja a nós que nos leva, sentados nas cadeiras, para o território da água e dos espíritos da floresta, onde sentimos o cheiro dos cigarros, da madeira envelhecida e o fumo dos carros, misturar-se com o canto magnético dos pássaros e o som da água nos buracos, que fala na folhagem e nos musgos. É pelo país das impressões indeléveis e arrebatadoras, pelo mar das sensações etéreas, pulsantes e contraditórias que nos deixamos levar. Pouco a pouco, como num mantra irresistível, intemporal e ritualístico, as nossas almas afinam-se à memória original e intacta da natureza.  

O piano preparado previamente: um colar de pedras ou, talvez, conchas, alguns instrumentos de sopro indígenas e uma pequena flauta de madeira, estiveram dentro do piano até surgirem num momento especifico do concerto — “Viva Naná” — em que Amaro convocou a bioacústica da selva, reproduzindo sons gravados de água e de aves, enquanto ele próprio se havia levantado do piano, para soprar em cada um desses instrumentos que imitavam pássaros. O ambiente ficou matizado e atmosférico durante largos minutos. Posso jurar que era na Amazónia que estavam os nossos espíritos quando, subtilmente, o piano apareceu para se juntar às águas de um rio, ou de dois que apesar do encontro não se misturam. A selva é hipnótica e avassaladora. Desperta sensações primordiais e primitivas enquanto o pensamento viaja por essa américa pré-colonial, primordial e selvática. 

Amaro é herdeiro de Cage. Replicou a técnica estendida que consiste em interferir com o interior do piano e a sua caixa de ressonância. Seja com objetos lá colocados, ou fazendo-o com as mãos sobre as cordas, como se lhe mexesse nas vísceras. Em “Samba de César”, a sua mão esquerda sobre as cordas, fez o piano soar como um synth, moderno e eletrónico. Como um feiticeiro alquímico que agrega, mistura e dilui as suas essências, Amaro Freitas, manuseia a clássica música europeia, o jazz nova-iorquino e os sons tribais dos trópicos, para colocar diante de nós uma pedra filosofal.   

Algumas vezes, a tensão surgia nas progressões harmónicas do piano — como em “Baquaqua” — ou quando Amaro transforma as teclas em batuque e faz-nos pensar em Monk para um ritual iniciático. Digão Braz, na bateria, suou. Era entre os dois que se arquitetavam as maiores afinidades: parada e resposta, desvios e conluios, sorrisos abertos e olhares cúmplices que guiavam a música e encetavam desvios. O público, bastante heterogéneo diga-se, foi-se apercebendo da grandiosidade singular do que estava a ser tocado, dos lugares onde chegava a sala. Os aplausos, os incentivos vocais, eram, a cada pausa, mais intensos e ruidosos. No final todos aplaudiram em pé, efusivos. 

Herberto escreveu: “Dai-me uma jovem mulher com a sua harpa de sombra / e o seu arbusto de sangue. Com ela / encantarei a noite”. Amaro só precisa de um piano para encantar cada noite que falta ao mundo. No caso, um Bösendorfer, que cativou e se enlaçou a Amaro Freitas, de tal forma, que o próprio reconheceu tê-lo feito mudar o alinhamento previsto. Despertando-lhe o desejo de o levar para casa. É verdade, a conexão era impressionante, umbilical. E todos nós desejámos levar Amaro para casa. Levamos um pouco, na memória e no corpo, como se leva um livro gravado na alma, um poema ou uma frase, para casa ou para a cova.


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