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Fotografia: Marcella Cytrynowicz
Publicado a: 10/12/2020

Pensar o jazz através do seu cânone.

“Afro Blue” ou a história de um standard

Fotografia: Marcella Cytrynowicz
Publicado a: 10/12/2020

Falemos de standards de jazz… mas comecemos pelo início e digamo-lo sem rodeios: o jazz foi um dos mais importantes fenómenos da cultura afro-americana durante a primeira metade do século 20. Talvez tenha sido o advento do bebop nos anos 40 o primeiro grande acontecimento fracturante na esfera desta linguagem, marcando-a irreversivelmente, transportando-a – e, até certo ponto, limitando-a – aos círculos intelectuais, através da sua formalização e complexificação. As consequências deste episódio para a cultura foram imensas: pessoas, que até aqui dançavam freneticamente ao som do swing e dixieland, começaram a sentar-se para ouvir bebop. Assistia-se, então, a um gradual distanciamento do género das suas origens populares, manifestado não só através de evolução musical, mas também da sua lenta emancipação em relação ao berço social que o concebeu. Esta evolução do jazz foi, também, acompanhada de uma progressiva dispersão do mesmo por toda a sociedade americana. Mais tarde, dito êxodo estendeu-se a todo o mundo, não sendo hiperbólico referirmo-nos a este fenómeno como a um evento de globalização. Assim, apesar da actual prevalência do jazz um pouco por todo o globo, é importante não olvidar as suas raízes culturais, isto é, que o género surgiu primariamente como manifestação de um conjunto de tradições populares e folclóricas com profundas ligações à identidade do povo afro-americano.

Naturalmente, a qualquer evento de globalização encontram-se acoplados episódios de “descaracterização” e – tal como se refere de forma pejorativa nos tempos pós-modernos — apropriação cultural. No entanto, considerar a globalização do jazz como sendo um fenómeno exclusivamente negativo é não menos do que ignorar a excepcional evolução que este teve como linguagem e estética musical, visto que, ao longo da sua história, as múltiplas mutações e derivações que sofreu permitiram que assumisse identidades independentes e firmadas em várias partes do globo, importantes no tecido cultural de comunidades com poucas ou nenhumas ligações à original tradição afro-americana. Tal divergência evolutiva está claramente patente na ideia de jazz europeu, que começou a delinear uma identidade inteligível, mas ainda lata, nos anos 60/70, e que gradualmente sofreu um processo de cristalização selectiva, tanto que, na actualidade (e já nas passadas décadas, pois claro), facilmente se distinguem as sonoridades escandinavas das britânicas. Aliás, o jazz pelo mundo nunca foi tão rico e diverso como o é no presente — haverá porventura maior homenagem e reconhecimento ao valor da tradição de um povo do que a sua incorporação em realidades tão distintas?

Existe um outro ponto de importante relevância nesta ideia da origem do jazz como manifestação das tradições culturais do povo afro-americano, que tem que ver com os elementos que definiram a sua história e que, portanto, são simbólicos da mesma. Assim como a música portuguesa tem os seus cancioneiros populares, o jazz também possui um reportório próprio, um cânone jazzístico formado por temas vulgarmente designados como standards de jazz. Se no caso português o Cancioneiro Popular Português de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça é a obra de referência da modernidade, no jazz os vários volumes do Real Book — obra concebida por estudantes da Berklee College of Music nos anos 70 e à qual foi atribuída um nome em contraponto com os originais fake books — são os mais conhecidos repositórios que agregam transcrições de clássicos do género. Apesar de já terem quase 50 anos, estes são livros que continuam a inspirar músicos um pouco por tudo o mundo, que ainda os consideram os companheiros ideais para uma jam session.

Como compreender, então, que apesar da ubíqua presença do jazz no tecido cultural de toda a sociedade ocidental, principalmente desde a segunda metade do século passado, o número de standards de jazz produzidos tenha vindo a diminuir drasticamente com o passar das décadas? Uma pesquisa não exaustiva – que carece de fontes mais fidedignas — revela-nos uma tendência em relação à qual muitos dos leitores poderão já ter algumas pistas empíricas. O padrão é claro: desde os anos 30/40, décadas em que o número de standards produzidos atingiu o seu máximo, assiste-se a uma continua redução do número de composições que atingem este estatuto. Podemos afirmar que existe uma correlação entre a progressiva globalização e diversificação do jazz e a diminuição do número de standards criados. Para além disso, uma leitura mais analítica dos dados estabelece ainda que, dada uma qualquer década após os anos 50, estamos certos de que nela foram produzidos menos de metade do número de standards do que na década imediatamente anterior. Uma observação, no mínimo, curiosa…



Evidentemente não se poderá atribuir este fenómeno a uma progressiva diminuição da qualidade das composições. Do mesmo modo, assumir que ainda não houve tempo para um amadurecimento dos temas poderá ser um argumento a favor do comportamento observado nas recentes décadas, mas não é suficientemente forte para explicar a notável diminuição do número de standards de jazz criados, por exemplo, nos anos 60/70, quando comparados com a produção prolífica dos anos 30/40. Se há uma tendência que tem dominado o género desde as décadas 60/70 é a sua diversificação (pensemos no surgimento do free jazz, post-bop, jazz-funk, etc…) e globalização (o surgimento e consolidação de uma identidade jazzística europeia e sucessivos acontecimentos). Assim, por hipótese — não obstante serem vários os factores que influem nestes números –, uma possível explicação para tal tendência reside na ideia de que, ao longo do tempo, o género foi-se fragmentando em diversos pólos musicais — os quais, na sua totalidade, formam uma matriz à qual se foi dando o nome de jazz –, segmentação essa que ocorreu de forma contínua e irreversível.

Para tentar perceber o porquê deste facto estar na base da redução do número de standards produzidos ao longo do tempo, tentemos responder à seguintes questões: o que determina que, dentro de um género musical, uma composição seja elevada ao estatuto de clássico? Será possível fazê-lo quando o próprio género já não se prende a uma única tradição cultural? Antes de tudo, convém, primeiro, constatar e perceber que quanto maior for a partilha de propriedade de um determinado objecto por várias entidades, menor é autoridade de cada uma dessas entidades sobre dito objecto. Por conseguinte, aplicando este raciocínio ao caso do jazz, facilmente percebemos que ao ser de todos, o jazz acaba por não ser de ninguém. Deste modo, o género tem a si associada uma fatal heterogeneidade que impossibilita a existência de uma autoridade que estabeleça consonância e conformidade. Isto é, por outras palavras, sugerimos que a alienação do jazz da tradição cultural que o originou — resultado de uma progressiva diversificação e globalização que tiveram como consequência a dispersão cultural do mesmo — não permite a atribuição consensual de estatutos. Como resultado, está implicitamente dificultada a ocorrência da teia de acontecimentos que permite que um qualquer tema se eleve à condição de standard ou clássico. De ressalvar, contudo, que esta relação é unidirecional, pois a qualidade divergente da evolução jazzística permite que existam standards comuns a todas as tradições (pólos musicais) vigentes.

Mas porquê tocar standards de jazz? Que significado tiveram estes na história do jazz? E qual a sua importância para as gerações actuais? Construindo sobre as ideias expostas no artigo Reinvenções em tons de azul – que mapeia a história de reimaginações do catálogo da Blue Note –, comecemos por apontar o óbvio: a familiaridade do público com estes temas estabelece uma ponte de entendimento entre os músicos e os ouvintes. Quem não conhece as linhas melódicas de “All The Things You Are” ou de “Autumn Leaves”? Além disso, a teoria de Signifyin(g), tal como formulada por Henry Louis Gates, Jr., tem sido igualmente proposta como uma possível explicação para a continua reutilização e revisão das diferentes tradições artísticas afro-americanas. No que toca aos standards de jazz, esta transposição de significado pode ser atingida, por exemplo, através da modificação de certas nuances dos temas, nos quais determinados aspectos são enfatizados e outros ocultados de forma a obter, como resultado final, uma nova unidade de significação. Por fim, de grande expressão histórica, mas porventura menos importante no presente, é o facto de os standards terem sido uma segura fonte de rendimento para os artistas, muito devido ao facto de as progressões de acordes não poderem ser protegidas por direitos de autores. Este facto incentivava os músicos de bebop a manterem a base harmónica de um standard –– já só de si uma garantia de sucesso –, e a sobreporem-lhe um novo arranjo ou melodia, podendo, assim, reclamar os direitos de autor desta “nova” composição.

Como ilustração de parte argumentação apresentada supra, tracemos, então, a história de “Afro Blue”, um célebre standard jazz que tem acompanhado várias gerações. Composto pelo percussionista cubano Mongo Santamaría, “Afro Blue” foi gravado em 1959 juntamente com o sexteto de Cal Tjader, estando fortemente imbuído na tradição musical afro-cubana. Originalmente uma composição instrumental, no mesmo ano Oscar Brown, Jr. escreveu a letra que viria a ser conhecida através da voz de Abbey Lincoln. Em 1963, John Coltrane apresentou o arranjo mais famoso do tema, alterando-lhe habilmente a cadência e enriquecendo-o com improvisações modais. Mas a história de “Afro Blue” não pereceu nos anos 1960. Seguiram-se interpretações de McCoy Tyner (1973), Dee Dee Bridgewater (1974), Takao Uematsu (1977), Dianne Reeves (1991) e Gary Burton (2001), para nomear apenas algumas interessantes versões do tema que pertencem a uma longa lista que engloba vários estilos e gostos musicais. Numa perfeita exemplificação da evolução divergente da linguagem jazzística a partir de um mesmo antepassado comum, olhemos para a presente e caleidoscópica expressão de “Afro Blue”.



[Robert Glasper]

Naquele que é o magnum opus da Robert Glasper Experiment, Black Radio, que foi editado pela Blue Note em 2011, encontramos uma das mais interessantes versões modernas deste clássico do jazz. A roupagem com que aqui se veste “Afro Blue” é a do hip hop com toques de neo-soul. Além disso, a complementar esta base altamente groovy, ouvimos a sedutora voz de Erykah Badu, que eleva com brilho e classe a composição a um patamar estelar. Um clássico do jazz que se viu convertido num clássico do neo-soul.



[Sam Gendel]

Satin Doll é, sem sombra de dúvida, um dos melhores álbuns de 2020. A forma inovadora e original como Sam Gendel trabalha o saxofone através de processamentos e efeitos é espantosa e sem precedentes, pondo-nos mesmo a duvidar das palavras do mestre Peter Brotzmann que não acredita “no papel da electrónica” no futuro do jazz. Além disso, e para além de outras maravilhosas versões de standards como “Goodbye Pork Pie Hat” ou “Freddie Freeloader”, Satin Doll inclui uma reinvenção de “Afro Blue”, que foi gravada ao vivo e de forma espontânea “numa festa, sem edits ou overdubs, nada”. O resultado é realmente mágico – uma ode à criatividade.



[Shaun Martin, Matthew Ramsey e Mike “Blaque Dynamite”]

Shaun Martin, Matthew Ramsey e Mike “Blaque Dynamite” poderão ser nomes que ressoarão nos ouvidos dos melómanos mais atentos. Shaun Martin é mais conhecido por ser o homem que comanda as teclas da banda de jazz fusão Snarky Puppy. Já Matthew Ramsey e Blaque Dynamite são jovens virtuosos e promissores — aquele baixista, este baterista – que têm recentemente acompanhado nomes como Erykah Badu ou os próprios Snarky Puppy. Os três músicos lançaram este ano o álbum Three-O, registo que navega de forma fluída e virtuosa pelo jazz, funk e r&b. Para ser incluído nesta lista, será evidente que também inclui uma versão de “Afro Blue”, admiravelmente adornada pelas eléctricas passagens sintéticas de Martin, pelas redondas linhas de baixo de Ramsey, e pelo groove de Baque Dynamite. Outra versão a escutar, principalmente pelos mais afectos ao jazz de fusão.



[Kahil El’Zabar]

O percussionista chicagoano Kahil El’Zabar tem tido um ano de enorme produção musical. Em apenas quatro meses, lançou dois álbuns notáveis que já fizeram as linhas de uma das edições de Notas Azuis. El’Zabar é um verdadeiro médium de um plano superior, canalizando uma dimensão intransponível para o mundo térreo através da sua música. Com efeito, “Afro Blue” é usado em America the Beautiful como porta de entrada para uma hipnótica meditação, a qual transcende e expande o tema original de tal forma que o músico teve o cuidado de a intitular de “Sketches of an Afro Blue”. E é exactamente isso que se ouve: esquiços, laivos e reminiscências do standard, brilhantemente fundidos numa matriz circular, etérea e polirrítmica que eleva e sana o espírito. “Afro Blue” versão jazz espiritual.



[Ayo]

Ayo tem um novo disco na manga intitulado Royal, e com ele chega-nos uma outra versão de “Afro Blue”. A génese do tema aqui apresentada é minimalista: escuta-se apenas voz, contrabaixo e percussão. Apesar desta ascética reinterpretação, o fruto produzido é bastante bem conseguido, sendo um excelente exemplo de que a redução de uma composição às suas componentes fundamentais é suficiente para produzir uma grande música quando essas componentes são de qualidade. Prova viva de que a linha melódica de “Afro Blue” ressoa na nossa alma quaisquer que sejam os adornos que a complementem.



[Dawda Jobarteh]

Originário da Gâmbia, mas actualmente a residir na Dinamarca, Dawda Jobarteh é descendente de uma importante linhagem de tocadores de kora, um instrumento cordofónico usado principalmente no oeste de África. Uma versão de “Afro Blue” da autoria de Jobarteh pode ser encontrada no seu trabalho de 2018, I Met Her By The Rivers, na qual se sentem vibrações das laconicamente denominadas músicas do mundo. Uma notável representação do amplo alcance e profunda repercussão que o standard tem por todas as estéticas musicais.

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