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Fotografia: Kisshomaru Shimamura

A rever os clássicos com uma lente moderna.

Sam Gendel: “O que o jazz clássico tinha a dizer em relação à aprendizagem foi o que me meteu a caminho”

Fotografia: Kisshomaru Shimamura

Satin Doll, trabalho do saxofonista americano Sam Gendel lançado há um par de meses na histórica Nonesuch, foi uma extraordinária surpresa surgida no meio de uma igualmente extraordinária época pandémica: música com a ousadia de olhar para clássicos – de Duke Ellington a Hermeto Pascoal, de Miles Davis a Lester Young – a partir de uma moderna perspectiva sónica que admite a electrónica, e não o clássico estúdio, como espaço de invenção embora, e talvez paradoxalmente, não rejeite as práticas tradicionais que sempre existiram neste género.

A partir da sua casa em Los Angeles, Sam Gendel soa realizado, feliz, confessa adorar o tempo livre que os tempos nos “ofereceram” a todos e não esconde a curiosidade sobre o país de quem lhe liga, deixando claro que sente saudades de viajar e descobrir novas cidades.

O músico, que no passado gravou vários projectos para a Leaving Records, selo associado da Stones Throw, e que já colaborou com gente como Carlos Niño ou Sam Wilkes, encontra-se agora no mesmo selo que Brad Mehldau, Jeff Parker ou Laurie Anderson, uma marca que representa uma elevadíssima fasquia de qualidade e que pode funcionar como trampolim para qualquer carreira. Gendel diz que se sente em casa na Nonesuch e revela que já tem os próximos passos definidos, mas não abre propriamente o jogo.

Satin Doll mereceu atenção do Notas Azuis que não regateou níveis de entusiasmo perante a sua particular vibração. Agora, a palavra a Sam Gendel: “Olá, de onde é que me estás a ligar?”, começa ele por perguntar.



Ericeira, uma vila perto de Lisboa.

Podes soletrar? Quero ver melhor onde te encontras.

Claro: E – R – I – C – E – I – R – A…

Uau. Estou a ver fotos agora. Parece um local espantoso. Tens sorte em estar em recolhimento num sítio assim. Los Angeles é bem mais caótica…

Mesmo agora, no meio da pandemia?…

Bem, devo dizer que neste momento está tudo bem mais calmo, consigo conduzir para todo o lado, não há trânsito, o ar está limpo, tem feito bom tempo e as pessoas aproveitam para sair e fazer exercício, o que é bom. Eu tenho aproveitado para cozinhar, tenho tido tanto tempo livre. Finalmente. É bom poder pensar livremente. Eu percebo o quão complicada é a situação, as dificuldades, mas até tenho apreciado este tempo, tenho tentado focar-me no lado positivo de tudo isto.

Olha, se me permites, gostava de começar por te questionar sobre a capa do teu álbum, Satin Doll. Quem desconheça o teu nome e olhe para aquela ilustração se calhar fica à espera de ir ouvir um disco de rockabilly, garage punk ou algo do género…

Tens razão. Eu estava a escutar o material do álbum e a imagem que me ocorreu, a metáfora, foi aquele estado mental de alguém que personaliza um carro… Eu cresci perto de comunidades para quem a cultura dos lowriders é quase uma religião, aqui mesmo na Califórnia. É uma forma de expressão de individualidade bem fixe no sentido em que se pega numa coisa e se faz o que é preciso para essa coisa seja única, pessoal. Penso que foi exactamente isso que nós fizemos com a música. Pareceu-me por isso mesmo muito apropriado que a componente visual deste conjunto de peças apontasse para aí. Eu tenho um amigo que faz aerografias e é incrível. É o Mario Ayalla. Ele aceitou fazer a capa. Ele fez mesmo uma pintura, um quadrado de 30 polegadas, muito cool. E fez também a contracapa que se inspira no tipo de cartazes que são usados nos encontros de lowriders, cartazes em que o dono de um determinado carro lista todas as peças e especificações do seu modelo. Foi esse o estilo que ele usou, mesmo cool.

Espero mesmo que o original esteja já na parede da tua sala…

[Risos] Vai estar, vou tratar de o mandar emoldurar primeiro.

Lançaste três projectos com a malta da Leaving Records. Como é que se dá o salto de uma editora como essa para um selo histórico como a Nonesuch?

Bem, deixa-me dizer-te para começar que eu não olho para este tipo de coisas como histórias acabadas: continuo a ter uma relação com a Leaving Records, claro, apenas num plano diferente. É um selo gerido pelo meu amigo Matthew (MatthewDavid) e nós continuamos a fazer muitas coisas juntos. Mas a Nonesuch abordou-me, assim meio inesperadamente. Eles já há algum tempo que seguiam o meu trabalho, propuseram que eu fizesse algo para eles, pareceu-me uma boa ideia e aqui estamos. Agora tenho igualmente uma relação com eles e isso é fantástico. Acho que é uma vantagem dos tempos modernos, poder estar envolvido com diferentes selos, pensar em diferentes projectos. Não é como eu imagino que acontecia antigamente em que um artista encontrava quem o representasse e pronto, ficavam juntos até que a coisa azedasse ou então enquanto tudo funcionasse e isso poderia prolongar-se por muitos anos. As coisas parecem-me mais fluídas agora. Eu também posso fazer coisas sozinho, editá-las eu mesmo… sinto que vivo no seio de uma família que simplesmente vai crescendo.

Esse acordo com a Nonesuch prevê mais lançamentos?

Sim, espero que sim. É esse o meu desejo. Eu olho para a Nonesuch como a minha casa agora. Espero que seja possível continuar a realizar projectos com eles. Definitivamente espero que isto cresça. Já ando a pensar em coisas, a fazer planos.

Não conheço muitos saxofonistas que sejam também guitarristas. São instrumentos muito diferentes que exigem capacidades técnicas muito distintas. Como é que isso aconteceu?

Bem, com a guitarra não a tento tocar de forma correcta, pelo menos não no sentido clássico ou tradicional. Aprendi sozinho, nunca ninguém me ensinou a técnica ideal para tocar e por isso desenvolvi a minha própria forma de tocar. E na verdade nem quero aprender a tocar de forma tradicional, porque não é assim que quero abordar… não é assim que eu quero que a minha mente encare o instrumento. Com o saxofone já não é assim: sei tocá-lo de uma forma mais tradicional, até porque passei tanto tempo com ele. E também porque é mesmo necessário ter alguma técnica clássica para conseguir tocar este instrumento: não é exactamente fácil pegar num saxofone e extrair assim som dele. A guitarra, aliás um pouco como o piano, é mais fácil pegares nela e extraíres som, mesmo que não saibas tocar uma nota, mesmo que não saibas o que estás a fazer é possível ainda assim fazer coisas que tenham algum sentido. Foi assim que eu fiz, arranjei o meu próprio sistema, não sou bem capaz de o explicar, mas os meus amigos guitarristas gostam bastante da forma como eu toco, mas também, quando me vêem, não conseguem evitar perguntar: “que raio estás tu a fazer?” [risos]. Porque, de facto, quando eu toco, percebo que possa parecer bizarro para quem é guitarrista. Mas eu gosto. E nem é só com a guitarra: eu sou capaz de pegar noutros instrumentos e fazer alguma coisa. Acho que enlouqueceria se só tocasse saxofone. Os outros instrumentos lembram-me o que é brincar na areia, de forma livre, fazendo formas estranhas. Com o saxofone isso também pode acontecer, mas é apenas bom ter uma ferramenta com que se pode criar sem preocupações técnicas, sem julgamentos mentais que podem surgir a qualquer momento.

És autodidacta em ambos os instrumentos?

Mais ou menos. Tive lições de saxofone quando era bem mais novo, havia pessoas onde eu vivia que tocavam e com quem tive aulas que ajudaram imenso, mas assim que cheguei à faculdade posso dizer que já estava basicamente por conta própria, no que ao instrumento diz respeito. Acho que o essencial do que aprendi foi mesmo a ouvir discos. Penso que li algures que o Charlie Parker ou o Miles Davis, estes tipos basicamente esgueiravam-se para os clubes quando eram miúdos e depois eram chamados de vez em quando ao palco, tocavam e aprendiam ali mesmo, em frente de uma plateia. E faziam disparates em frente de públicos realmente exigentes. Foi assim que alguns deles aprenderam e quando eu li essas histórias quando era mais novo percebi que essa era mesmo a melhor maneira. Por isso, sempre me interessei por ir a concertos, ouvir discos com atenção e esse foi o processo que adoptei no que ao jazz diz respeito. Bem, na verdade em relação a toda a música porque nunca me limitei a escutar apenas jazz. Penso que o que o jazz clássico tinha a dizer em relação à aprendizagem foi o que me meteu a caminho, o que me ajudou a desenvolver os meus ouvidos e a minha técnica.

Já agora, e porque sei que há uma certa proximidade, o que é que alguém como Ry Cooder, obviamente um mestre, pensa da tua abordagem à guitarra?

Ele gosta. Já tocámos juntos, na verdade, porque por vezes eu toco com o filho dele, o Joachim, e nós os três costumamos juntar-nos e fazer umas jams. A minha guitarra é muito diferente, singular, e cruza mais ou menos uma guitarra, um baixo e um sintetizador, tudo de uma vez, é muito estranho, e nós fazemos umas coisas juntos e penso que ele curte o que eu trago para a mesa. A melhor parte disso é que quando tocamos, ele está na guitarra, ou no banjo ou mandolim ou o que quer que ele agarre, e eu basicamente tento ouvi-lo e aprender naquele momento. Quando ele está presente as lições nunca acabam. Basta ter os ouvidos abertos.



Quanto ao Satin Doll: como é que te decidiste por aquele conceito de abordar criativamente todos aqueles clássicos?

Foi apenas algo que me surgiu de repente na cabeça. Bem, se calhar há muito já que pensava que seria fixe um dia fazer um disco que fosse mais tradicional de certa maneira, um disco em que eu pudesse explorar esse tipo de material. E por isso a ideia voltou quando a Nonesuch perguntou o que gostaria eu de fazer. Falei-lhes neste meu desejo e a coisa aconteceu.

E que tipo de pensamento presidiu à escolha dos temas em concreto?

Nem posso dizer que tenha havido grandes considerações, foi apenas uma combinação de ter crescido a ouvir toda aquela discografia clássica, de ter todas aquelas melodias às voltas na minha cabeça. Quando estávamos a gravar eu ia escolhendo canções assim sem pensar muito, o que quer que me surgisse no pensamento, sem grande ponderação. Quando acabávamos de gravar um tema – às vezes até quando estávamos a gravar um tema… – eu pensava no que iríamos fazer a seguir. Porque teve tudo que acontecer muito rápido, só tivemos uns quantos dias para terminar o disco. Por isso nem preparei nada antecipadamente, na verdade, excepto o espaço do estúdio, o setup. As ideias musicais não estavam planeadas antecipadamente. Fomos escolhendo as canções à medida que íamos gravando.

E quando decidias que melodia abordar a seguir discutias ideias de arranjo com os teus companheiros antes de carregarem no rec ou foi tudo resultado de improvisos?

Aconteceu tudo no momento. Assim que terminávamos um tema, e só fazíamos um ou dois takes ao vivo, eu seleccionava o tema seguinte e depois eu poderia sugerir algo ou então um deles, o Gabe ou o Philippe começava a tocar alguma coisa e seguíamos por ali, sem grandes conversas prévias. De certa maneira, foi exactamente como acontecia antigamente, nos anos 50 ou assim. Muitos dos clássicos do Miles resultavam de sessões rápidas, um ou dois dias em estúdio no máximo, arranjos decididos na hora. Nós mantivemo-nos fiéis a essa ideia, a esse espírito.

Achei interessante teres o cuidado de mencionar, nas notas que colocaste no site, que não houve microfones convencionais no estúdio. Usaste um pickup para o teu saxofone?

Sim, tudo ligado em linha a uma mesa a válvulas que eu tenho. Foi fixe, porque ficou tudo com um som muito coeso. Fui eu mesmo o engenheiro da sessão e penso que ter gravado assim fez com que tudo se colasse melhor, estávamos todos a passar pela mesma mesa, foi quase como se tivéssemos usado um único microfone para captar tudo. E na verdade só tínhamos uns sete ou oito inputs na mesa.

Portanto, ao vivo, o setup é exactamente o mesmo?…

Nem mais. Tudo igual. Mandamos todos os nossos sinais para uma interface de oito canais e gravamos tudo ao vivo. Na verdade, e por causa do que está a acontecer, ainda nem fizemos um concerto em condições com este setup. [Risos] Bem, já fizemos um par de apresentações informais, numa angariação de fundos e num casamento. Os concertos ainda não aconteceram. Era suposto ter havido um par deles, mas foi tudo cancelado, obviamente. Mas quando houver concertos, o que vai acontecer é que a audiência vai escutar os dois outputs da minha mesa, como se estivéssemos no estúdio.

Um dos temas foi mesmo gravado no jantar de ensaio de um casamento, certo?

[Risos] Sim, a nossa versão de “Afro Blue” foi gravada ao vivo numa festa, sem edits ou overdubs, nada. E nem sequer ensaiámos o tema também, foi tudo espontâneo.

Quando escrevi sobre o teu álbum referi que pareces ter invertido um processo muito comum na nova escola jazz: artistas como o Makaya McCraven, por exemplo, gravam muita coisa ao vivo, mas depois pegam nesse material e tratam-no em estúdio, editam as gravações, manipulam o material e reconfiguram tudo em novas peças. Tu pareces seguir na direcção contrária: abraças as possibilidades que a tecnologia dá logo à partida, mas usas tudo isso com a clássica integridade de uma sessão ao vivo.

Eu adoro o que essa gente anda toda a fazer, o Makaya é incrível. Mas sim, devo dizer que não tenho esse tipo de pensamento ou esse tipo de paciência de me sentar, escutar o material e pensar em como hei-de reconfigurar tudo. Gosto de encontrar a estranheza logo à partida, capturá-la e pronto. Faço-o com métodos mais clássicos. Mas, hey, isso também pode mudar. É assim que eu penso neste momento presente, mas posso muito bem querer seguir por outros caminhos depois. E sim, tens razão quando dizes que o meu processo parece o oposto, mas diria que todos perseguimos um sentimento similar. São apenas questões metodológicas o que nos separa.

Portanto, no teu caso, pensas a electrónica como uma forma de expandires as capacidades expressivas do teu instrumento?

Suponho que sim. Tento apenas seguir o que escuto na minha cabeça. Às vezes isso implica o recurso a alguma tecnologia, mas esse pensamento está sempre a mudar, nada está cristalizado.

Já andas a cozinhar o teu próximo projecto, tens gravado alguma coisa nova?

Vou fazendo as coisas à medida que surgem diante do meu percurso, sem estabelecer objectivos prévios, tenho que confessar. Normalmente o que acontece é que vão surgindo pequenas ideias, basicamente a toda a hora, e de vez em quando uma delas vai um pouco mais fundo do que as outras e frequentemente essa é a que se transforma num novo projecto. Mas o que me mantém focado são as pequenas coisas que vou fazendo no dia a dia, que é simplesmente tocar. Divertir-me. Rir. Explorar as coisas livremente. Tenho algo em mente, posso dizer. Já está formada na minha cabeça e será muito diferente de Satin Doll.

Tens ouvido alguma coisa interessante nestes tempos mais livres?

Na verdade, não muita coisa. As minhas escutas têm ciclos e ultimamente tenho tido uma relação muito passiva com a música, não tenho investigado grande coisa. Acho que nesta fase ando mais a fazer coisas do que a procurar… São fases, às vezes acontece o contrário e posso ficar obcecado com alguma coisa. Mas ultimamente limito-me a ligar a rádio e a rodar o botão, em onda média também, há sempre umas surpresas, encontram-se estações inesperadas. Por vezes consigo sintonizar uma estação tailandesa cheia de música estranha que eu adoro. Por vezes sou mesmo bom a procurar e encontrar coisas novas e outras vezes perco a paciência. Estou numa fase assim, agora. É como com a roupa de segunda mão: às vezes consigo procurar no meio de toneladas de coisas e encontrar peças mesmo fixes, mas noutras vezes só penso em pagar algo mais e ter algo que alguém já escolheu por mim [risos]. Mandem-me coisas [risos].


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